Categoria: Opinião

  • Endrick é o futuro da Seleção, mas o Brasil não sabe esperar

    Endrick é o futuro da Seleção, mas o Brasil não sabe esperar

    O tempo é uma coisa curiosa. Em alguns momentos, passa devagar demais. Em outros, corre sem pedir licença. Há situações em que poucos minutos parecem anos, e outras em que anos passam sem que a gente perceba. O tempo não é igual para todos. Ele depende do lugar, do contexto e, principalmente, da paciência de quem observa.

    No futebol brasileiro, essa paciência quase nunca existiu.

    Aqui, o tempo é curto. Curtíssimo. O jogador precisa estar pronto agora. Precisa decidir agora. Precisa carregar um país inteiro nas costas antes mesmo de aprender a lidar com a própria carreira e com o próprio ego. Não existe processo, amadurecimento ou erro aceitável. Existe cobrança imediata. E, quase sempre, injusta.

    Esse comportamento diz muito sobre nós. O brasileiro ama o futebol, mas trata seus talentos com pressa. Cria ídolos em um jogo e destrói no seguinte. Vive à procura do próximo salvador da pátria, como se uma geração inteira pudesse ser resumida a um único nome. E, misturada a esse imediatismo, existe a velha síndrome de vira-lata: só acreditamos totalmente quando o mundo o valida, e às vezes nem isso.

    Eu lembro claramente do dia em que João Pedro, ainda no Fluminense, marcou aquele gol de bicicleta contra o Cruzeiro. Foi um daqueles lances raros, que nos fazia voltar o vídeo infinitas vezes só para poder ver novamente. No dia seguinte, o discurso já estava pronto: “novo Ronaldo”, “futuro camisa 9 da Seleção”, “salvação do futebol brasileiro”. Bastou a primeira oscilação de um garoto, algo absolutamente normal, para o tom mudar. Vieram as críticas e a impaciência. Hoje, João Pedro joga no Chelsea, provando que o talento nunca desapareceu. O problema era o tempo que não foi dado.

    Com Endrick, a história se repete, talvez de forma ainda mais intensa.

    Endrick é extremamente talentoso. Isso não está em discussão. Ele é forte, rápido, inteligente e competitivo. Mais do que isso, tem personalidade. Nunca se escondeu de um jogo grande. Pelo Palmeiras, decidiu partidas importantes e mostrou maturidade rara para alguém tão jovem. A virada histórica contra o Botafogo é um exemplo claro: Endrick chamou a responsabilidade quando o jogo parecia perdido, isto não é normal de um garoto.

    Mesmo assim, quando chegou ao Real Madrid, o relógio foi zerado. Cada partida virou uma martelada definitiva sobre o futuro do atacante. Cada jogo sem gol virou motivo de dúvida, cada partida sem jogar, um novo meme surgia nas redes sociais. Como se fosse simples chegar ao maior clube do mundo, com 18 anos, mudar de país, de idioma, de cultura, competir com jogadores prontos e ainda assim decidir imediatamente.

    Isso não é análise. É ansiedade.

    Endrick acaba virando alvo não pelo que faz, mas pelo que representa: a esperança de um país que perdeu referência e quer encontrá-la rápido demais.

    Endrick não precisa ser o novo Ronaldo. Não precisa carregar sozinho a Seleção Brasileira. Ele precisa de tempo. 

    E o que acontece quando este tempo é dado? O que acontece quando o tempo joga a favor de Endrick, e não contra? Ele entrega. O empréstimo ao Lyon não é fuga, nem retrocesso, é apenas dar a ele o que ele sempre quis: Tempo.

    Quando tem sequência, cresce. Quando não é tratado como solução imediata de tudo, joga futebol. E que belo futebol Endrick vem mostrando na França. Até aqui são 4 jogos, 4 gols e 1 assistência. O Jovem jogador Brasileiro, no seu primeiro mês no novo clube, já foi eleito o melhor jogador de Janeiro da League One.

    Mas, o torcedor brasileiro não pode cometer o erro de ler esse momento como confirmação apressada de genialidade, nem como redenção definitiva. Precisa ler como processo. Como consequência natural de quem sempre teve futebol, mas agora tem algo ainda mais valioso.

  • Clássico das Multidões: 110 anos de Sport x Santa Cruz e o Legado da Paixão Pernambucana

    Clássico das Multidões: 110 anos de Sport x Santa Cruz e o Legado da Paixão Pernambucana

    Pernambuco, Cultura e Futebol

    O Povo Pernambucano não vive as coisas pela metade. Aqui, tudo é intenso. Terra do frevo, do maracatu, das pontes do Recife, das ladeiras de Olinda e de um povo que transforma festa em identidade. Aqui, cultura não é acessório: é a própria essência. E talvez por isso o futebol pernambucano nunca tenha sido morno. Ele pulsa no mesmo ritmo acelerado do carnaval, e na mesma paixão com que se vive tudo nesse chão.

