O Derby Paulista
Em São Paulo, o tempo não para. Entre uma esquina e outra pulsa um sentimento que não se explica: o futebol. E entre os becos e avenidas existe um duelo que ultrapassa a bola rolando. Um duelo de história, de povo, de alma: o Derby Paulista.
O clássico entre Corinthians e Palmeiras nunca foi apenas futebol. Desde os primeiros encontros, ainda no início do século XX, esse clássico construiu sua fama muito mais pela alma das arquibancadas do que pelo simples placar final. É ali, no concreto frio dos estádios, que essa rivalidade ganhou voz, identidade e eternidade.
De um lado, o Corinthians nasceu do povo e para o povo. A sua torcida se reconheceu desde cedo como resistência, como pertencimento, como grito coletivo de quem raramente tinha tudo, mas nunca deixou de ter voz.
Do outro, o Palmeiras carregou a marca da colônia italiana, da organização, da força comunitária e do orgulho de uma identidade que também precisou lutar para existir em meio ao preconceito e às guerras de fora do futebol.
E foi em 1917, que o caminho dos dois se cruzou pela primeira vez.

A consolidação da Rivalidade
O primeiro embate entre essas duas forças já nos dava um gostinho do que iria ser esse confronto. O Corinthians vinha de uma série de jogos invicto, mas viu essa invencibilidade cair justamente para o que viria a ser o seu maior rival. O Palmeiras venceu o jogo por 3×0, dando um recado de que vieram para ficar.
Nos anos seguintes, o futebol paulista se consolidava, a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras passou a ser definida tanto pelos títulos quanto pela ocupação do espaço. Quem cantava mais alto, quem levava mais bandeiras, quem empurrava o time quando a bola parecia pesada demais.
Mas foi em 1969 que a rivalidade ganhou um novo contorno: mais ácido, mais emocional, mais pessoal. Naquele ano, uma tragédia abalou o Corinthians: os jogadores Eduardo e Lidu, faleceram em um grave acidente de carro. Com o elenco abalado e desfalcado, o clube solicitou à Federação Paulista a liberação para inscrever dois novos atletas no elenco. Para isso, era necessário a permissão de todos os clubes participantes do Campeonato Paulista. Todos aprovaram. Menos um: o Palmeiras.

A recusa caiu como uma bomba no clube. Dirigentes, jogadores e principalmente a torcida corinthiana entenderam aquilo não como um ato burocrático, mas como uma demonstração de frieza. O gesto foi classificado por muitos como uma atitude “porca”. E a palavra pegou. O apelido, nascido como ofensa, virou parte da identidade do clássico. Desde então, o Palmeiras passou a ser chamado assim pelos rivais.
Mas o tempo tem suas ironias. Anos depois, a torcida do Palmeiras decidiu assumir o apelido. Resignificou o insulto. Transformou em símbolo. Em bandeira. Em canto de arquibancada.

O Derby como herança de geração
O clássico não pertence apenas a quem está em campo. Ele atravessa famílias, bairros e décadas. Ser corintiano ou palmeirense, em semanas de derby, sempre foi mais do que uma escolha clubística: é assumir um lado numa história que vem antes e continua depois.
Pais ensinam filhos a cantar o hino antes mesmo de saberem ler. Avós contam histórias de jogos que ninguém mais viu, mas que todos sentem como se tivessem vivido. A derrota dói, a vitória dura mais
E isso acontece porque, nesse clássico, a torcida nunca aceita ser figurante. Ela se coloca como protagonista. O jogo começa horas antes, no caminho para o estádio, e só termina quando a última provocação é feita, ou seja, nunca.
No derby, a bola rola, mas a história quem escreve é a torcida. Sempre foi assim. E enquanto houver um corintiano disposto a cantar até perder a voz e um palmeirense pronto para responder à altura, esse clássico continuará sendo mais do que um jogo.
Será, para sempre, um duelo de almas.

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