Categoria: Opinião

  • O futebol não piorou. Você que é refém do saudosismo

    O futebol não piorou. Você que é refém do saudosismo

    Existe uma tendência no futebol mundial que me incomoda cada vez mais: a necessidade quase automática de dizer que “antes era melhor”.

    Antes tinha mais craque.
    Antes tinha mais camisa 10.
    Antes a Seleção encantava.
    Antes o futebol era mais bonito.

    Eu não sou contra o saudosismo. Muito pelo contrário. O futebol vive de memória. Ele é construído por lembranças, por histórias repetidas na mesa do bar, por vídeos antigos que nossos familiares nos mostravam para que nos apaixonássemos pelo esporte. O problema começa quando o saudosismo deixa de ser essa memória afetiva e vira argumento definidor. E pior: vira argumento preguiçoso.

    Porque, sendo muito honesto, o futebol de hoje é muito mais difícil do que já foi um dia.

    O jogo evoluiu, e MUITO

    O esporte evoluiu de forma brutal nas últimas décadas. Taticamente, o jogo ficou mais organizado. Fisicamente, ficou mais intenso. Psicologicamente, ficou mais exigente. Hoje, um jogador corre quilômetros a mais do que corria nos anos 90. Ele precisa recompor, pressionar, atacar espaço, defender espaço, entender transições, ler o jogo em segundos. Não existe mais o luxo da lentidão, das faltas não marcadas.

    Nos anos 80 e 90, um talento acima da média conseguia decidir partidas mesmo com pouca participação defensiva. O futebol permitia isso. Hoje, se um camisa 10 não ajuda sem a bola, ele simplesmente não joga. O sistema engole o individual.

    Isso não significa que o talento acabou. Significa que o talente por si só, não é mais suficiente.

    O que muitas vezes é vendido como “falta de craques” talvez seja apenas uma dificuldade maior de brilhar de forma isolada, ou quem sabe uma falta de dedicação com o esporte. O jogo atual é coletivo demais para permitir que alguém resolva tudo sozinho com a mesma frequência de outras épocas. Os espaços são menores, a marcação é mais coordenada, os adversários estudam cada movimento.

    Mas, é mais confortável dizer que o futebol piorou do que admitir que ele ficou mais complexo.

    Hoje, até seleções medianas contam com departamentos de análise de desempenho, estatísticas avançadas, preparação física de elite e estudos minuciosos do adversário. O nível médio subiu. A diferença técnica entre as equipes diminuiu. A margem para erro está cada vez menor.

    A comparação injusta entre épocas

    Outro ponto que me incomoda: usamos o passado como régua injusta para medir o presente.

    Comparamos jovens de 20 anos com ídolos que já estavam no auge. Comparamos contextos completamente diferentes como se fossem equivalentes. É injusto.

    A Seleção de 1970 foi brilhante. Mas também enfrentou um cenário competitivo muito diferente do atual. O futebol europeu ainda não tinha o nível de intensidade que tem hoje. A globalização do jogo ainda estava em processo. O volume físico e tático era outro.

    Isso diminui o que foi feito? De forma alguma. Mas ajuda a entender que não dá para analisar o presente com os olhos do passado.

    O saudosismo é saudável quando inspira. Quando ele serve para lembrar que excelência é possível. Mas, ele se torna prejudicial quando vira muleta para explicar qualquer dificuldade atual. Quando cada jogador jovem é comparado a um ídolo consolidado como se fossem a mesma coisa.

    O futebol não ficou pior. Ele ficou mais difícil.

    E talvez seja justamente por isso que grandes atuações hoje sejam tão raras e tão valiosas. Brilhar em um cenário de altíssima exigência física, tática e mental é mais complexo do que já foi. Por isso mesmo, sujeitos como Messi e Cristiano Ronaldo são tão exautados.

    Eu continuo amando rever o passado. Continuo vibrando com lances antigos. Mas me recuso a usar a nostalgia como atalho para evitar entender o presente.

    E, para mim, o futebol não precisa viver tentando ser o que já foi. Precisa aprender a ser grande dentro da realidade que existe hoje.

  • O Brasil ainda pode depender de Neymar em uma Copa do Mundo?

    O Brasil ainda pode depender de Neymar em uma Copa do Mundo?

    Neymar ainda tem espaço na Seleção?

    Dizer isso não é fácil. Não para mim, nem para qualquer brasileiro que cresceu vendo Neymar jogar futebol como poucos na história do país. Neymar sempre foi fora da curva. O tipo de jogador que muda jogo, muda ambiente, muda expectativa. Mas futebol não é feito apenas de memória. É feito de presente. E, principalmente, de realidade.

    Na minha opinião, Neymar não deve ser convocado para a Copa do Mundo.

    O motivo não é técnico. Nunca foi. Neymar saudável e em ritmo, entra em qualquer seleção do planeta. O problema é que esse Neymar praticamente não existe mais. O que existe hoje é um jogador convivendo com problemas físicos constantes, longas pausas, retornos apressados e uma dificuldade cada vez maior de manter sequência de jogos. Copa do Mundo não é lugar para aposta de algo que não existe mais.

    Seleção exige continuidade. Exige processo. E exige que todos estejam alinhados com uma ideia clara de jogo.