    Em tempos em que o futebol brasileiro, principalmente o nordestino, se dilui em torcidas mistas e relações cada vez mais distantes entre clube e arquibancada, Pernambuco segue na contramão. De acordo com a pesquisa da Ibope/Repucom, o estado concentra alguns dos torcedores mais fiéis do Nordeste, gente que escolhe um clube como primeira opção e sustenta essa escolha como extensão da própria vida. Não é coincidência. É cultura.

    https://ge.globo.com/pe/futebol/noticia/mistos-times-pernambucanos-tem-as-torcidas-mais-fieis-do-nordeste-veja-levantamento.ghtml

    E no centro dessa paixão está um clássico que ajuda a explicar tudo isso: Sport x Santa Cruz, o Clássico das Multidões

    110 Anos de uma das maiores rivalidades do País

    Neste ano, o duelo completa 110 anos desde o seu primeiro encontro, no dia 6 de maio, num amistoso que, à época, parecia apenas mais um jogo rotineiro entre dois jovens clubes. Mal sabiam aqueles torcedores que estavam a assistir ao nascimento de uma das rivalidades mais populares e antigas do futebol brasileiro. Um clássico que não foi criado por marketing, televisão ou redes sociais. Foi criado e permanece até hoje, pelo povo.

    Curiosamente, o nome que hoje carrega tanto peso, Clássico das Multidões,  só surgiria 27 anos depois, em 1943, criado pelo Diário de Pernambuco. Eis um pequeno trecho do Jornal:

    “Mesmo que a disputa de hoje não tivesse as características de uma decisão importante, estaríamos certos do seu êxito, pois o clássico Santa Cruz x Esporte tem o seu prestígio e o seu numeroso público…o clássico das multidões rendeu a importância de vinte e um mil cruzeiros…”

    Ali estava tudo explicado. Não importava a tabela, o campeonato ou a fase. Importava o povo. Importava a multidão.

    Não é à toa que, mesmo numa região onde quase metade dos torcedores admite simpatizar por mais de um clube, os clubes pernambucanos aparecem entre os mais fiéis. Aqui, escolher um time ainda significa escolher um lado. Um bairro. Uma memória de infância. Uma herança passada de pai para filho.

    O Clássico das Multidões atravessou guerras, crises, rebaixamentos e glórias. É verdade que a fase dos dois clubes não é a melhor nos últimos anos, mas a torcida já mostrou que esse fanatismo sobreviveu ao tempo, porque nunca dependeu apenas da bola. Ele vive na rua, na provocação entre amigos de escola e do trabalho, no silêncio pesado depois da derrota e na euforia que dura dias após a vitória.

    Pernambuco sente o futebol diferente porque sente a vida diferente. E enquanto houver frevo nas ladeiras, voz rouca nas arquibancadas e essa fidelidade quase teimosa ao próprio clube, Sport x Santa Cruz continuará sendo mais do que um jogo. Será sempre um espelho do povo que o criou.

    Porque, como já dizia um velho doutor de uma boa história Japonesa, ninguém/nada morre enquanto é lembrado.

  • Portugal no ranking europeu: voltar ao lugar certo

    Portugal no ranking europeu: voltar ao lugar certo

    Estou contente. Muito contente, até. Mas convém começar por pôr as coisas no sítio certo: isto não é histórico, não é inédito e não é nenhum milagre futebolístico. O regresso de Portugal ao sexto lugar do ranking da UEFA é apenas isso mesmo, um regresso. Voltar a um lugar onde, olhando para a qualidade das equipas, para o rendimento europeu e para a capacidade formativa do país, nunca deveríamos ter deixado de estar.

    A última noite europeia ajudou a alinhar perceções com realidade. O SL Benfica venceu o Real Madrid por 4-2 num jogo absolutamente insano, com direito a golo de guarda-redes no último minuto, desses que parecem exagero mas acabam por ter impacto bem real. Não foi apenas um resultado marcante, foi um empurrão direto no ranking e uma daquelas noites que fazem o futebol português levantar a cabeça e lembrar-se de quem é.

    O Sporting CP foi a San Mamés, esteve a perder por duas vezes e ganhou no fim. Não é só ganhar fora, é a forma como se ganha. É maturidade europeia, é saber sofrer, reagir e decidir. Já não é novidade ver equipas portuguesas a competir olhos nos olhos em contextos difíceis, e isso diz muito sobre o momento atual do nosso futebol.

    Festejo do golo da vitória do Sporting em BIlbao – Foto retirada de: Facebook/Sporting CP

    E quando olhamos para o que vem aí, o otimismo não nasce do nada. O Sporting está forte, consistente e cada vez mais confortável neste patamar europeu. O FC Porto, sempre que cai na Liga Europa, assume automaticamente o papel que faz parte da sua identidade: lutar para ganhar a prova, sem desculpas e sem medo do contexto. No Benfica, um investimento forte é quase uma regra anual. O SC Braga continua a crescer de forma sustentada, joga cada vez melhor e já não é surpresa em competições europeias. E depois há o Vitória SC, em plena restruturação financeira, com uma cidade inteira por trás e um potencial enorme para, finalmente, atingir patamares que nunca alcançou, mas que fazem todo o sentido para a sua dimensão, identidade e peso histórico.

    Durante anos, ouvir que o campeonato neerlandês era superior ao português parecia quase um dado adquirido. A Eredivisie foi, de facto, uma referência mundial. Um país pequeno que produziu talento em série, com nomes lendários como Johan Cruyff, Marco van Basten, Bergkamp, Ruud Gullit, Sneijder, Robben, Robin van Persie, Sedoorf, Koeman ou Ruud van Nistelrooy. Só enumerá-los quase dispensa explicação.

