Categoria: Opinião

  • Botafoguenses: nós já vimos este filme

    Botafoguenses: nós já vimos este filme

    No dia 1 fui a um churrasco do meu amigo argentino. Quem já leu outros artigos meus sabe. Estava lá um rapaz brasileiro com a camisola 13 do Botafogo, número que me dá boas memórias: Alex Telles no FC Porto, jogador que deixa saudades, até mais pela atitude do que pelo jogo jogado, embora não fosse nada mau de pés ahahah. O rapaz estava contente porque o Botafogo contratou um jovem argentino chamado Martín Anselmi. E a minha reação, numa mesa cheia de adeptos do FC Porto, foi imediata: eu conto ou vocês contam? Anselmi foi provavelmente a coisa mais desastrosa que aconteceu ao FC Porto desde que tenho memória.

    Curiosamente, no meio de todo aquele hype inicial da chegada de Anselmi ao Porto, estava também presente o meu amigo argentino, simpatizante do FC Porto, que foi o primeiro a lançar o alerta. No meio da euforia geral, disse algo que na altura soou quase a heresia: “Não festejem. Ele vai ser flop. Um treinador que perde e vem com desculpas baseadas em estatísticas, número de remates e expected goals não é treinador. É jornalista ou analista.” Na altura rimo nos. Hoje, a verdade é que tivemos de lhe dar razão.

    A chegada de Anselmi foi cheia de hype, mas com muitas dúvidas à mistura. Não é normal um sul americano vir treinar um clube europeu tão cedo na carreira, não é normal um treinador fazer o salto do Cruz Azul para um gigante europeu. A ilusão inicial vinha de um bom falante, bastante comunicativo, com ideias arrojadas, vídeos de guarda redes a jogarem com bola nos pés fora da área e uma postura que fazia lembrar um jovem Mourinho, só que a falar espanhol. Havia também a fama de praticar futebol atrativo da escola de Bielsa e, sendo argentino, esperava se raça e luta. A verdade é que eu não sou fã de Marcelo Bielsa. Não sou fã dessa romantização. Gosto de futebol pela estratégia. Por mais que certos jogos sejam feios, podem ser muito mais interessantes do que essas maravilhas que acabam em 5-5. As equipas de Bielsa não sabem defender e, acima de tudo, não ganham títulos. E isso não me causa interesse nenhum. O português é resultadista: olhamos para a solidez italiana, para o atrevimento brasileiro e para a estratégia e técnica espanholas.

    Anselmi foi um desastre no FC Porto. É certo que, quando chegou, já ninguém esperava que fosse campeão. Entrou a 8 pontos do líder Sporting e a 2 do Benfica, na segunda posição, na jornada 20. Mas também é certo que conseguiu piorar tudo. Não houve uma única melhoria visível, nem coletiva, nem individual, nem tática. Acabou a época a 9 pontos do segundo, Benfica, e a 11 do campeão Sporting. É certo que perdeu Galeno e Nico González, mas essa é mesmo a única desculpa ou benefício que lhe podemos dar. De resto, foi sempre a descer.

    Foi humilhado em casa pelo grande rival, o Benfica, por 1-4. Sim, isto para um portista é mais do que humilhante, é o pior que pode acontecer, algo nunca visto em dezenas de anos. Ainda foi fazer figura ridícula ao Mundial de Clubes: empate com o Palmeiras, derrota humilhante com o Inter Miami, meu Deus isto foi mais do que humilhante, e um jogo arcaico com o Al Ahly, um 4-4 completamente partido, sem qualquer rigor tático, demonstrando ausência total de critério, ideia ou estratégia. Um Mundial da vergonha.

    Martin Anselmi não foi capaz de lidar com as críticas. Foi teimoso com a sua formação e com a sua tática, mesmo não tendo jogadores para essas posições. William Gomes como ala defesa esquerdo, sim, ninguém entende. Essa teimosia começou a soar a arrogância. Nunca foi capaz de mostrar capacidade para corrigir ou alterar peças durante a partida, nunca soube ler o jogo. A verdade é que Anselmi tornou se motivo de gozo. Os portistas querem esquecer e os rivais fazem questão de lembrar. Diz se que, a nível metodológico, era uma confusão, o balneário não estava com ele e existia um relaxamento estranho. E ainda nem falei nos casos célebres de jogadores em discotecas e escândalos fora de campo, algo que não acontecia no Porto há anos.

    O contraste surge naturalmente com Francesco Farioli, italiano, que está a brilhar no FC Porto. Neste momento é líder invicto do campeonato, com apenas 4 golos sofridos, e um deles foi auto golo, o que diz tudo ahaha. Metódico, resultadista e capaz de criar outro tipo de união, não só com os jogadores como com os adeptos. É verdade que teve outro tipo de reforços e o facto de Anselmi ter vindo antes ainda lhe dá mais brilho. Conseguiu recuperar jogadores que não rendiam, como Diogo Costa, Alan Varela, Pepê, Francisco Moura ou Samu.

    Eu não sou fã de filosofias à Bielsa. Eu prefiro ganhar. Esse é o meu objetivo no jogo. Não quero perder 5-4 num jogaço. Deixo isso para os loucos que dizem amar o futebol mas nada gostam de ganhar. Anselmi terá as suas ideias, teve sucesso no Independiente del Valle e no Cruz Azul, gostavam dele. Não lhe retiro valor nem lhe desejo o insucesso. Espero que consiga ter uma boa carreira, mas tem de melhorar muito daquilo que mostrou no FC Porto, sob pena de correr o sério risco de ser lembrado como o pior treinador do século XXI dos dragões.