    Neymar comemorando com a camisa do Brasil – Foto: Reprodução

    O momento atual de Neymar

    Até aqui, Neymar sequer foi convocado por Carlo Ancelotti. Um treinador do nível de Ancelotti não constrói plano pensando em exceções. Ele constrói pensando em equilíbrio, funcionamento coletivo e intensidade. Incluir Neymar agora significaria adaptar todo um modelo já em desenvolvimento para um jogador que ainda não mostrou que consegue sustentar esse nível fisicamente.

    “Mas Neymar se encaixa em qualquer esquema.”
    Sim. Sempre se encaixou. A pergunta é outra: o Neymar de hoje ainda é esse Neymar?

    O futebol mudou. O jogador que decide hoje não é apenas o mais talentoso, mas o mais constante, o mais intenso, o mais disponível. Ancelotti já deixou claro que se estiver bem, se tiver sequência, se estiver bem fisicamente, Neymar irá para a Copa, mas caso não, o técnico diz: “Eu não tenho dívida com ninguém”

    https://ge.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2025/12/05/ancelotti-diz-que-que-neymar-vai-a-copa-se-estiver-bem-e-merecer-nao-tenho-divida-com-ninguem.ghtml

    Carlo Ancelotti - Técnico do Brasil
    Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira, em entrevista coletiva — Foto: Reprodução / CBF TV

    E aqui entra o ponto mais delicado de todos: Neymar consegue entregar isso hoje?

    Não se trata de vontade. Ninguém duvida do amor de Neymar pela Seleção, da vontade que ele tem de levantar a taça da Copa do Mundo. Mas o corpo responde diferente aos 34 anos, especialmente depois de tantas lesões seguidas. A intensidade que o futebol moderno exige cobra um preço alto. E a Seleção não pode correr o risco de montar uma Copa inteira em torno de um jogador que pode não estar disponível quando mais precisar.

    Histórico de Neymar na Seleção

    O Brasil já cometeu esse erro antes. Em 2014, tudo girava em torno de Neymar. Quando ele saiu, o sistema ruiu. Em 2018, a Seleção tentou reencontrar Neymar após lesão, mas a fase do jogador não era das melhores, virou inclusive piada mundial. Em 2022, ele chegou novamente como esperança máxima, e se machucou na própria Copa.

    Talvez seja hora de aprender.

    Neymar jogando pelo Brasil
    Neymar desolado após a eliminação para a Croácia Foto : NELSON ALMEIDA / AFP / CP

    O futuro de Neymar

    Convocar Neymar hoje não seria uma decisão técnica. Seria emocional. Seria olhar para o passado tentando resolver o futuro. A Seleção precisa construir uma identidade que não dependa de um único nome, por maior que ele seja. E Carlo Ancelotti planeja fazer isto.

    Isso não diminui Neymar. Pelo contrário. Preserva sua história vestindo a amarelinha.

    Neymar já fez mais pela Seleção do que muitos ídolos que jamais foram questionados. Mas, será que o Brasil ainda precisa de Neymar? A Copa do Mundo não é uma homenagem para algo que já não está mais lá. É uma competição de alto nível, a principal do Planeta, onde cada detalhe pesa. Onde não existe espaço para “talvez”, onde só cabem certezas.

    Se Neymar voltar a ter sequência, intensidade e, acima de tudo, confiança em seu jogo, a discussão muda. Mas, hoje, olhando para o cenário real, para o que o futebol exige e para o plano que vem sendo construído, minha posição é clara: Neymar não deve ser convocado.

    Não por falta de talento. Mas porque, no futebol, o tempo não espera ninguém. E a Seleção não pode esperar também.

  • Corinthians x Palmeiras: A história de uma das maiores rivalidades do Futebol

    Corinthians x Palmeiras: A história de uma das maiores rivalidades do Futebol

    O Derby Paulista

    Em São Paulo, o tempo não para. Entre uma esquina e outra pulsa um sentimento que não se explica: o futebol. E entre os becos e avenidas existe um duelo que ultrapassa a bola rolando. Um duelo de história, de povo, de alma: o Derby Paulista.

    O clássico entre Corinthians e Palmeiras nunca foi apenas futebol. Desde os primeiros encontros, ainda no início do século XX, esse clássico construiu sua fama muito mais pela alma das arquibancadas do que pelo simples placar final. É ali, no concreto frio dos estádios, que essa rivalidade ganhou voz, identidade e eternidade.

    De um lado, o Corinthians nasceu do povo e para o povo. A sua torcida se reconheceu desde cedo como resistência, como pertencimento, como grito coletivo de quem raramente tinha tudo, mas nunca deixou de ter voz. 

    Do outro, o Palmeiras carregou a marca da colônia italiana, da organização, da força comunitária e do orgulho de uma identidade que também precisou lutar para existir em meio ao preconceito e às guerras de fora do futebol.

    E foi em 1917, que o caminho dos dois se cruzou pela primeira vez.

    Palmeiras x Corinthians
    Foto – Divulgação – Palmeiras

    A consolidação da Rivalidade

    O primeiro embate entre essas duas forças já nos dava um gostinho do que iria ser esse confronto. O Corinthians vinha de uma série de jogos invicto, mas viu essa invencibilidade cair justamente para o que viria a ser o seu maior rival. O Palmeiras venceu o jogo por 3×0, dando um recado de que vieram para ficar.

    Nos anos seguintes, o futebol paulista se consolidava, a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras passou a ser definida tanto pelos títulos quanto pela ocupação do espaço. Quem cantava mais alto, quem levava mais bandeiras, quem empurrava o time quando a bola parecia pesada demais.