    Mas o futebol vive de ciclos, e o atual já não é o deles. Hoje, olhando para o topo, é difícil não concluir que as melhores equipas portuguesas são superiores às melhores equipas neerlandesas. Mais habituadas à pressão, mais regulares na Europa e mais preparadas para contextos de Champions League. É verdade que a Holanda continua a ter mais profundidade abaixo do topo, mas quando se fala de ranking, vagas europeias e estatuto, o que pesa são as equipas que chegam longe. E aí Portugal tem estado melhor.

    Convém também dizer isto sem rodeios: a grande vantagem histórica da Holanda nunca foi apenas a qualidade do topo, mas sim a distribuição geográfica do seu futebol. A Eredivisie é talvez o campeonato mais bem espalhado territorialmente do mundo, com clubes enraizados em praticamente todas as cidades, estádios cheios e uma cultura local fortíssima. Em Portugal, o futebol profissional está concentrado no litoral e maioritariamente no Norte, enquanto o Sul vive quase exclusivamente do Benfica e do Sporting. E mesmo com essa desvantagem estrutural evidente, o topo português consegue hoje ser mais forte, mais competitivo e mais decisivo na Europa do que o neerlandês.

    Distribuição geográfica dos clubes na Liga Holandesa

    Tudo isto ganha ainda mais força quando se olha para a formação. Portugal vive provavelmente o melhor momento formativo do mundo. Sim, do mundo. Até acima do Brasil, que atravessa uma fase estranha, de transição e identidade indefinida. O jogador português sai cada vez mais completo, taticamente inteligente, competitivo e pronto para qualquer contexto. Não é coincidência que esteja espalhado pelas melhores ligas europeias.

    Roger Fernandes, Rodrigo Mora e Geovany Quenda – três das principais promessas portuguesas – foto retirada de: fpf.pt

    Ao nível de seleções, a comparação também não joga a favor dos Países Baixos. Ao longo dos anos, tornaram-se quase uma presença confortável para a Seleção das Quinas, acumulando memórias pouco felizes. Quando países de dimensão semelhante se cruzam repetidamente e o histórico pesa para um lado, isso também conta.

    Oitavos de final do Mundial 2006, Portugal e Holanda, na famosa batalha de Nuremberg!

    Por isso sim, estou contente. Não porque seja um feito irrepetível, mas porque este momento abre uma porta muito concreta e muito importante. Em 2027/28, Portugal pode voltar a ter três equipas na Liga dos Campeões. Três clubes portugueses no maior palco do futebol europeu, não por convite, não por favor, mas por mérito acumulado ao longo de várias épocas.

    Num país pequeno, centralizado, com muitas limitações estruturais, mas com talento, competitividade e capacidade de se reinventar. Não estamos a escrever uma história nova. Estamos, finalmente, a retomar a nossa própria história.

    E isso, honestamente, sabe ainda melhor.

  • Paquetá no Flamengo: uma contratação histórica que muda o patamar do futebol brasileiro

    Paquetá no Flamengo: uma contratação histórica que muda o patamar do futebol brasileiro

    Confesso que são poucas as vezes em que uma contratação me faz parar e pensar no impacto histórico que ela pode ter. A chegada de Lucas Paquetá ao Flamengo é uma delas. Não é exagero dizer que estamos falando de uma das maiores contratações da história do futebol brasileiro, talvez atrás apenas da vinda de Romário, também pelo próprio Flamengo, num contexto diferente, mas igualmente simbólico.

    Paquetá não regressa ao Brasil em fim de carreira, nem como aposta emocional. Volta no auge da idade, com rodagem pesada no futebol europeu, experiência de seleção e maturidade competitiva. É um jogador formado no clube, mas lapidado nos maiores palcos do mundo. Isso, por si só, já coloca esta negociação num patamar completamente fora da curva.

    É claro que existe um contexto que não pode ser ignorado. Paquetá vem de uma fase turbulenta, marcada por problemas jurídicos que impactaram diretamente a sua sequência e o seu valor de mercado. Mas é justamente aí que o Flamengo mostra força institucional. Poucos clubes no mundo, não apenas no Brasil, teriam estrutura financeira, respaldo político e ambiente esportivo para absorver um jogador desse tamanho num momento delicado e transformá-lo novamente em protagonista.

    E não nos enganemos: o futebol de Paquetá nunca esteve em dúvida. Estamos a falar de um meia de altíssimo nível, capaz de jogar em diferentes funções, com leitura de jogo, intensidade, chegada à área e personalidade. Não à toa, Pep Guardiola já demonstrou interesse no jogador. Quando um dos maiores treinadores da história enxerga valor em ti, não é por acaso.

    Do ponto de vista esportivo, o impacto é brutal. O Flamengo já era, com alguma folga, o melhor time das Américas em termos de elenco, profundidade e competitividade. Com Paquetá, esse domínio aumenta. Não é apenas mais uma peça; é um jogador que eleva o nível coletivo, que melhora quem está à sua volta e que oferece soluções em jogos grandes, especialmente na Libertadores, onde detalhes decidem tudo. Como vi uma vez um torcedor falando no aplicativo “X”, Lucas Paquetá é um Gerson melhorado. E acredito fielmente nesta colocação, pois acho Paquetá muito mais jogador do que o meia do Cruzeiro.