    Imagem de apresentação de Martin Anselmi como DT do Botafogo. Imagem: @botafogo

    Posto isto, acredito mais no sucesso dele no Botafogo do que no Porto, mas mesmo assim acho esta aposta uma loucura, mas John Textor é assim. Preparo já os meus amigos botafoguenses: ele é bom falante e, ao início, vai enganar vos. Veremos se consegue, e espero que sim, mas não vos consigo deixar nada de bom e confesso que não sinto um bom presságio ahaha.

  • O paradoxo de janeiro: vender para sobreviver ou manter para competir?

    O paradoxo de janeiro: vender para sobreviver ou manter para competir?

    Com a chegada de 2026, abre-se mais uma vez a janela de transferências de janeiro. Para os gigantes do futebol mundial, este é o momento de corrigir erros pontuais ou de dar um retoque de luxo no elenco.

    No entanto, para a grande maioria dos clubes, as equipas de pequena e média dimensão, o mês de janeiro não é uma oportunidade de compras, mas sim um período de angústia existencial. É o momento em que a realidade financeira colide violentamente com a ambição desportiva.

    No Brasil, onde os campeonatos estaduais estão prestes a começar, e em Portugal, onde a liga entra na sua segunda metade decisiva, o cenário repete-se com uma precisão cruel. Jogadores que se destacaram no último semestre em clubes como um Famalicão ou um Gil Vicente, ou que brilharam numa campanha surpreendente de um Cuiabá ou Fortaleza, tornam-se alvos fáceis para mercados com maior poder de compra. E não estamos a falar apenas dos tubarões da Europa; falamos da MLS, do Japão, da Turquia ou da segunda divisão inglesa.

    A venda como oxigénio financeiro

    Para os adeptos, ver a saída do craque da equipa a meio da época é uma traição. Mas, para quem gere as contas, é muitas vezes a única forma de manter as luzes acesas. A verdade nua e crua é que o modelo de negócio da maioria dos clubes «formadores» ou de menor investimento depende intrinsecamente destas vendas.

    A transferência de um lateral promissor ou de um ponta veloz para o estrangeiro representa, muitas vezes, o orçamento de uma época inteira garantido. Recusar uma proposta de alguns milhões de euros (ou dezenas de milhões de reais) em nome da competitividade desportiva é um luxo que presidentes de clubes com passivos elevados não se podem dar.

    O dinheiro da venda é o que paga os salários em dia de quem fica, o que melhora o centro de treinos e o que evita o colapso administrativo. Sem vender, o clube para.

    O desastre desportivo anunciado

    Por outro lado, o custo desportivo destas saídas é devastador e imediato. O treinador, que passou meses a incutir uma filosofia de jogo e a criar automatismos, vê-se subitamente sem peças, muitas vezes fundamentais no xadrez. A janela de janeiro é particularmente traiçoeira porque não dá tempo para adaptação. Quem chega para substituir o craque vendido precisa de render «para ontem», o que raramente acontece.

    Esta dinâmica cria uma distorção competitiva. Equipas que faziam campeonatos tranquilos em Portugal podem ver-se arrastadas para a luta pela manutenção após perderem o seu goleador em janeiro. No Brasil, clubes que projetavam um ano sólido podem começar a época desfigurados, comprometendo o desempenho nos estaduais e no início do Brasileirão.

    O ciclo vicioso da sobrevivência

    O drama das equipas pequenas é que elas são vítimas do seu próprio sucesso. Se acertam na contratação e o jogador brilha, ele sai. Se erram, ficam com o prejuízo. O mercado de janeiro expõe a fragilidade de um sistema onde a estabilidade é impossível para quem não está no topo da pirâmide alimentar.

    Em suma, a abertura desta janela é um lembrete amargo de que o futebol é, cada vez mais, uma indústria de exportação de ativos e menos uma competição de mérito contínuo.

    Para os clubes menores, o sucesso não se mede apenas pelos pontos na tabela, mas pela capacidade de equilibrar a equação impossível: vender a alma da equipa para garantir que o corpo do clube continue vivo. O adepto sofre, o treinador desespera, mas a roda do mercado continua a girar, implacável.

  • Entre o orgulho e a frustração: o sentimento do torcedor do Palmeiras ao fim da temporada  

    Entre o orgulho e a frustração: o sentimento do torcedor do Palmeiras ao fim da temporada  

    Ser torcedor do Palmeiras nunca foi simples. E talvez por isso também nunca tenha sido morno. A temporada de 2025 chegou ao fim e, junto com ela, veio um sentimento que o palmeirense conhece bem: uma mistura difícil de explicar entre orgulho e frustração.

    Orgulho porque o Palmeiras segue competitivo. Está sempre disputando, chegando, incomodando. Em um futebol brasileiro marcado por instabilidade, trocas constantes e projetos frágeis, o Verdão continua firme, organizado e presente nas decisões. Isso não é pouco. Isso não pode ser ignorado.

    Mas a frustração existe. E ela é legítima.