    Mas foi em 1969 que a rivalidade ganhou um novo contorno: mais ácido, mais emocional, mais pessoal. Naquele ano, uma tragédia abalou o Corinthians: os jogadores Eduardo e Lidu, faleceram em um grave acidente de carro. Com o elenco abalado e desfalcado, o clube solicitou à Federação Paulista a liberação para inscrever dois novos atletas no elenco. Para isso, era necessário a permissão  de todos os clubes participantes do Campeonato Paulista. Todos aprovaram. Menos um: o Palmeiras.

    Foto – Acervo Memorial Corinthians

    A recusa caiu como uma bomba no clube. Dirigentes, jogadores e principalmente a torcida corinthiana entenderam aquilo não como um ato burocrático, mas como uma demonstração de frieza. O gesto foi classificado por muitos como uma atitude “porca”. E a palavra pegou. O apelido, nascido como ofensa, virou parte da identidade do clássico. Desde então, o Palmeiras passou a ser chamado assim pelos rivais.

    Mas o tempo tem suas ironias. Anos depois, a torcida do Palmeiras decidiu assumir o apelido. Resignificou o insulto. Transformou em símbolo. Em bandeira. Em canto de arquibancada.

    Imagem: Evelson de Freitas/Folhapress

    O Derby como herança de geração

    O clássico não pertence apenas a quem está em campo. Ele atravessa famílias, bairros e décadas. Ser corintiano ou palmeirense, em semanas de derby, sempre foi mais do que uma escolha clubística: é assumir um lado numa história que vem antes e continua depois.

    Pais ensinam filhos a cantar o hino antes mesmo de saberem ler. Avós contam histórias de jogos que ninguém mais viu, mas que todos sentem como se tivessem vivido. A derrota dói, a vitória dura mais

    E isso acontece porque, nesse clássico, a torcida nunca aceita ser figurante. Ela se coloca como protagonista. O jogo começa horas antes, no caminho para o estádio, e só termina quando a última provocação é feita, ou seja, nunca.

    No derby, a bola rola, mas a história quem escreve é a torcida. Sempre foi assim. E enquanto houver um corintiano disposto a cantar até perder a voz e um palmeirense pronto para responder à altura, esse clássico continuará sendo mais do que um jogo.

    Será, para sempre, um duelo de almas.

  • Endrick é o futuro da Seleção, mas o Brasil não sabe esperar

    Endrick é o futuro da Seleção, mas o Brasil não sabe esperar

    O tempo é uma coisa curiosa. Em alguns momentos, passa devagar demais. Em outros, corre sem pedir licença. Há situações em que poucos minutos parecem anos, e outras em que anos passam sem que a gente perceba. O tempo não é igual para todos. Ele depende do lugar, do contexto e, principalmente, da paciência de quem observa.

    No futebol brasileiro, essa paciência quase nunca existiu.

    Aqui, o tempo é curto. Curtíssimo. O jogador precisa estar pronto agora. Precisa decidir agora. Precisa carregar um país inteiro nas costas antes mesmo de aprender a lidar com a própria carreira e com o próprio ego. Não existe processo, amadurecimento ou erro aceitável. Existe cobrança imediata. E, quase sempre, injusta.

    Esse comportamento diz muito sobre nós. O brasileiro ama o futebol, mas trata seus talentos com pressa. Cria ídolos em um jogo e destrói no seguinte. Vive à procura do próximo salvador da pátria, como se uma geração inteira pudesse ser resumida a um único nome. E, misturada a esse imediatismo, existe a velha síndrome de vira-lata: só acreditamos totalmente quando o mundo o valida, e às vezes nem isso.

    Eu lembro claramente do dia em que João Pedro, ainda no Fluminense, marcou aquele gol de bicicleta contra o Cruzeiro. Foi um daqueles lances raros, que nos fazia voltar o vídeo infinitas vezes só para poder ver novamente. No dia seguinte, o discurso já estava pronto: “novo Ronaldo”, “futuro camisa 9 da Seleção”, “salvação do futebol brasileiro”. Bastou a primeira oscilação de um garoto, algo absolutamente normal, para o tom mudar. Vieram as críticas e a impaciência. Hoje, João Pedro joga no Chelsea, provando que o talento nunca desapareceu. O problema era o tempo que não foi dado.

    Com Endrick, a história se repete, talvez de forma ainda mais intensa.

    Endrick é extremamente talentoso. Isso não está em discussão. Ele é forte, rápido, inteligente e competitivo. Mais do que isso, tem personalidade. Nunca se escondeu de um jogo grande. Pelo Palmeiras, decidiu partidas importantes e mostrou maturidade rara para alguém tão jovem. A virada histórica contra o Botafogo é um exemplo claro: Endrick chamou a responsabilidade quando o jogo parecia perdido, isto não é normal de um garoto.

    Mesmo assim, quando chegou ao Real Madrid, o relógio foi zerado. Cada partida virou uma martelada definitiva sobre o futuro do atacante. Cada jogo sem gol virou motivo de dúvida, cada partida sem jogar, um novo meme surgia nas redes sociais. Como se fosse simples chegar ao maior clube do mundo, com 18 anos, mudar de país, de idioma, de cultura, competir com jogadores prontos e ainda assim decidir imediatamente.

    Isso não é análise. É ansiedade.