    A discussão financeira também precisa ser tratada com honestidade. Sim, é uma contratação cara. Muito cara. Mas o Flamengo pode fazê-la. E pode porque planejou, vendeu bem, acumulou caixa e se comportou como clube grande durante anos. Os movimentos recentes mostram isso. Não é uma jogada irresponsável, muito pelo contrário, é consequência de boas gestões que transformaram o poder econômico em vantagem esportiva.

    Existe ainda um fator simbólico que pesa muito. Trazer Paquetá de volta é um recado claro ao futebol Brasileiro e a toda a América: o Flamengo vem para tentar fazer a maior hegemonia da história, eles não estão satisfeitos, e talvez nunca estejam. Em um cenário em que jogadores sul-americanos costumam voltar apenas para “encerrar ciclos”, o rubro-negro traz um atleta de prateleira europeia para liderar o projeto esportivo. Isso muda a percepção do mercado e reposiciona o futebol brasileiro há um novo patamar.

    No fim das contas, esta não é apenas uma grande contratação. É uma contratação histórica. Daquelas que marcam época, que redefinem padrões e que serão lembradas independentemente dos títulos. Se dentro de campo corresponder ao que sempre foi capaz de entregar, o Flamengo não só reforça o seu elenco, mas consolida de vez o seu lugar no topo do futebol das Américas. E como disse o próprio Lucas Paquetá em sua despedida ao West Ham: “Recusei ir para times rivais. Eu nunca pedi para ir embora, eu pedi para voltar para casa. Estou voltando para casa…”

    A nação pediu, e o ídolo acatou. Seja bem-vindo a sua casa, Craque.

  • Deyverson é anunciado pela LDU e terá novo desafio no futebol sul-americano

    Deyverson é anunciado pela LDU e terá novo desafio no futebol sul-americano

    Quando vi o anúncio de Deyverson como novo reforço da LDU, a primeira reação foi de estranheza. Não pelo nome em si, porque Deyverson é conhecido em toda a América do Sul, mas pelo momento. Estamos a falar de um atacante que vem de um ano ruim, rebaixado com o Fortaleza, com números modestos e desempenho bastante questionado. Ainda assim, olhando com mais calma, a contratação faz mais sentido do que parece à primeira vista.

    A LDU não é um clube qualquer no continente. Vem de uma temporada sólida, foi vice-campeão equatoriano e chegou às semifinais da Copa Libertadores. Se não fosse a virada histórica sofrida diante do Palmeiras, tinha tudo para disputar aquela final. É uma equipe competitiva, organizada e que sabe exatamente onde quer chegar, de volta ao topo das Américas. E é justamente por isso que a escolha por Deyverson chama atenção: a LDU não buscou um atacante em ascensão, mas alguém capaz de decidir jogos grandes.

    E aqui entra o ponto central. Deyverson não é um jogador comum. Ele nunca foi. Tecnicamente limitado em vários aspetos, irregular ao longo da carreira e, muitas vezes, mais falado fora do campo do que dentro dele. Mas há algo que o acompanha desde cedo: o faro para o imprevisível. Em jogos grandes, quando tudo parece perdido, é quando a mágica acontece para o atacante Brasileiro.

    Foi assim no Palmeiras, onde marcou o gol do título da Libertadores de 2021, contra o Flamengo. Foi assim também no Atlético-MG, em 2024, quando não teve números brilhantes, mas foi absolutamente decisivo para levar o time à final da Libertadores. Esse é o Deyverson que a LDU espera encontrar.

    O problema é que o Deyverson de 2025 esteve longe disso. A temporada pelo Fortaleza foi fraca, sem impacto real, culminando num rebaixamento doloroso para o time Nordestino. Não foi apenas uma má fase individual; foi um ano em que tudo deu errado. E isso pesa. Não dá para fingir que não pesa. O atacante chega ao Equador com crédito limitado e muitas dúvidas no ar.

    Ainda assim, existe um fator que pode mudar completamente este cenário: o encontro com Tiago Nunes. A parceria entre pode dar muito certo, e não por acaso. Tiago Nunes é um dos técnicos Brasileiros mais promissores dos últimos anos, fazendo um trabalho quase impecável no time equatoriano. Ele entende o perfil do Deyverson, já que, em 2018 e 2019, comandou jogadores como Rony e Pablo, atletas com personalidades únicas que em suas mãos brilharam muito, garantindo o título da Copa Sul-Americana de 2018 e Copa do Brasil em 2019. A LDU não precisa de um artilheiro de 25 gols por temporada. Precisa de alguém que resolva quando o jogo pede personalidade, e isso, Deyverson tem de sobra.

    Claro que há riscos. Muitos. Se o atacante repetir o desempenho do último ano, a contratação será vista como erro de avaliação. Mas, se a LDU conseguir resgatar o Deyverson decisivo, incômodo e imprevisível, pode ter encontrado exatamente o que faltava ao seu elenco: um jogador que não respeita roteiros.

    No fim das contas, esta não é uma contratação óbvia. É uma contratação ousada. E, no futebol sul-americano, ousadia e loucura costumam andar de mãos dadas. Às vezes dá errado. Outras vezes, vira história.

  • Arbitragem, VAR e o “critério”: quando o futebol precisa de leis, não de interpretações

    Arbitragem, VAR e o “critério”: quando o futebol precisa de leis, não de interpretações

    Sou defensor do VAR e não tenho qualquer problema em dizê-lo. Quem acompanha futebol há mais tempo lembra-se bem, e a malta mais nova já nem imagina, das injustiças absurdas que decidiam jogos, campeonatos e descidas. Golos em fora de jogo escandalosos, penáltis inexistentes, faltas claras ignoradas. O VAR veio para tentar corrigir isso e, nesse sentido, foi um avanço inevitável. O problema nunca foi o VAR. O problema é a forma como ele está a ser utilizado.