    Chegar perto e não conquistar dói. Bater na trave cansa. O torcedor sente porque se acostumou a ganhar, tanto que no jogo da final da Libertadores, vi meus dois sobrinhos indignados que o Palmeiras havia perdido, as crianças que vem de uma era vencedora do Palmeiras não estão habituados a perder, e como disse meu irmão Patrick o jogo seria de uma bola só, e foi. A régua mudou. O Palmeiras elevou o próprio nível nos últimos anos, e hoje não basta apenas competir. A expectativa é vencer. Sempre!

    Não é ingratidão. É consequência de um ciclo vencedor.

    Ao longo da temporada, o time mostrou entrega, intensidade e competitividade. Também mostrou limites. Em alguns momentos faltou ousadia, em outros precisão, em outros talvez repertório. E quando o último jogo acaba, a pergunta surge naturalmente na cabeça do torcedor: o que faltou para ir além?

    Ainda assim, existe algo que sustenta o orgulho. O Palmeiras não perdeu sua identidade. Continuou brigando até o fim, valorizando sua base, revelando talentos, mantendo um projeto claro. Não houve terra arrasada, nem sensação de fracasso total. Houve disputa. Houve entrega.

    A frustração não vem da incompetência. Vem da expectativa.

    Hoje, o torcedor do Palmeiras cobra porque sabe que dá mais. Cobra porque viu o clube se tornar protagonista. Cobra porque aprendeu que é possível disputar todos os títulos. E quem prova esse gosto não aceita facilmente dar um passo atrás.

    O desafio agora é equilíbrio. Reconhecer o que foi construído sem aceitar acomodação. Aplaudir o projeto sem fechar os olhos para os ajustes necessários. Apoiar o time sem deixar de exigir evolução.

    Talvez esse seja o momento mais maduro do torcedor palmeirense: entender que orgulho e cobrança não são opostos. Eles caminham juntos quando o clube está em alto nível.

    Ser palmeirense hoje é exatamente isso.
    Sentir orgulho de torcer para um clube forte, estruturado e respeitado.
    E, ao mesmo tempo, carregar a frustração de quem acredita que ainda dá para ir além.

    No fim das contas, esse incômodo é um sinal positivo.
    Só se cobra assim quem está acostumado a disputar tudo.

    O Palmeiras segue grande, e forte para próxima temporada. E o torcedor segue esperando mais, como sempre.

  • 2025: o ano em que a gestão no Campeonato Brasileiro enterrou o mito do «peso da camisa»

    2025: o ano em que a gestão no Campeonato Brasileiro enterrou o mito do «peso da camisa»

    Ao olharmos para a tabela final do Campeonato Brasileiro de 2025, a conclusão é tão fria quanto inevitável: o futebol brasileiro mudou de dono. Não se trata mais de quem tem a maior torcida, o hino mais bonito ou o passado mais glorioso.

    A temporada que se encerra ficará marcada na história como o momento definitivo em que a planilha de Excel venceu o grito da arquibancada, e em que a gestão profissional enterrou de vez o velho mito do «peso da camisa».

    Durante décadas, alimentamos a narrativa romântica de que, na hora da decisão, a tradição de um gigante em crise poderia superar a organização de um clube emergente. 2025 provou que isso é uma mentira. Os clubes que terminaram o ano a celebrar títulos ou vagas diretas na Libertadores — sejam eles as SAFs consolidadas como o Botafogo e o Bahia, ou modelos associativos de excelência como o Palmeiras — têm algo em comum que falta aos que ficaram pelo caminho: blindagem institucional e processos definidos.

    A vitória do silêncio sobre o caos

    O que separa hoje o topo da tabela da zona de rebaixamento não é apenas o dinheiro, mas o silêncio. Enquanto clubes como o Palmeiras, sob a batuta inabalável de Abel Ferreira e uma diretoria que blinda o departamento de futebol, trabalharam com previsibilidade, outros gigantes históricos passaram o ano imersos em guerras políticas, trocas de técnicos e escândalos de bastidores.

    A SAF do Botafogo, por exemplo, demonstrou que um projeto de scouting global e uma filosofia de jogo integrada valem mais do que contratar medalhões aleatórios para acalmar conselheiros vitais. O Fortaleza, com um orçamento menor mas com uma gestão impecável, continuou a dar lições em clubes que faturam o triplo mas gastam o quádruplo. A lição de 2025 é clara: a paixão do torcedor é o combustível do jogo, mas não pode ser o motor da gestão. Quando a emoção invade a sala da presidência, o desastre é certo.

    O fim da «camisa que entorta varal»

    Vimos, ao longo das 38 rodadas, instituições centenárias sendo atropeladas taticamente e fisicamente. A mística da camisa pesada, aquela que supostamente «entorta varal», tornou-se irrelevante diante de adversários que correm mais, recuperam mais rápido e, sobretudo, sabem exatamente o que fazer com a bola. O respeito que os adversários tinham pelos escudos tradicionais desapareceu; hoje, respeita-se quem paga em dia e quem tem padrão tático.

    Para os clubes que insistem no modelo associativo arcaico, onde a política interna dita as contratações e as dívidas são empurradas com a barriga, 2025 foi um aviso final. O abismo técnico e financeiro entre os «organizados» e os «amadores» aumentou drasticamente. Não há mais espaço para o dirigente torcedor que gere o clube com o fígado.

    O novo perfil do sucesso

    O legado deste ano é o triunfo do profissionalismo. O torcedor brasileiro, embora passional, começa a entender que a estabilidade é o maior troféu. Ele vê que o vizinho organizado ganha taças, enquanto o seu clube, preso ao saudosismo, ganha apenas manchetes de crise.