    Endrick acaba virando alvo não pelo que faz, mas pelo que representa: a esperança de um país que perdeu referência e quer encontrá-la rápido demais.

    Endrick não precisa ser o novo Ronaldo. Não precisa carregar sozinho a Seleção Brasileira. Ele precisa de tempo. 

    E o que acontece quando este tempo é dado? O que acontece quando o tempo joga a favor de Endrick, e não contra? Ele entrega. O empréstimo ao Lyon não é fuga, nem retrocesso, é apenas dar a ele o que ele sempre quis: Tempo.

    Quando tem sequência, cresce. Quando não é tratado como solução imediata de tudo, joga futebol. E que belo futebol Endrick vem mostrando na França. Até aqui são 4 jogos, 4 gols e 1 assistência. O Jovem jogador Brasileiro, no seu primeiro mês no novo clube, já foi eleito o melhor jogador de Janeiro da League One.

    Mas, o torcedor brasileiro não pode cometer o erro de ler esse momento como confirmação apressada de genialidade, nem como redenção definitiva. Precisa ler como processo. Como consequência natural de quem sempre teve futebol, mas agora tem algo ainda mais valioso.

  • Clássico das Multidões: 110 anos de Sport x Santa Cruz e o Legado da Paixão Pernambucana

    Clássico das Multidões: 110 anos de Sport x Santa Cruz e o Legado da Paixão Pernambucana

    Pernambuco, Cultura e Futebol

    O Povo Pernambucano não vive as coisas pela metade. Aqui, tudo é intenso. Terra do frevo, do maracatu, das pontes do Recife, das ladeiras de Olinda e de um povo que transforma festa em identidade. Aqui, cultura não é acessório: é a própria essência. E talvez por isso o futebol pernambucano nunca tenha sido morno. Ele pulsa no mesmo ritmo acelerado do carnaval, e na mesma paixão com que se vive tudo nesse chão.

    Em tempos em que o futebol brasileiro, principalmente o nordestino, se dilui em torcidas mistas e relações cada vez mais distantes entre clube e arquibancada, Pernambuco segue na contramão. De acordo com a pesquisa da Ibope/Repucom, o estado concentra alguns dos torcedores mais fiéis do Nordeste, gente que escolhe um clube como primeira opção e sustenta essa escolha como extensão da própria vida. Não é coincidência. É cultura.

    https://ge.globo.com/pe/futebol/noticia/mistos-times-pernambucanos-tem-as-torcidas-mais-fieis-do-nordeste-veja-levantamento.ghtml

    E no centro dessa paixão está um clássico que ajuda a explicar tudo isso: Sport x Santa Cruz, o Clássico das Multidões

    110 Anos de uma das maiores rivalidades do País

    Neste ano, o duelo completa 110 anos desde o seu primeiro encontro, no dia 6 de maio, num amistoso que, à época, parecia apenas mais um jogo rotineiro entre dois jovens clubes. Mal sabiam aqueles torcedores que estavam a assistir ao nascimento de uma das rivalidades mais populares e antigas do futebol brasileiro. Um clássico que não foi criado por marketing, televisão ou redes sociais. Foi criado e permanece até hoje, pelo povo.

    Curiosamente, o nome que hoje carrega tanto peso, Clássico das Multidões,  só surgiria 27 anos depois, em 1943, criado pelo Diário de Pernambuco. Eis um pequeno trecho do Jornal:

    “Mesmo que a disputa de hoje não tivesse as características de uma decisão importante, estaríamos certos do seu êxito, pois o clássico Santa Cruz x Esporte tem o seu prestígio e o seu numeroso público…o clássico das multidões rendeu a importância de vinte e um mil cruzeiros…”

    Ali estava tudo explicado. Não importava a tabela, o campeonato ou a fase. Importava o povo. Importava a multidão.

    Não é à toa que, mesmo numa região onde quase metade dos torcedores admite simpatizar por mais de um clube, os clubes pernambucanos aparecem entre os mais fiéis. Aqui, escolher um time ainda significa escolher um lado. Um bairro. Uma memória de infância. Uma herança passada de pai para filho.

    O Clássico das Multidões atravessou guerras, crises, rebaixamentos e glórias. É verdade que a fase dos dois clubes não é a melhor nos últimos anos, mas a torcida já mostrou que esse fanatismo sobreviveu ao tempo, porque nunca dependeu apenas da bola. Ele vive na rua, na provocação entre amigos de escola e do trabalho, no silêncio pesado depois da derrota e na euforia que dura dias após a vitória.

    Pernambuco sente o futebol diferente porque sente a vida diferente. E enquanto houver frevo nas ladeiras, voz rouca nas arquibancadas e essa fidelidade quase teimosa ao próprio clube, Sport x Santa Cruz continuará sendo mais do que um jogo. Será sempre um espelho do povo que o criou.

    Porque, como já dizia um velho doutor de uma boa história Japonesa, ninguém/nada morre enquanto é lembrado.

  • Portugal no ranking europeu: voltar ao lugar certo

    Portugal no ranking europeu: voltar ao lugar certo

    Estou contente. Muito contente, até. Mas convém começar por pôr as coisas no sítio certo: isto não é histórico, não é inédito e não é nenhum milagre futebolístico. O regresso de Portugal ao sexto lugar do ranking da UEFA é apenas isso mesmo, um regresso. Voltar a um lugar onde, olhando para a qualidade das equipas, para o rendimento europeu e para a capacidade formativa do país, nunca deveríamos ter deixado de estar.