    Vivemos hoje um paradoxo difícil de aceitar. Num futebol onde circulam milhões, com tecnologia de ponta e impacto global, continuamos sem um manual claro, objetivo e universal de regras. A arbitragem vive refém de uma palavra demasiado confortável para justificar quase tudo: critério. Diz-se constantemente que há lances que dependem do critério do árbitro, mas raramente se explica que critério é esse, onde está escrito ou quem o define. O mesmo lance é falta num jogo e segue noutro, sem que ninguém consiga explicar porquê.

    O exemplo mais gritante é a eterna discussão da mão na bola e da bola na mão. Um lance que decide jogos continua a ser interpretado de forma subjetiva, semana após semana. O mesmo movimento, a mesma posição do braço, duas decisões completamente diferentes. O mesmo acontece com toques de braço na cara. Muitos são involuntários, fruto do movimento natural do corpo, outros são claramente propositados, usados para ganhar espaço ou travar o adversário. Ainda assim, tudo acaba muitas vezes marcado da mesma forma, como se não houvesse intenção, gravidade ou contexto.

    Depois surgem as explicações do costume. Este árbitro deixa jogar. Aquele é mais paciente. Não deu cartão porque o jogo está a começar. Está a tentar controlar o jogo. Mas a lei não pode depender do minuto, da nacionalidade do árbitro ou do ambiente no estádio. A regra tem de ser a mesma aos cinco, aos quarenta e cinco ou aos noventa minutos. Caso contrário, não é uma regra. É improviso.

    Este vazio legal não protege ninguém. Não protege jogadores, clubes nem os próprios árbitros. Pelo contrário, cria uma falsa sensação de poder, empurra decisões solitárias e deixa a classe constantemente exposta ao erro e à desconfiança. O VAR devia ser apoio, um recurso normal, um instrumento de segurança. No entanto, hoje parece quase um sinal de fraqueza. Há árbitros que evitam chamá-lo porque acham que fica mal, que tira autoridade ou que passa a ideia de dúvida. Isto não faz sentido. Dúvida não é fraqueza. Fraqueza é errar quando existem meios para corrigir.

    Não quero entrar no campo da corrupção. Esforço-me genuinamente por acreditar que não acontece ou que acontece pouco. Mas é precisamente por isso que as regras têm de ser objetivas. Quanto mais subjetividade existir, mais espaço se abre para suspeitas, mesmo que injustas.

    O mesmo se aplica à gestão do tempo de jogo. Comportamentos que deviam ser simples de resolver continuam a ser tolerados sem grande explicação. Jogadores substituídos que atravessam meio campo a passo lento, guarda-redes que perdem tempo descaradamente nos pontapés de baliza, lançamentos laterais intermináveis. Há VAR, há tecnologia, há cronómetros. Definir tempos máximos não é complicado. Passou o tempo? A bola muda de equipa. Sem avisos excessivos, sem pedagogia seletiva, sem bom senso aplicado apenas quando convém. A regra existe para ser aplicada, não para ser negociada.

    É justo reconhecer que o papel do árbitro não é fácil. Aplicar dezenas de regras sob pressão monumental, com jogadores a protestar, bancadas a ferver e o receio constante de aparecer nas capas dos jornais no dia seguinte, está longe de ser simples. Alguns até parecem gostar desse protagonismo, mas devia haver um consenso básico. Quanto menos se fala de um árbitro, melhor foi a sua arbitragem.

    Toda esta reflexão ganhou forma em jogos concretos. Na quinta-feira passada, ao ver um Viktoria Plzeň frente ao FC Porto, assisti a um abuso claro de perda de tempo por parte da equipa da casa. Compreendo e aceito isso. Faz parte do xadrez que é o futebol, sobretudo quando se está a ganhar a um dos favoritos à competição. O que não aceito é um árbitro deixar-se ir nessa gestão. O Plzeň aproveitou bem a permissividade, como qualquer equipa faria. O problema não foi quem perdeu tempo, foi quem deixou. O segundo tempo teve cerca de vinte minutos de tempo útil e acabou compensado com apenas cinco minutos. O empate surgiu no tempo extra, mas podia não ter surgido, e isso não pode depender da sorte.

    O único argumento verdadeiramente legítimo contra o VAR é emocional. O VAR estraga o festejo imediato, e o festejo é talvez o maior sentimento do futebol. É instinto, explosão, catarse coletiva. O golo deixou de ser absoluto e passou a ser suspenso. Ainda assim, a pergunta mantém-se. Preferimos festejar um golo injusto ou esperar alguns segundos por um golo limpo?

    O futebol perdeu espontaneidade? Em parte, sim. Mas tinha tudo para ganhar justiça. A responsabilidade maior é da FIFA. Cabe-lhe definir regras claras, universais e inequívocas, proteger os árbitros com leis sólidas e retirar-lhes o peso da interpretação criativa. Só assim poderemos perceber se os erros são humanos ou se estamos, de facto, perante incompetência.