    O futebol brasileiro de 2025 ensinou-nos que a história é bonita e deve ser respeitada nos museus, mas dentro de campo, quem manda é a competência. A camisa agora só pesa para quem a veste sem preparo; para os bem geridos, ela é apenas o uniforme de trabalho de uma engrenagem que funciona. Ou os gigantes adormecidos acordam para a realidade corporativa do século XXI, ou continuarão a ver a sua grandeza ser devorada pela modernidade.

  • Endrick e Estêvão: duas joias do Palmeiras, dois caminhos diferentes na Europa.

    Endrick e Estêvão: duas joias do Palmeiras, dois caminhos diferentes na Europa.

    Eu sendo uma torcedora nascida nos anos 90, tenho parado para observar como a base tem se movimentado atualmente no futebol brasileiro, uma maneira mais forte mais vívida do que há tempos atrás, e me arrisco a dizer que o Palmeiras viveu, em um curto período de tempo, algo que poucos clubes conseguem repetir: revelou dois talentos geracionais e os vendeu para o futebol europeu ainda adolescentes.

    Endrick e Estêvão saíram da mesma base, vestiram a mesma camisa e carregaram expectativas parecidas. Ainda assim, hoje vivem momentos bem distintos fora do Brasil.

    Enquanto Estêvão parece chegar ao futebol europeu com impacto, confiança e protagonismo, Endrick ainda luta por espaço, minutos e afirmação. A pergunta que surge é inevitável: o que explica essa diferença tão gritante? E a resposta passa por vários aspectos menos pelo talento, porque ambos têm de sobra, essa diferença vale muito mais pelo contexto geral de cada transferência.

    Endrick: talento geracional em um ambiente sem margem para erro  

    Quando Endrick foi negociado com o Real Madrid, o Palmeiras e o mercado sabiam exatamente o que estava em jogo. Não era apenas uma venda histórica, mas a transferência de um jogador com rótulo de fenômeno antes mesmo de completar 18 anos. O problema é que o Real Madrid não é um ambiente de adaptação lenta.

    Endrick chegou a um elenco estrelado, competitivo, que briga por Champions League todos os anos e onde cada minuto em campo precisa ser justificado. Diferente do Palmeiras, onde ele tinha liberdade para errar, aprender e crescer, na Europa cada oscilação vira pauta, cada jogo sem gol vira cobrança.

    Além disso, há a questão tática. Endrick não atua exatamente da mesma forma que atuava no Brasil. Seu papel mudou, sua leitura de jogo precisou se adaptar e, sem sequência, o processo se torna ainda mais difícil. Isso não significa que Endrick esteja mal. Significa que ele está em um clube que não permite construção.

    Estêvão: tempo, protagonismo e um processo mais protegido  :

    Já o caminho de Estêvão foi diferente desde o início, o Palmeiras, claramente mais experiente após o caso Endrick, segurou o jogador por mais tempo, deu protagonismo real e permitiu que ele amadurecesse dentro de campo antes da saída. Estêvão não foi apenas promessa, ele foi protagonista.

    Quando a venda ao Chelsea foi confirmada, Estêvão já havia vivido pressão, jogos grandes, decisões e momentos ruins também. Ele saiu mais pronto emocionalmente, taticamente e mentalmente. Até mesmo já havia marcado gol contra o Chelsea no Mundial de clubes com sua contratação já acertada para o time. Foi respeitoso com a torcida adversária no momento, e hoje caiu no gosto da torcida que já até fizeram um cântico para o jovem jogador.

    O impacto imediato que vemos hoje não acontece por acaso. Ele é reflexo de um processo melhor conduzido, com menos ansiedade e mais clareza de função.
    Estêvão não é mais talentoso que Endrick. Ele apenas chegou mais preparado para o choque europeu.

    Comparar não é diminuir, é entender processos  :

    Existe uma tentação grande em comparar Endrick e Estêvão como se um estivesse “dando certo” e o outro não. Essa leitura é rasa e injusta.

    “Endrick saiu no tempo do mercado, Estêvão saiu no tempo do jogador.”

    O Palmeiras aprendeu com a primeira grande venda e ajustou o processo na segunda. Isso não invalida Endrick, nem transforma Estêvão em um caso isolado de sucesso. São trajetórias diferentes, com exigências diferentes.

    O futebol europeu, especialmente no ataque, cobra impacto imediato. E nem todo talento jovem consegue entregar isso sem pagar um preço emocional e técnico no caminho.

    O problema nunca foi o talento  :

    Se existe um erro recorrente na análise do futebol moderno, é achar que talento se sustenta sozinho. Não se sustenta.
    Talento precisa de contexto, confiança, sequência e paciência. Endrick vai dar certo. Mas o processo dele será mais longo, mais silencioso e menos linear. Estêvão, por sua vez, colhe hoje algo que Endrick não teve tempo de viver: ambiente favorável para a sua evolução.

    No fim, o Palmeiras não errou em nenhuma das vendas. Evoluiu. E isso diz muito sobre o clube, sobre sua base e sobre a maturidade de entender que formar jogadores também é saber quando soltar.

    O tempo vai colocar cada um no seu lugar. E a história, como sempre, será mais justa do que a expectativa do presente.

  • Thiago Silva no FC Porto: aposta improvável ou jogada de mestre?