    A última noite europeia ajudou a alinhar perceções com realidade. O SL Benfica venceu o Real Madrid por 4-2 num jogo absolutamente insano, com direito a golo de guarda-redes no último minuto, desses que parecem exagero mas acabam por ter impacto bem real. Não foi apenas um resultado marcante, foi um empurrão direto no ranking e uma daquelas noites que fazem o futebol português levantar a cabeça e lembrar-se de quem é.

    O Sporting CP foi a San Mamés, esteve a perder por duas vezes e ganhou no fim. Não é só ganhar fora, é a forma como se ganha. É maturidade europeia, é saber sofrer, reagir e decidir. Já não é novidade ver equipas portuguesas a competir olhos nos olhos em contextos difíceis, e isso diz muito sobre o momento atual do nosso futebol.

    Festejo do golo da vitória do Sporting em BIlbao – Foto retirada de: Facebook/Sporting CP

    E quando olhamos para o que vem aí, o otimismo não nasce do nada. O Sporting está forte, consistente e cada vez mais confortável neste patamar europeu. O FC Porto, sempre que cai na Liga Europa, assume automaticamente o papel que faz parte da sua identidade: lutar para ganhar a prova, sem desculpas e sem medo do contexto. No Benfica, um investimento forte é quase uma regra anual. O SC Braga continua a crescer de forma sustentada, joga cada vez melhor e já não é surpresa em competições europeias. E depois há o Vitória SC, em plena restruturação financeira, com uma cidade inteira por trás e um potencial enorme para, finalmente, atingir patamares que nunca alcançou, mas que fazem todo o sentido para a sua dimensão, identidade e peso histórico.

    Durante anos, ouvir que o campeonato neerlandês era superior ao português parecia quase um dado adquirido. A Eredivisie foi, de facto, uma referência mundial. Um país pequeno que produziu talento em série, com nomes lendários como Johan Cruyff, Marco van Basten, Bergkamp, Ruud Gullit, Sneijder, Robben, Robin van Persie, Sedoorf, Koeman ou Ruud van Nistelrooy. Só enumerá-los quase dispensa explicação.

    Mas o futebol vive de ciclos, e o atual já não é o deles. Hoje, olhando para o topo, é difícil não concluir que as melhores equipas portuguesas são superiores às melhores equipas neerlandesas. Mais habituadas à pressão, mais regulares na Europa e mais preparadas para contextos de Champions League. É verdade que a Holanda continua a ter mais profundidade abaixo do topo, mas quando se fala de ranking, vagas europeias e estatuto, o que pesa são as equipas que chegam longe. E aí Portugal tem estado melhor.

    Convém também dizer isto sem rodeios: a grande vantagem histórica da Holanda nunca foi apenas a qualidade do topo, mas sim a distribuição geográfica do seu futebol. A Eredivisie é talvez o campeonato mais bem espalhado territorialmente do mundo, com clubes enraizados em praticamente todas as cidades, estádios cheios e uma cultura local fortíssima. Em Portugal, o futebol profissional está concentrado no litoral e maioritariamente no Norte, enquanto o Sul vive quase exclusivamente do Benfica e do Sporting. E mesmo com essa desvantagem estrutural evidente, o topo português consegue hoje ser mais forte, mais competitivo e mais decisivo na Europa do que o neerlandês.

    Distribuição geográfica dos clubes na Liga Holandesa

    Tudo isto ganha ainda mais força quando se olha para a formação. Portugal vive provavelmente o melhor momento formativo do mundo. Sim, do mundo. Até acima do Brasil, que atravessa uma fase estranha, de transição e identidade indefinida. O jogador português sai cada vez mais completo, taticamente inteligente, competitivo e pronto para qualquer contexto. Não é coincidência que esteja espalhado pelas melhores ligas europeias.

    Roger Fernandes, Rodrigo Mora e Geovany Quenda – três das principais promessas portuguesas – foto retirada de: fpf.pt

    Ao nível de seleções, a comparação também não joga a favor dos Países Baixos. Ao longo dos anos, tornaram-se quase uma presença confortável para a Seleção das Quinas, acumulando memórias pouco felizes. Quando países de dimensão semelhante se cruzam repetidamente e o histórico pesa para um lado, isso também conta.

    Oitavos de final do Mundial 2006, Portugal e Holanda, na famosa batalha de Nuremberg!

    Por isso sim, estou contente. Não porque seja um feito irrepetível, mas porque este momento abre uma porta muito concreta e muito importante. Em 2027/28, Portugal pode voltar a ter três equipas na Liga dos Campeões. Três clubes portugueses no maior palco do futebol europeu, não por convite, não por favor, mas por mérito acumulado ao longo de várias épocas.

    Num país pequeno, centralizado, com muitas limitações estruturais, mas com talento, competitividade e capacidade de se reinventar. Não estamos a escrever uma história nova. Estamos, finalmente, a retomar a nossa própria história.

    E isso, honestamente, sabe ainda melhor.

  • Paquetá no Flamengo: uma contratação histórica que muda o patamar do futebol brasileiro

    Paquetá no Flamengo: uma contratação histórica que muda o patamar do futebol brasileiro

    Confesso que são poucas as vezes em que uma contratação me faz parar e pensar no impacto histórico que ela pode ter. A chegada de Lucas Paquetá ao Flamengo é uma delas. Não é exagero dizer que estamos falando de uma das maiores contratações da história do futebol brasileiro, talvez atrás apenas da vinda de Romário, também pelo próprio Flamengo, num contexto diferente, mas igualmente simbólico.