    Porque enquanto tudo for critério, ninguém é verdadeiramente responsabilizado.
    E num desporto que tanto amamos, isso devia ser inaceitável

  • O drible em extinção: por que o caos vale ouro num mundo de robôs táticos

    O drible em extinção: por que o caos vale ouro num mundo de robôs táticos

    O futebol moderno transformou-se numa ciência exata. Hoje, os jogos são decididos em tablets, analisados por mapas de calor e dissecados por métricas de «xG» (gols esperados).

    Neste cenário de laboratório, a conclusão fria e pragmática é inegável: o futebol de rua, aquele da anarquia, da improvisação pura e da finta desnecessária, não é o caminho mais curto para a vitória. A organização vence o talento desordenado. No entanto, é precisamente essa ditadura da eficiência que transformou o jogador que ainda ousa driblar na mercadoria mais valiosa do planeta.

    Não podemos ser ingênuos ao ponto de negar a evolução. As equipas que dominam o cenário mundial fazem-no através do controle, da ocupação de espaços e da redução de riscos. O drible, por natureza, é um risco. Estatisticamente, um passe lateral seguro tem mais chances de manter a posse do que uma tentativa de passar por dois defensores. O futebol de rua, com a sua essência caótica, perde para a geometria tática no placar final. Mas o futebol não vive apenas do placar; vive do espetáculo e do desequilíbrio.

    A fábrica de jogadores idênticos

    O problema atual é que as academias de formação, tanto no Brasil como na Europa, estão a produzir jogadores em série, como se fossem automóveis numa linha de montagem. O jovem atleta aprende desde cedo a jogar a um ou dois toques, a respeitar o corredor e a não perder a posse de bola. Criamos uma geração de atletas fisicamente perfeitos e taticamente irrepreensíveis, mas assustadoramente previsíveis.

    É neste contexto de padronização que a magia ganha um novo peso económico e emocional. Quando todos os jogadores em campo parecem robôs programados para não errar, aquele único indivíduo que tem a coragem (e a capacidade) de quebrar o script torna-se um diamante. A escassez gera valor. É por isso que jogadores como Estêvão, Vinícius Jr. ou o jovem Lamine Yamal capturam a imaginação do mundo instantaneamente. Eles não são apenas talentosos; eles são anomalias no sistema.

    O drible como ferramenta de elite

    O destaque que estes jogadores recebem hoje não é apenas nostalgia; é uma necessidade tática de alto nível. Num jogo onde as defesas são blocos compactos e impenetráveis, o passe lateral já não resolve. É preciso o «fator caos». É preciso o jogador que, com um movimento de corpo herdado do futebol de rua, desmonte uma estrutura defensiva que demorou meses a ser construída pelo treinador adversário.

    Portanto, vivemos um paradoxo fascinante. O futebol de rua, como sistema de jogo, está morto e não traz títulos. Mas os elementos individuais desse futebol — a ginga, o drible curto, a imprevisibilidade — nunca foram tão decisivos. Num mundo onde a estatística tenta prever tudo, o jogador que faz o que o computador não consegue calcular é quem decide as finais e quem vale centenas de milhões.

    O futebol pode ter-se tornado uma ciência para os treinadores, mas continua a ser uma arte para quem decide. E enquanto as táticas garantem que a equipa não perde, é a magia rara e em extinção do drible que garante que a equipa ganha — e que o público não adormece.

  • Botafoguenses: nós já vimos este filme

    Botafoguenses: nós já vimos este filme

    No dia 1 fui a um churrasco do meu amigo argentino. Quem já leu outros artigos meus sabe. Estava lá um rapaz brasileiro com a camisola 13 do Botafogo, número que me dá boas memórias: Alex Telles no FC Porto, jogador que deixa saudades, até mais pela atitude do que pelo jogo jogado, embora não fosse nada mau de pés ahahah. O rapaz estava contente porque o Botafogo contratou um jovem argentino chamado Martín Anselmi. E a minha reação, numa mesa cheia de adeptos do FC Porto, foi imediata: eu conto ou vocês contam? Anselmi foi provavelmente a coisa mais desastrosa que aconteceu ao FC Porto desde que tenho memória.

    Curiosamente, no meio de todo aquele hype inicial da chegada de Anselmi ao Porto, estava também presente o meu amigo argentino, simpatizante do FC Porto, que foi o primeiro a lançar o alerta. No meio da euforia geral, disse algo que na altura soou quase a heresia: “Não festejem. Ele vai ser flop. Um treinador que perde e vem com desculpas baseadas em estatísticas, número de remates e expected goals não é treinador. É jornalista ou analista.” Na altura rimo nos. Hoje, a verdade é que tivemos de lhe dar razão.

    A chegada de Anselmi foi cheia de hype, mas com muitas dúvidas à mistura. Não é normal um sul americano vir treinar um clube europeu tão cedo na carreira, não é normal um treinador fazer o salto do Cruz Azul para um gigante europeu. A ilusão inicial vinha de um bom falante, bastante comunicativo, com ideias arrojadas, vídeos de guarda redes a jogarem com bola nos pés fora da área e uma postura que fazia lembrar um jovem Mourinho, só que a falar espanhol. Havia também a fama de praticar futebol atrativo da escola de Bielsa e, sendo argentino, esperava se raça e luta. A verdade é que eu não sou fã de Marcelo Bielsa. Não sou fã dessa romantização. Gosto de futebol pela estratégia. Por mais que certos jogos sejam feios, podem ser muito mais interessantes do que essas maravilhas que acabam em 5-5. As equipas de Bielsa não sabem defender e, acima de tudo, não ganham títulos. E isso não me causa interesse nenhum. O português é resultadista: olhamos para a solidez italiana, para o atrevimento brasileiro e para a estratégia e técnica espanholas.

