Falar de Abel Ferreira no futebol brasileiro é mexer num vespeiro. Para alguns, ele é o maior técnico da história recente do país, talvez até de todos os tempos. Para outros, um treinador ultrapassado, que vive de momentos que já passaram. No meio disso tudo, existe a análise fria: resultados, impacto tático e comportamento.
E é aí que a discussão fica interessante.
O que ninguém pode negar
Se existe algo indiscutível na trajetória de Abel no Palmeiras, é a capacidade de competir. Ele transformou o clube em uma máquina de decisão. Libertadores, Brasileirão, Copa do Brasil, não importa o palco. O time entra para ganhar.
O principal mérito dele é a mentalidade. Abel criou um ambiente onde o elenco entende o peso de cada jogo. O Palmeiras raramente é um time ingênuo. É organizado, intenso e, principalmente, resiliente. Quantas vezes a equipe virou jogos improváveis? Isso não é acaso. É trabalho.
Taticamente, ele também mostrou versatilidade. Já jogou com três zagueiros, linha de quatro, variações no meio, transições rápidas, jogo direto quando necessário. Não é um treinador preso a um único modelo. Ele lê o adversário e adapta o plano.
Outro ponto forte é a gestão de grupo. Mesmo com elenco estrelado e pressão constante, o vestiário raramente explode publicamente. Há controle, há hierarquia, há comando.
Mas nem tudo são flores
Ao mesmo tempo, Abel construiu um personagem que, em alguns momentos, pesa contra ele.
A postura explosiva à beira do campo gera desgaste. Suspensões, embates com arbitragem, coletivas tensas. Em certos momentos, parece que o discurso de “nós contra todos” alimenta demais o conflito e menos o jogo.
Além disso, há críticas sobre o estilo de jogo em partidas grandes fora de casa. Em alguns confrontos decisivos, o Palmeiras opta por uma postura excessivamente reativa. Funciona? Muitas vezes, sim. Mas também já custou eliminações e atuações abaixo do esperado.
Existe ainda a questão da relação com o ambiente externo. Parte da torcida rival vê arrogância onde o palmeirense enxerga confiança. E isso é inevitável quando se vence tanto.
O peso do legado
Abel Ferreira já é um dos treinadores mais vitoriosos da história do Palmeiras e isso não é opinião, é estatística. O que se discute agora não é competência. Ele elevou o nível de exigência do clube. O torcedor hoje não aceita menos do que disputar todos os títulos. Isso é consequência direta do trabalho dele.
Sem clubismo: é impossível ignorar o impacto positivo. Mas também é legítimo questionar comportamento, escolhas pontuais e estilo em determinados jogos.
No fim das contas, Abel é exatamente o que todo grande técnico costuma ser: vencedor, intenso e polarizador.
E talvez seja justamente isso que o mantenha no topo.

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