    Paquetá não regressa ao Brasil em fim de carreira, nem como aposta emocional. Volta no auge da idade, com rodagem pesada no futebol europeu, experiência de seleção e maturidade competitiva. É um jogador formado no clube, mas lapidado nos maiores palcos do mundo. Isso, por si só, já coloca esta negociação num patamar completamente fora da curva.

    É claro que existe um contexto que não pode ser ignorado. Paquetá vem de uma fase turbulenta, marcada por problemas jurídicos que impactaram diretamente a sua sequência e o seu valor de mercado. Mas é justamente aí que o Flamengo mostra força institucional. Poucos clubes no mundo, não apenas no Brasil, teriam estrutura financeira, respaldo político e ambiente esportivo para absorver um jogador desse tamanho num momento delicado e transformá-lo novamente em protagonista.

    E não nos enganemos: o futebol de Paquetá nunca esteve em dúvida. Estamos a falar de um meia de altíssimo nível, capaz de jogar em diferentes funções, com leitura de jogo, intensidade, chegada à área e personalidade. Não à toa, Pep Guardiola já demonstrou interesse no jogador. Quando um dos maiores treinadores da história enxerga valor em ti, não é por acaso.

    Do ponto de vista esportivo, o impacto é brutal. O Flamengo já era, com alguma folga, o melhor time das Américas em termos de elenco, profundidade e competitividade. Com Paquetá, esse domínio aumenta. Não é apenas mais uma peça; é um jogador que eleva o nível coletivo, que melhora quem está à sua volta e que oferece soluções em jogos grandes, especialmente na Libertadores, onde detalhes decidem tudo. Como vi uma vez um torcedor falando no aplicativo “X”, Lucas Paquetá é um Gerson melhorado. E acredito fielmente nesta colocação, pois acho Paquetá muito mais jogador do que o meia do Cruzeiro.

    A discussão financeira também precisa ser tratada com honestidade. Sim, é uma contratação cara. Muito cara. Mas o Flamengo pode fazê-la. E pode porque planejou, vendeu bem, acumulou caixa e se comportou como clube grande durante anos. Os movimentos recentes mostram isso. Não é uma jogada irresponsável, muito pelo contrário, é consequência de boas gestões que transformaram o poder econômico em vantagem esportiva.

    Existe ainda um fator simbólico que pesa muito. Trazer Paquetá de volta é um recado claro ao futebol Brasileiro e a toda a América: o Flamengo vem para tentar fazer a maior hegemonia da história, eles não estão satisfeitos, e talvez nunca estejam. Em um cenário em que jogadores sul-americanos costumam voltar apenas para “encerrar ciclos”, o rubro-negro traz um atleta de prateleira europeia para liderar o projeto esportivo. Isso muda a percepção do mercado e reposiciona o futebol brasileiro há um novo patamar.

    No fim das contas, esta não é apenas uma grande contratação. É uma contratação histórica. Daquelas que marcam época, que redefinem padrões e que serão lembradas independentemente dos títulos. Se dentro de campo corresponder ao que sempre foi capaz de entregar, o Flamengo não só reforça o seu elenco, mas consolida de vez o seu lugar no topo do futebol das Américas. E como disse o próprio Lucas Paquetá em sua despedida ao West Ham: “Recusei ir para times rivais. Eu nunca pedi para ir embora, eu pedi para voltar para casa. Estou voltando para casa…”

    A nação pediu, e o ídolo acatou. Seja bem-vindo a sua casa, Craque.

  • Deyverson é anunciado pela LDU e terá novo desafio no futebol sul-americano

    Deyverson é anunciado pela LDU e terá novo desafio no futebol sul-americano

    Quando vi o anúncio de Deyverson como novo reforço da LDU, a primeira reação foi de estranheza. Não pelo nome em si, porque Deyverson é conhecido em toda a América do Sul, mas pelo momento. Estamos a falar de um atacante que vem de um ano ruim, rebaixado com o Fortaleza, com números modestos e desempenho bastante questionado. Ainda assim, olhando com mais calma, a contratação faz mais sentido do que parece à primeira vista.

    A LDU não é um clube qualquer no continente. Vem de uma temporada sólida, foi vice-campeão equatoriano e chegou às semifinais da Copa Libertadores. Se não fosse a virada histórica sofrida diante do Palmeiras, tinha tudo para disputar aquela final. É uma equipe competitiva, organizada e que sabe exatamente onde quer chegar, de volta ao topo das Américas. E é justamente por isso que a escolha por Deyverson chama atenção: a LDU não buscou um atacante em ascensão, mas alguém capaz de decidir jogos grandes.

    E aqui entra o ponto central. Deyverson não é um jogador comum. Ele nunca foi. Tecnicamente limitado em vários aspetos, irregular ao longo da carreira e, muitas vezes, mais falado fora do campo do que dentro dele. Mas há algo que o acompanha desde cedo: o faro para o imprevisível. Em jogos grandes, quando tudo parece perdido, é quando a mágica acontece para o atacante Brasileiro.

    Foi assim no Palmeiras, onde marcou o gol do título da Libertadores de 2021, contra o Flamengo. Foi assim também no Atlético-MG, em 2024, quando não teve números brilhantes, mas foi absolutamente decisivo para levar o time à final da Libertadores. Esse é o Deyverson que a LDU espera encontrar.