    Anselmi foi um desastre no FC Porto. É certo que, quando chegou, já ninguém esperava que fosse campeão. Entrou a 8 pontos do líder Sporting e a 2 do Benfica, na segunda posição, na jornada 20. Mas também é certo que conseguiu piorar tudo. Não houve uma única melhoria visível, nem coletiva, nem individual, nem tática. Acabou a época a 9 pontos do segundo, Benfica, e a 11 do campeão Sporting. É certo que perdeu Galeno e Nico González, mas essa é mesmo a única desculpa ou benefício que lhe podemos dar. De resto, foi sempre a descer.

    Foi humilhado em casa pelo grande rival, o Benfica, por 1-4. Sim, isto para um portista é mais do que humilhante, é o pior que pode acontecer, algo nunca visto em dezenas de anos. Ainda foi fazer figura ridícula ao Mundial de Clubes: empate com o Palmeiras, derrota humilhante com o Inter Miami, meu Deus isto foi mais do que humilhante, e um jogo arcaico com o Al Ahly, um 4-4 completamente partido, sem qualquer rigor tático, demonstrando ausência total de critério, ideia ou estratégia. Um Mundial da vergonha.

    Martin Anselmi não foi capaz de lidar com as críticas. Foi teimoso com a sua formação e com a sua tática, mesmo não tendo jogadores para essas posições. William Gomes como ala defesa esquerdo, sim, ninguém entende. Essa teimosia começou a soar a arrogância. Nunca foi capaz de mostrar capacidade para corrigir ou alterar peças durante a partida, nunca soube ler o jogo. A verdade é que Anselmi tornou se motivo de gozo. Os portistas querem esquecer e os rivais fazem questão de lembrar. Diz se que, a nível metodológico, era uma confusão, o balneário não estava com ele e existia um relaxamento estranho. E ainda nem falei nos casos célebres de jogadores em discotecas e escândalos fora de campo, algo que não acontecia no Porto há anos.

    O contraste surge naturalmente com Francesco Farioli, italiano, que está a brilhar no FC Porto. Neste momento é líder invicto do campeonato, com apenas 4 golos sofridos, e um deles foi auto golo, o que diz tudo ahaha. Metódico, resultadista e capaz de criar outro tipo de união, não só com os jogadores como com os adeptos. É verdade que teve outro tipo de reforços e o facto de Anselmi ter vindo antes ainda lhe dá mais brilho. Conseguiu recuperar jogadores que não rendiam, como Diogo Costa, Alan Varela, Pepê, Francisco Moura ou Samu.

    Eu não sou fã de filosofias à Bielsa. Eu prefiro ganhar. Esse é o meu objetivo no jogo. Não quero perder 5-4 num jogaço. Deixo isso para os loucos que dizem amar o futebol mas nada gostam de ganhar. Anselmi terá as suas ideias, teve sucesso no Independiente del Valle e no Cruz Azul, gostavam dele. Não lhe retiro valor nem lhe desejo o insucesso. Espero que consiga ter uma boa carreira, mas tem de melhorar muito daquilo que mostrou no FC Porto, sob pena de correr o sério risco de ser lembrado como o pior treinador do século XXI dos dragões.

    Imagem de apresentação de Martin Anselmi como DT do Botafogo. Imagem: @botafogo

    Posto isto, acredito mais no sucesso dele no Botafogo do que no Porto, mas mesmo assim acho esta aposta uma loucura, mas John Textor é assim. Preparo já os meus amigos botafoguenses: ele é bom falante e, ao início, vai enganar vos. Veremos se consegue, e espero que sim, mas não vos consigo deixar nada de bom e confesso que não sinto um bom presságio ahaha.

  • O paradoxo de janeiro: vender para sobreviver ou manter para competir?

    O paradoxo de janeiro: vender para sobreviver ou manter para competir?

    Com a chegada de 2026, abre-se mais uma vez a janela de transferências de janeiro. Para os gigantes do futebol mundial, este é o momento de corrigir erros pontuais ou de dar um retoque de luxo no elenco.

    No entanto, para a grande maioria dos clubes, as equipas de pequena e média dimensão, o mês de janeiro não é uma oportunidade de compras, mas sim um período de angústia existencial. É o momento em que a realidade financeira colide violentamente com a ambição desportiva.

    No Brasil, onde os campeonatos estaduais estão prestes a começar, e em Portugal, onde a liga entra na sua segunda metade decisiva, o cenário repete-se com uma precisão cruel. Jogadores que se destacaram no último semestre em clubes como um Famalicão ou um Gil Vicente, ou que brilharam numa campanha surpreendente de um Cuiabá ou Fortaleza, tornam-se alvos fáceis para mercados com maior poder de compra. E não estamos a falar apenas dos tubarões da Europa; falamos da MLS, do Japão, da Turquia ou da segunda divisão inglesa.

    A venda como oxigénio financeiro

    Para os adeptos, ver a saída do craque da equipa a meio da época é uma traição. Mas, para quem gere as contas, é muitas vezes a única forma de manter as luzes acesas. A verdade nua e crua é que o modelo de negócio da maioria dos clubes «formadores» ou de menor investimento depende intrinsecamente destas vendas.

