Pernambuco, Cultura e Futebol
O Povo Pernambucano não vive as coisas pela metade. Aqui, tudo é intenso. Terra do frevo, do maracatu, das pontes do Recife, das ladeiras de Olinda e de um povo que transforma festa em identidade. Aqui, cultura não é acessório: é a própria essência. E talvez por isso o futebol pernambucano nunca tenha sido morno. Ele pulsa no mesmo ritmo acelerado do carnaval, e na mesma paixão com que se vive tudo nesse chão.
Em tempos em que o futebol brasileiro, principalmente o nordestino, se dilui em torcidas mistas e relações cada vez mais distantes entre clube e arquibancada, Pernambuco segue na contramão. De acordo com a pesquisa da Ibope/Repucom, o estado concentra alguns dos torcedores mais fiéis do Nordeste, gente que escolhe um clube como primeira opção e sustenta essa escolha como extensão da própria vida. Não é coincidência. É cultura.

E no centro dessa paixão está um clássico que ajuda a explicar tudo isso: Sport x Santa Cruz, o Clássico das Multidões
110 Anos de uma das maiores rivalidades do País
Neste ano, o duelo completa 110 anos desde o seu primeiro encontro, no dia 6 de maio, num amistoso que, à época, parecia apenas mais um jogo rotineiro entre dois jovens clubes. Mal sabiam aqueles torcedores que estavam a assistir ao nascimento de uma das rivalidades mais populares e antigas do futebol brasileiro. Um clássico que não foi criado por marketing, televisão ou redes sociais. Foi criado e permanece até hoje, pelo povo.
Curiosamente, o nome que hoje carrega tanto peso, Clássico das Multidões, só surgiria 27 anos depois, em 1943, criado pelo Diário de Pernambuco. Eis um pequeno trecho do Jornal:
“Mesmo que a disputa de hoje não tivesse as características de uma decisão importante, estaríamos certos do seu êxito, pois o clássico Santa Cruz x Esporte tem o seu prestígio e o seu numeroso público…o clássico das multidões rendeu a importância de vinte e um mil cruzeiros…”

Ali estava tudo explicado. Não importava a tabela, o campeonato ou a fase. Importava o povo. Importava a multidão.
Não é à toa que, mesmo numa região onde quase metade dos torcedores admite simpatizar por mais de um clube, os clubes pernambucanos aparecem entre os mais fiéis. Aqui, escolher um time ainda significa escolher um lado. Um bairro. Uma memória de infância. Uma herança passada de pai para filho.
O Clássico das Multidões atravessou guerras, crises, rebaixamentos e glórias. É verdade que a fase dos dois clubes não é a melhor nos últimos anos, mas a torcida já mostrou que esse fanatismo sobreviveu ao tempo, porque nunca dependeu apenas da bola. Ele vive na rua, na provocação entre amigos de escola e do trabalho, no silêncio pesado depois da derrota e na euforia que dura dias após a vitória.
Pernambuco sente o futebol diferente porque sente a vida diferente. E enquanto houver frevo nas ladeiras, voz rouca nas arquibancadas e essa fidelidade quase teimosa ao próprio clube, Sport x Santa Cruz continuará sendo mais do que um jogo. Será sempre um espelho do povo que o criou.
Porque, como já dizia um velho doutor de uma boa história Japonesa, ninguém/nada morre enquanto é lembrado.