    O problema é que o Deyverson de 2025 esteve longe disso. A temporada pelo Fortaleza foi fraca, sem impacto real, culminando num rebaixamento doloroso para o time Nordestino. Não foi apenas uma má fase individual; foi um ano em que tudo deu errado. E isso pesa. Não dá para fingir que não pesa. O atacante chega ao Equador com crédito limitado e muitas dúvidas no ar.

    Ainda assim, existe um fator que pode mudar completamente este cenário: o encontro com Tiago Nunes. A parceria entre pode dar muito certo, e não por acaso. Tiago Nunes é um dos técnicos Brasileiros mais promissores dos últimos anos, fazendo um trabalho quase impecável no time equatoriano. Ele entende o perfil do Deyverson, já que, em 2018 e 2019, comandou jogadores como Rony e Pablo, atletas com personalidades únicas que em suas mãos brilharam muito, garantindo o título da Copa Sul-Americana de 2018 e Copa do Brasil em 2019. A LDU não precisa de um artilheiro de 25 gols por temporada. Precisa de alguém que resolva quando o jogo pede personalidade, e isso, Deyverson tem de sobra.

    Claro que há riscos. Muitos. Se o atacante repetir o desempenho do último ano, a contratação será vista como erro de avaliação. Mas, se a LDU conseguir resgatar o Deyverson decisivo, incômodo e imprevisível, pode ter encontrado exatamente o que faltava ao seu elenco: um jogador que não respeita roteiros.

    No fim das contas, esta não é uma contratação óbvia. É uma contratação ousada. E, no futebol sul-americano, ousadia e loucura costumam andar de mãos dadas. Às vezes dá errado. Outras vezes, vira história.

  • Arbitragem, VAR e o “critério”: quando o futebol precisa de leis, não de interpretações

    Arbitragem, VAR e o “critério”: quando o futebol precisa de leis, não de interpretações

    Sou defensor do VAR e não tenho qualquer problema em dizê-lo. Quem acompanha futebol há mais tempo lembra-se bem, e a malta mais nova já nem imagina, das injustiças absurdas que decidiam jogos, campeonatos e descidas. Golos em fora de jogo escandalosos, penáltis inexistentes, faltas claras ignoradas. O VAR veio para tentar corrigir isso e, nesse sentido, foi um avanço inevitável. O problema nunca foi o VAR. O problema é a forma como ele está a ser utilizado.

    Vivemos hoje um paradoxo difícil de aceitar. Num futebol onde circulam milhões, com tecnologia de ponta e impacto global, continuamos sem um manual claro, objetivo e universal de regras. A arbitragem vive refém de uma palavra demasiado confortável para justificar quase tudo: critério. Diz-se constantemente que há lances que dependem do critério do árbitro, mas raramente se explica que critério é esse, onde está escrito ou quem o define. O mesmo lance é falta num jogo e segue noutro, sem que ninguém consiga explicar porquê.

    O exemplo mais gritante é a eterna discussão da mão na bola e da bola na mão. Um lance que decide jogos continua a ser interpretado de forma subjetiva, semana após semana. O mesmo movimento, a mesma posição do braço, duas decisões completamente diferentes. O mesmo acontece com toques de braço na cara. Muitos são involuntários, fruto do movimento natural do corpo, outros são claramente propositados, usados para ganhar espaço ou travar o adversário. Ainda assim, tudo acaba muitas vezes marcado da mesma forma, como se não houvesse intenção, gravidade ou contexto.

    Depois surgem as explicações do costume. Este árbitro deixa jogar. Aquele é mais paciente. Não deu cartão porque o jogo está a começar. Está a tentar controlar o jogo. Mas a lei não pode depender do minuto, da nacionalidade do árbitro ou do ambiente no estádio. A regra tem de ser a mesma aos cinco, aos quarenta e cinco ou aos noventa minutos. Caso contrário, não é uma regra. É improviso.

    Este vazio legal não protege ninguém. Não protege jogadores, clubes nem os próprios árbitros. Pelo contrário, cria uma falsa sensação de poder, empurra decisões solitárias e deixa a classe constantemente exposta ao erro e à desconfiança. O VAR devia ser apoio, um recurso normal, um instrumento de segurança. No entanto, hoje parece quase um sinal de fraqueza. Há árbitros que evitam chamá-lo porque acham que fica mal, que tira autoridade ou que passa a ideia de dúvida. Isto não faz sentido. Dúvida não é fraqueza. Fraqueza é errar quando existem meios para corrigir.

    Não quero entrar no campo da corrupção. Esforço-me genuinamente por acreditar que não acontece ou que acontece pouco. Mas é precisamente por isso que as regras têm de ser objetivas. Quanto mais subjetividade existir, mais espaço se abre para suspeitas, mesmo que injustas.

    O mesmo se aplica à gestão do tempo de jogo. Comportamentos que deviam ser simples de resolver continuam a ser tolerados sem grande explicação. Jogadores substituídos que atravessam meio campo a passo lento, guarda-redes que perdem tempo descaradamente nos pontapés de baliza, lançamentos laterais intermináveis. Há VAR, há tecnologia, há cronómetros. Definir tempos máximos não é complicado. Passou o tempo? A bola muda de equipa. Sem avisos excessivos, sem pedagogia seletiva, sem bom senso aplicado apenas quando convém. A regra existe para ser aplicada, não para ser negociada.