    A transferência de um lateral promissor ou de um ponta veloz para o estrangeiro representa, muitas vezes, o orçamento de uma época inteira garantido. Recusar uma proposta de alguns milhões de euros (ou dezenas de milhões de reais) em nome da competitividade desportiva é um luxo que presidentes de clubes com passivos elevados não se podem dar.

    O dinheiro da venda é o que paga os salários em dia de quem fica, o que melhora o centro de treinos e o que evita o colapso administrativo. Sem vender, o clube para.

    O desastre desportivo anunciado

    Por outro lado, o custo desportivo destas saídas é devastador e imediato. O treinador, que passou meses a incutir uma filosofia de jogo e a criar automatismos, vê-se subitamente sem peças, muitas vezes fundamentais no xadrez. A janela de janeiro é particularmente traiçoeira porque não dá tempo para adaptação. Quem chega para substituir o craque vendido precisa de render «para ontem», o que raramente acontece.

    Esta dinâmica cria uma distorção competitiva. Equipas que faziam campeonatos tranquilos em Portugal podem ver-se arrastadas para a luta pela manutenção após perderem o seu goleador em janeiro. No Brasil, clubes que projetavam um ano sólido podem começar a época desfigurados, comprometendo o desempenho nos estaduais e no início do Brasileirão.

    O ciclo vicioso da sobrevivência

    O drama das equipas pequenas é que elas são vítimas do seu próprio sucesso. Se acertam na contratação e o jogador brilha, ele sai. Se erram, ficam com o prejuízo. O mercado de janeiro expõe a fragilidade de um sistema onde a estabilidade é impossível para quem não está no topo da pirâmide alimentar.

    Em suma, a abertura desta janela é um lembrete amargo de que o futebol é, cada vez mais, uma indústria de exportação de ativos e menos uma competição de mérito contínuo.

    Para os clubes menores, o sucesso não se mede apenas pelos pontos na tabela, mas pela capacidade de equilibrar a equação impossível: vender a alma da equipa para garantir que o corpo do clube continue vivo. O adepto sofre, o treinador desespera, mas a roda do mercado continua a girar, implacável.

  • Entre o orgulho e a frustração: o sentimento do torcedor do Palmeiras ao fim da temporada  

    Entre o orgulho e a frustração: o sentimento do torcedor do Palmeiras ao fim da temporada  

    Ser torcedor do Palmeiras nunca foi simples. E talvez por isso também nunca tenha sido morno. A temporada de 2025 chegou ao fim e, junto com ela, veio um sentimento que o palmeirense conhece bem: uma mistura difícil de explicar entre orgulho e frustração.

    Orgulho porque o Palmeiras segue competitivo. Está sempre disputando, chegando, incomodando. Em um futebol brasileiro marcado por instabilidade, trocas constantes e projetos frágeis, o Verdão continua firme, organizado e presente nas decisões. Isso não é pouco. Isso não pode ser ignorado.

    Mas a frustração existe. E ela é legítima.

    Chegar perto e não conquistar dói. Bater na trave cansa. O torcedor sente porque se acostumou a ganhar, tanto que no jogo da final da Libertadores, vi meus dois sobrinhos indignados que o Palmeiras havia perdido, as crianças que vem de uma era vencedora do Palmeiras não estão habituados a perder, e como disse meu irmão Patrick o jogo seria de uma bola só, e foi. A régua mudou. O Palmeiras elevou o próprio nível nos últimos anos, e hoje não basta apenas competir. A expectativa é vencer. Sempre!

    Não é ingratidão. É consequência de um ciclo vencedor.

    Ao longo da temporada, o time mostrou entrega, intensidade e competitividade. Também mostrou limites. Em alguns momentos faltou ousadia, em outros precisão, em outros talvez repertório. E quando o último jogo acaba, a pergunta surge naturalmente na cabeça do torcedor: o que faltou para ir além?

    Ainda assim, existe algo que sustenta o orgulho. O Palmeiras não perdeu sua identidade. Continuou brigando até o fim, valorizando sua base, revelando talentos, mantendo um projeto claro. Não houve terra arrasada, nem sensação de fracasso total. Houve disputa. Houve entrega.

    A frustração não vem da incompetência. Vem da expectativa.

    Hoje, o torcedor do Palmeiras cobra porque sabe que dá mais. Cobra porque viu o clube se tornar protagonista. Cobra porque aprendeu que é possível disputar todos os títulos. E quem prova esse gosto não aceita facilmente dar um passo atrás.

    O desafio agora é equilíbrio. Reconhecer o que foi construído sem aceitar acomodação. Aplaudir o projeto sem fechar os olhos para os ajustes necessários. Apoiar o time sem deixar de exigir evolução.

    Talvez esse seja o momento mais maduro do torcedor palmeirense: entender que orgulho e cobrança não são opostos. Eles caminham juntos quando o clube está em alto nível.

    Ser palmeirense hoje é exatamente isso.
    Sentir orgulho de torcer para um clube forte, estruturado e respeitado.
    E, ao mesmo tempo, carregar a frustração de quem acredita que ainda dá para ir além.

    No fim das contas, esse incômodo é um sinal positivo.
    Só se cobra assim quem está acostumado a disputar tudo.

    O Palmeiras segue grande, e forte para próxima temporada. E o torcedor segue esperando mais, como sempre.