    Thiago Silva no FC Porto: aposta improvável ou jogada de mestre?

    No sábado caiu uma bomba do nada: Thiago Silva assinou pelo FC Porto. Uma aposta surpreendente, sim. Mas que, olhando com calma, faz muito mais sentido do que parece à primeira vista.

    É estranho falar de um jogador de 41 anos no futebol europeu atual. Mas estamos a falar de um dos melhores zagueiros do século XXI. E o contexto ajuda a explicar esta decisão. O FC Porto tem apenas um zagueiro destro no elenco e a grave lesão de Nehuén Pérez no tendão de Aquiles tirou-o da temporada inteira. Apesar de uma dupla que vem funcionando bem – os polacos Jakub Kiwior e Jan Bednarek – e de uma jovem promessa como Dominik Prpić, a verdade é simples: faltava um perfil específico. Um zagueiro destro, experiente, confiável.

    E aí entra Thiago Silva. Sem custos de transferência, num contrato curto de seis meses (com opção de mais um), fica claro que não é uma contratação para o futuro, mas para gerir o presente. Rotação, segurança, liderança. Alguém que, mesmo recentemente, ainda dava aula no Brasileirão.

    Essa contratação não surge do nada – e diz muito sobre o momento que o FC Porto vive fora de campo. A estrutura do clube está a funcionar bem. Basta lembrar a chegada de Samu no último dia de transferências, fechada sem boatos, sem novelas, sem ruído. Ou a apresentação de Luuk de Jong, feita ao vivo no próprio dia, depois de ter sido trazido para o Dragão com um nível de secretismo tão grande que chegou a circular como reforço da equipa de andebol. Agora, surge mais um movimento cirúrgico: um dos melhores zagueiros de sempre, fechado em absoluto silêncio, numa parceria discreta com Fabrizio Romano. Não é acaso. É método.

    Essa escolha também diz muito sobre o treinador Francesco Farioli. Ele quer certezas. Quer reduzir riscos. Quer competir até o fim. Quer o Campeonato Português e quer vencer a Liga Europa.

    O grande ponto de interrogação não está no futebol de Thiago Silva. Está na cabeça. Ele vem disposto a aceitar ser rotação e não titular absoluto? Vem com humildade para fortalecer o vestiário, orientar um elenco jovem, ambicioso e que já lidera o campeonato? Porque, se vier com esse espírito, o impacto pode ser enorme – dentro e fora de campo.

    Aos 41 anos, continuar a querer jogar bola em alto nível é quase uma loucura. Mas é uma loucura que merece respeito. E esse retorno ao Porto tem também um peso simbólico forte. Thiago Silva volta a uma casa onde, na primeira passagem, não foi feliz. Mas é importante lembrar: foi o FC Porto quem o descobriu ainda menino, vindo do Juventude. A adaptação não correu bem, atuou apenas pela equipe B e seguiu caminho para construir uma carreira lendária. Este retorno soa como um fim de ciclo.

    E que ciclo. Porque o FC Porto tem uma história pesada quando o assunto é zagueiro: Ricardo Carvalho, Aloísio, Jorge Costa e, claro, o homem cujo número agora herda: Pepe.

    Thiago Silva junta vários objetivos numa só decisão: manter vivo o sonho de disputar um Mundial aos 41 anos, fechar uma etapa que não correu bem na primeira passagem, voltar a disputar títulos num gigante europeu e regressar à Europa – algo que sempre esteve nos seus planos.

    O ADN do FC Porto sempre esteve ligado à imprevisibilidade. À capacidade de fazer o que ninguém espera. De arriscar quando outros recuam. De desafiar o óbvio.

    E no futebol, como na vida, há uma verdade simples: quem não arrisca, não merece viver o extraordinário.

    Thiago Silva não chega para ser promessa. Chega para ser aposta. Para ser decisão. Para ser momento.

    Agora a pergunta vai para quem o acompanhou mais de perto nesta fase da carreira. Para quem esteve ao lado dele no Fluminense: o que acham desta movimentação de mercado?

  • Neymar: a salvação do Santos

    Neymar: a salvação do Santos

    Quando Neymar assinou o seu contrato para vestir novamente a camisa do Santos, muitos torceram o nariz. Falaram em «ex-jogador em atividade», em «marketing desesperado» ou em um «custo impagável» para um clube que vive no fio da navalha financeira. Mas hoje, ao olharmos para o desempenho da equipe em 2025, a conclusão é inevitável e contraria os céticos: Neymar não foi apenas um reforço; ele foi a salvação institucional e esportiva do Santos Futebol Clube.

    Num ano em que o futebol brasileiro triturou elencos com um calendário desumano e o nível técnico oscilou perigosamente, a presença do camisa 10 na Vila Belmiro funcionou como um farol em meio à neblina. O Santos, que flertou com a irrelevância e com o fantasma da Série B em temporadas recentes, encontrou nos pés do seu maior ídolo do século a estabilidade que nenhuma gestão ou treinador conseguiu entregar nos últimos anos.

    Mais do que técnica: a liderança técnica

    A salvação trazida por Neymar vai além dos gols e das assistências, que continuam a aparecer com uma frequência acima da média para o padrão nacional. O que salvou o Santos foi a «hierarquia» que ele impôs no vestiário e no campo. Em um elenco repleto de garotos da base que sentiam o peso da responsabilidade, Neymar serviu como um escudo. Ele absorveu a pressão, atraiu a marcação adversária e criou o espaço vital para que os novos «Meninos da Vila» pudessem respirar e jogar.