    É justo reconhecer que o papel do árbitro não é fácil. Aplicar dezenas de regras sob pressão monumental, com jogadores a protestar, bancadas a ferver e o receio constante de aparecer nas capas dos jornais no dia seguinte, está longe de ser simples. Alguns até parecem gostar desse protagonismo, mas devia haver um consenso básico. Quanto menos se fala de um árbitro, melhor foi a sua arbitragem.

    Toda esta reflexão ganhou forma em jogos concretos. Na quinta-feira passada, ao ver um Viktoria Plzeň frente ao FC Porto, assisti a um abuso claro de perda de tempo por parte da equipa da casa. Compreendo e aceito isso. Faz parte do xadrez que é o futebol, sobretudo quando se está a ganhar a um dos favoritos à competição. O que não aceito é um árbitro deixar-se ir nessa gestão. O Plzeň aproveitou bem a permissividade, como qualquer equipa faria. O problema não foi quem perdeu tempo, foi quem deixou. O segundo tempo teve cerca de vinte minutos de tempo útil e acabou compensado com apenas cinco minutos. O empate surgiu no tempo extra, mas podia não ter surgido, e isso não pode depender da sorte.

    O único argumento verdadeiramente legítimo contra o VAR é emocional. O VAR estraga o festejo imediato, e o festejo é talvez o maior sentimento do futebol. É instinto, explosão, catarse coletiva. O golo deixou de ser absoluto e passou a ser suspenso. Ainda assim, a pergunta mantém-se. Preferimos festejar um golo injusto ou esperar alguns segundos por um golo limpo?

    O futebol perdeu espontaneidade? Em parte, sim. Mas tinha tudo para ganhar justiça. A responsabilidade maior é da FIFA. Cabe-lhe definir regras claras, universais e inequívocas, proteger os árbitros com leis sólidas e retirar-lhes o peso da interpretação criativa. Só assim poderemos perceber se os erros são humanos ou se estamos, de facto, perante incompetência.

    Porque enquanto tudo for critério, ninguém é verdadeiramente responsabilizado.
    E num desporto que tanto amamos, isso devia ser inaceitável

  • O drible em extinção: por que o caos vale ouro num mundo de robôs táticos

    O drible em extinção: por que o caos vale ouro num mundo de robôs táticos

    O futebol moderno transformou-se numa ciência exata. Hoje, os jogos são decididos em tablets, analisados por mapas de calor e dissecados por métricas de «xG» (gols esperados).

    Neste cenário de laboratório, a conclusão fria e pragmática é inegável: o futebol de rua, aquele da anarquia, da improvisação pura e da finta desnecessária, não é o caminho mais curto para a vitória. A organização vence o talento desordenado. No entanto, é precisamente essa ditadura da eficiência que transformou o jogador que ainda ousa driblar na mercadoria mais valiosa do planeta.

    Não podemos ser ingênuos ao ponto de negar a evolução. As equipas que dominam o cenário mundial fazem-no através do controle, da ocupação de espaços e da redução de riscos. O drible, por natureza, é um risco. Estatisticamente, um passe lateral seguro tem mais chances de manter a posse do que uma tentativa de passar por dois defensores. O futebol de rua, com a sua essência caótica, perde para a geometria tática no placar final. Mas o futebol não vive apenas do placar; vive do espetáculo e do desequilíbrio.

    A fábrica de jogadores idênticos

    O problema atual é que as academias de formação, tanto no Brasil como na Europa, estão a produzir jogadores em série, como se fossem automóveis numa linha de montagem. O jovem atleta aprende desde cedo a jogar a um ou dois toques, a respeitar o corredor e a não perder a posse de bola. Criamos uma geração de atletas fisicamente perfeitos e taticamente irrepreensíveis, mas assustadoramente previsíveis.

    É neste contexto de padronização que a magia ganha um novo peso económico e emocional. Quando todos os jogadores em campo parecem robôs programados para não errar, aquele único indivíduo que tem a coragem (e a capacidade) de quebrar o script torna-se um diamante. A escassez gera valor. É por isso que jogadores como Estêvão, Vinícius Jr. ou o jovem Lamine Yamal capturam a imaginação do mundo instantaneamente. Eles não são apenas talentosos; eles são anomalias no sistema.

    O drible como ferramenta de elite

    O destaque que estes jogadores recebem hoje não é apenas nostalgia; é uma necessidade tática de alto nível. Num jogo onde as defesas são blocos compactos e impenetráveis, o passe lateral já não resolve. É preciso o «fator caos». É preciso o jogador que, com um movimento de corpo herdado do futebol de rua, desmonte uma estrutura defensiva que demorou meses a ser construída pelo treinador adversário.

    Portanto, vivemos um paradoxo fascinante. O futebol de rua, como sistema de jogo, está morto e não traz títulos. Mas os elementos individuais desse futebol — a ginga, o drible curto, a imprevisibilidade — nunca foram tão decisivos. Num mundo onde a estatística tenta prever tudo, o jogador que faz o que o computador não consegue calcular é quem decide as finais e quem vale centenas de milhões.

    O futebol pode ter-se tornado uma ciência para os treinadores, mas continua a ser uma arte para quem decide. E enquanto as táticas garantem que a equipa não perde, é a magia rara e em extinção do drible que garante que a equipa ganha — e que o público não adormece.