    Taticamente, ele já não é o ponta explosivo de 2011, mas reinventou-se como um armador cerebral. No caos organizado do Brasileirão, onde a correria muitas vezes supera o raciocínio, a capacidade de Neymar de colocar a bola debaixo do braço e ditar o ritmo do jogo foi o diferencial entre o empate e a vitória em partidas cruciais contra adversários diretos. Ele transformou um time reativo em uma equipe que, pelo menos quando a bola passa por ele, sabe exatamente o que fazer.

    O resgate da autoestima

    Fora das quatro linhas, o impacto foi igualmente salvador. O Santos recuperou a sua relevância midiática e a sua autoestima. A Vila Belmiro voltou a ser um caldeirão temido, não apenas pela pressão da torcida, mas pelo respeito reverencial que os adversários têm ao enfrentar uma lenda viva. Esse «medo cênico» imposto aos rivais garantiu pontos preciosos em casa.

    Financeiramente, a conta pode ser alta, mas o custo do rebaixamento ou da mediocridade seria muito maior. Neymar trouxe patrocinadores, lotou estádios em jogos fora de casa e recolocou o Santos nas manchetes internacionais.

    Portanto, chamar Neymar de «salvação» não é exagero poético; é uma constatação pragmática. Sem ele, o Santos de 2025 seria um time à deriva, lutando para sobreviver às suas próprias limitações. Com ele, o clube reencontrou o seu orgulho e, mais importante, o caminho do gol. Neymar provou que, mesmo longe do auge físico, o talento de um gênio ainda é a moeda mais valiosa do futebol brasileiro.

  • Vitor Roque em 2025: por que o atacante do Palmeiras chega forte para 2026  

    Vitor Roque em 2025: por que o atacante do Palmeiras chega forte para 2026  

    Temporada de afirmação de Vitor Roque no Palmeiras  

    Há alguns artigos eu já falava sobre a ascensão de Vitor Roque e o futuro dele no Palmeiras. Mas, observando o jovem atacante nas últimas rodadas da temporada de 2025, ficou nítido para o palmeirense que ele não só está feliz no Verdão, como também quer continuar vestindo essa camisa.

    Com paciência e trabalho, Vitor Roque superou as dúvidas iniciais e, no segundo semestre, se consagrou como um dos jogadores mais importantes do elenco alviverde.

    O resultado dessa evolução foi expressivo. Vitor encerrou a temporada com 20 gols no total, sendo 16 apenas no Campeonato Brasileiro, terminando como artilheiro do Palmeiras na competição. Foi peça fundamental na campanha que levou o clube ao vice-campeonato brasileiro.

    É claro que o vice deixa um gosto amargo no torcedor e também ficou evidente que Vitor Roque queria mais. Muito mais. Mesmo sem títulos em 2025, o Palmeiras esteve presente nas fases decisivas dos principais torneios, e muito disso passou pelos pés do camisa 9.

    Vitor Roque na Seleção Brasileira e o carinho da torcida  

    Não à toa, as boas atuações renderam a Vitor Roque uma nova oportunidade na Seleção Brasileira, em jogos amistosos.

    A consistência apresentada ao longo da temporada transformou o atacante em um dos jogadores mais confiáveis do elenco e em verdadeiro xodó da torcida,  algo impressionante para um atleta de apenas 20 anos. (Reparem só a carinha dele cantando o hino: “ôh meu Palmeiras, meu Palmeiras, meu Palmeiras…”).

    Prêmios individuais de Vitor Roque em 2025  

    As atuações de Vitor Roque em 2025 não resultaram apenas em elogios da torcida e da comissão técnica. Elas vieram acompanhadas de reconhecimento individual.

    Em sua primeira temporada com a camisa alviverde, o atacante disputou 56 jogos, marcou 20 gols e distribuiu entre 3 e 5 assistências.

    Entre os principais destaques:

    • Prêmio Bola de Prata 2025 (ESPN)
    • Seleção do Brasileirão 2025
    • Indicação ao prêmio Rei da América

    Vale ressaltar que, mesmo concorrendo com nomes de peso internacional, como: Messi. Vitor Roque aparece como um dos favoritos ao Rei da América, segundo a mídia especializada. Isso mostra que seu brilho ultrapassou as fronteiras do futebol brasileiro em 2025.

    Ao posar nas redes sociais com seus troféus individuais, Vitor não deixou de agradecer ao clube e aos companheiros:

    “Também agradeço pelos prêmios individuais que conquistei ao longo do ano. Eles significam muito, mas nada disso seria possível sem meus companheiros.”

    A humildade em dividir os méritos com o grupo só reforça sua imagem de jogador coletivo e positivo dentro do elenco.

    Futuro de Vitor Roque: permanência no Palmeiras e foco em 2026  

    Após o fim da temporada, surgiram especulações sobre o futuro de Vitor Roque. O desempenho em 2025 colocou o atacante no radar de clubes europeus,  como já comentado em outros artigos, e até de sondagens do futebol saudita.

    Apesar disso, uma saída não está nos planos imediatos. O Palmeiras fez a maior contratação da história do futebol brasileiro para contar com Vitor Roque e não tem interesse em negociá-lo tão cedo. Do lado do jogador, a postura é clara.

    Mesmo diante de propostas acima de 40 milhões de euros, o Tigrinho reafirmou seu compromisso com o Verdão:

    “Estou muito feliz no Palmeiras… meu desejo é ficar. Tenho contrato por bastante tempo e estou totalmente focado aqui.”

    Em mensagem à torcida, Vitor Roque deixou claro que o foco já está em 2026 e na busca pelos títulos que escaparam em 2025:

    “2026 está chegando, e tenho certeza de que vamos melhorar ainda mais. Vamos trabalhar forte para buscar títulos importantes juntos. AVANTI PALESTRA.”

    O que esperar de Vitor Roque no Palmeiras em 2026  

    Para a temporada de 2026, a expectativa é que Vitor Roque consolide de vez seu status de protagonista do Palmeiras. Sem a necessidade de adaptação, ele deve iniciar o ano já entrosado, confiante e liderando o ataque desde os primeiros jogos.

    O desempenho no segundo semestre de 2025 mostrou do que ele é capaz: gols em jogos grandes, participação ofensiva constante e muita entrega dentro de campo. Mantendo essa evolução, Vitor tem tudo para brigar pela artilharia e ser decisivo na busca por títulos.

    O ano de 2025 foi de afirmação. Começou com desconfiança, mas terminou com prêmios, reconhecimento e status de ídolo emergente no Allianz Parque.

    Com apenas 20 anos, Vitor Roque já demonstra personalidade, maturidade e fome de conquista. Para o torcedor palmeirense, fica a certeza: com Vitor Roque no comando do ataque, 2026 promete fortes emoções e, quem sabe, as taças que faltaram nesta temporada. 

  • O futebol está a ficar aborrecido. E não é só nostalgia.

    O futebol está a ficar aborrecido. E não é só nostalgia.

    O futebol, hoje, está uma seca.
    Não sei se é a nostalgia a falar ou se é mesmo a realidade a impor se, mas a verdade é que algo se perdeu pelo caminho. Esta semana estava a dar um Real Madrid vs Manchester City e, por incrível que pareça, não me despertou grande interesse. Estamos a falar de um dos maiores jogos do futebol atual e mesmo assim passou me quase ao lado.

    Pouco depois, descubro que estava a haver um Flamengo vs Pyramids para a Taça Intercontinental. Taça Intercontinental? E o PSG só entra diretamente na final? Confesso que pensei que essa competição já tinha sido substituída ou simplesmente deixado de existir. E talvez esta confusão diga mais sobre o futebol moderno do que sobre mim.

    A FIFA está a destruir o futebol.
    E não, não é por mal. É por excesso e por falta de critério.

    Vivemos numa era em que o futebol já não compete apenas com outros desportos. A verdadeira concorrência é o entretenimento em geral: Netflix, TikTok, vídeos curtos, consumo rápido. Tudo disputa a nossa atenção. Mas a resposta encontrada foi empilhar jogos, competições e formatos novos, como se quantidade pudesse substituir significado. O que estão a fazer é, no mínimo, criminoso.

    O novo formato da Liga dos Campeões é o melhor exemplo disso. É uma porcaria. A desvalorização dos grandes jogos é evidente. Quando há grandes jogos constantemente, eles deixam de ser especiais. Perdem peso, perdem urgência, perdem contexto. Esta fase de liga permite que equipas gigantes façam apenas o mínimo necessário para seguir em frente. Não há drama, não há medo de falhar. Vemos rotações constantes na maior competição de clubes do mundo, algo que simplesmente não faz sentido.

    Tenho saudades dos grupos de quatro. Da ida e da volta. Da regra dos golos fora nas eliminatórias. Sim, especialmente dessa regra. Não era perfeita, mas ajudava os mais pequenos, criava estratégia, tensão, noites memoráveis. Fazia nos vibrar.

    Depois entramos no absurdo das competições globais. Faz sentido existir uma Taça Intercontinental. Faz sentido existir um Mundial de Clubes. O problema é ninguém perceber qual é qual, nem o que realmente está em jogo. Não é o mesmo título? Não devia ser. Mas hoje parece tudo diluído, sem identidade, sem narrativa. Há um Mundial de Clubes de quatro em quatro anos e, mesmo assim, mantém se uma Intercontinental que, na Europa, quase ninguém valoriza ou sequer acompanha. O futebol está inchado, confuso e sem hierarquia clara.

    Este modelo também está a afastar as pessoas do futebol como um todo. Cada vez mais adeptos acompanham apenas o seu clube do coração, muitos deles exclusivamente pela televisão. O resto do futebol transforma se num produto global vendido em massa para mercados gigantes, como a Índia, onde se consome o futebol europeu como entretenimento, mas onde pouco se vive aquilo que ele realmente é. Estádios, rivalidades, contexto histórico e cultura de adepto passam para segundo plano.

    Em Portugal, sofremos do mesmo mal. Temos uma Taça da Liga que nunca encontrou verdadeiramente o seu propósito. Só a Inglaterra conseguiu tornar uma taça da liga funcional e respeitada. Cá, parece existir apenas para imitar modelos estrangeiros e servir patrocinadores. As torcidas organizadas boicotam, os estádios ficam vazios, e há até rumores de clubes que preferem perder para evitar um calendário ainda mais sobrecarregado em janeiro. Isto não é futebol saudável. Isto é gestão de produto disfarçada de competição.

    Mas o problema do futebol moderno não é só dentro das quatro linhas. É também fora delas. Em vez de apostar seriamente em como ter claques com segurança nos estádios, em como permitir consumo de álcool de forma responsável, em como valorizar o espetáculo criado pelos adeptos com segurança e organização, prefere se reprimir, proibir e afastar. As subculturas do futebol, as claques, os cânticos, as coreografias, a identidade popular, são tratadas como um problema, quando sempre foram parte da solução. Sem isso, o futebol perde alma.

    Vivemos também na era das super equipas. Clubes empresa. Grupos com várias equipas espalhadas pelo mundo. Houve um tempo em que quase todos os clubes tinham jogadores fora de série. Hoje, os dez maiores clubes do mundo têm dois plantéis cheios deles. E, honestamente, perde a graça. O imprevisível desaparece.

    Tenho saudades de ver um Deportivo a brilhar em Espanha. Um Boavista a dar trabalho sério aos grandes em Portugal. Um Wolfsburg, Estugarda ou um Werder Bremen campeões na Alemanha. Uma liga francesa com um Marselha, um Lyon ou um Saint Étienne de volta aos velhos tempos, a discutir títulos frente a um PSG petrolífero. O futebol precisa de anomalias, de histórias improváveis, de resistência. Precisa de falhar ao controlo absoluto.

    Curiosamente, acabei de ver um Corinthians vs Cruzeiro, para a meia final da Taça do Brasil, e foi aí que voltei a sentir alguma coisa. Um jogo menos tático, mais trapalhão, cheio de duelos no um para um, bolas na trave, emoção crua. E, acima de tudo, um público incrível. Um ambiente vivo, intenso, genuíno.

    Talvez não seja o futebol europeu que esteja errado.
    Talvez seja a forma como o estamos a transformar num produto demasiado polido, demasiado controlado, demasiado distante das pessoas.

    Eu sei que a FIFA não me ouve. Mas se continuarmos a aceitar tudo isto sem questionar, um dia vamos acordar e perceber que o futebol que nos fez apaixonar já não existe. E quando isso acontece, não há formato novo que o salve.

  • A discussão da Taça da Liga e a ilusão ibérica

    A discussão da Taça da Liga e a ilusão ibérica

    A discussão levantada na recente Cimeira de Presidentes sobre a extinção da Taça da Liga não deve ser vista, de forma simplista, como um ato de arrogância dos clubes grandes. Pelo contrário, trata-se de um grito de sobrevivência em meio a um calendário que perdeu qualquer contato com a realidade fisiológica dos atletas. A proposta de acabar com a competição, defendida por Benfica e FC Porto, é a única saída racional para um futebol português que está a sufocar sob o peso de jogos irrelevantes e lesões acumuladas.

    Defender a permanência da Taça da Liga no formato atual é ignorar a matemática do desgaste. Com o inchaço das competições europeias promovido pela UEFA e o novo formato do Mundial de Clubes da FIFA, não há mais datas disponíveis.

    Manter um torneio que, sejamos honestos, oferece prêmios financeiros irrisórios se comparados aos custos operacionais e ao risco de perder jogadores importantes por lesão, é um erro estratégico.

    A competição tornou-se um fardo para todos: para os grandes, que precisam rodar o elenco e desvalorizam o produto, e para os menores, que muitas vezes pagam para jogar, sem o retorno de visibilidade prometido em fases preliminares arrastadas.

    A saturação mata o espetáculo

    O argumento de que a extinção fere a democracia do futebol cai por terra quando analisamos a qualidade do jogo. Um calendário saturado resulta em partidas de baixo nível técnico, com atletas exaustos e times desfigurados. A verdadeira defesa do futebol português passa por valorizar o Campeonato e a Taça de Portugal, garantindo que estas competições tenham os melhores jogadores em campo, nas suas melhores condições físicas.

    A Taça da Liga, criada para preencher lacunas de calendário que já não existem, cumpriu o seu papel, mas hoje é um obstáculo à excelência. Insistir na sua continuidade é prezar pela quantidade em detrimento da qualidade, uma lógica que transformou o mês de janeiro em uma maratona absurda que, ao final, não traz benefício estrutural real para nenhum clube, seja ele de topo ou de meio de tabela.

    A verdadeira elitização: a ameaça espanhola

    Se há elitismo e ganância nesta história, eles não residem no pedido de extinção da prova, mas sim nas alternativas «criativas» que foram ventiladas nos bastidores recentemente. A proposta de transformar a Final Four numa espécie de «Taça Ibérica», convidando clubes espanhóis para disputar o troféu em solo português, é o verdadeiro atentado à integridade do nosso esporte.

    Essa ideia, que visa apenas gerar receitas televisivas artificiais e agradar a patrocinadores, é a prova cabal de que o dinheiro estava a tentar sequestrar a identidade do futebol nacional. Trazer o Real Madrid ou o Barcelona para «salvar» a Taça da Liga seria admitir que o futebol português não se sustenta sozinho. Isso sim seria elitização: criar um torneio de exibição para uma plateia VIP, ignorando o mérito esportivo local em prol de um show business internacionalizado.

    Portanto, acabar com a Taça da Liga não é um ato de egoísmo; é um ato de saneamento. O futebol português precisa de menos jogos para ter melhores jogos. É hora de deixar a competição ir, fechando a porta a invenções ibéricas que serviriam apenas para encher os bolsos de organizadores, enquanto os jogadores portugueses continuariam a pagar a conta com a própria saúde.