Categoria: Opinião

  • O futuro europeu de Vitor Roque: ídolo em ascensão ou peça de mercado?  

    O futuro europeu de Vitor Roque: ídolo em ascensão ou peça de mercado?  

    Vitor Roque chegou ao Palmeiras criando uma grande expectativa no torcedor. Ele estava emprestado ao Real Betis e, portanto, já sabia que o verde e branco lhe caíam bem.

    Desde o início, demonstrou muito respeito pela Sociedade Esportiva Palmeiras, entendendo não só o tamanho do clube em que estava, mas também a força da torcida que ansiava por vê-lo jogar.

    O tigrinho demorou a embalar. Entrou em 13 jogos e, apesar de chegar perto do gol, não marcava. Corria de um lado ao outro do campo, mas não tinha brilho, não encaixava, não engrenava e colocava sobre si próprio um peso enorme nos ombros. Logo entendeu o quanto a camisa do Verdão pesa.

    A virada dentro de campo  

    Em agosto, o treinador Abel Ferreira começou a escalar Vitor Roque em dupla com Flaco López, e o desempenho dos dois cresceu notavelmente. O tigrinho fez seu primeiro hat-trick em setembro e, atualmente, é um dos jogadores com mais gols do Brasileirão Série A.

    Demorou mais do que o esperado para se adaptar, mas agora Vitor Roque não só está embalado como, em apenas uma temporada, voltou a atrair os olhares dos clubes europeus. Os gringos estão atentos à evolução do jovem jogador.

    O amadurecimento e o novo modelo do clube  

    É aí que mora a beleza da história de Vitor Roque no Palmeiras. O garoto que muitos achavam “apressado demais” para justificar o investimento agora se torna uma das maiores possibilidades de venda do clube nos próximos anos. Só que, diferente de outros tempos, essa ideia não soa mais como perda, e sim como estratégia.

    A atual diretoria do Palmeiras, assim como o próprio Abel já disse, vive uma era em que formar e revelar talentos, sejam da base ou lapidados dentro do elenco, deixou de ser apenas orgulho e virou modelo de gestão. Vitor Roque representa esse novo modelo: um jogador que entrega dentro das quatro linhas e, ao mesmo tempo, projeta o clube no cenário mundial.

    Mais do que um bom jogador, Roque simboliza a força de uma filosofia que entende o futebol como paixão e negócio. Na era Leila Pereira, nada é feito por acaso. Cada contratação é um investimento futuro, cada minuto dos jogadores em campo é vitrine, e cada rumor de uma possível venda é reflexo de um trabalho bem-feito.

    O Palmeiras como vitrine e formador  

    Nos últimos anos, o Palmeiras deixou de ser apenas um comprador de reforços para se tornar formador e valorizador da própria casa. Endrick abriu as portas, Estevão consolidou o caminho e agora Vitor Roque chega para mostrar um exemplo de maturação rápida e retorno certo.

    O diferencial do Verdão é justamente esse: não vende por necessidade, mas por escolha. Cada saída e entrada de jogadores faz parte de uma visão ampla, que garante competitividade, lucro e legado.

    O Palmeiras entendeu que, no futebol moderno, o valor de um jogador vai além do campo. Ter um atleta avaliado como “nível Europa” chama atenção, atrai holofotes, mídia, patrocinadores e até novos talentos para a base.

    Cada gol do tigrinho é manchete internacional. Cada movimento e cada especulação se tornam uma forma gratuita de marketing global. O nome “Palmeiras” circula cada vez mais nas conversas e mesas de negociação da Europa, da Ásia e da África, sem o clube precisar investir em campanhas publicitárias. Esse tipo de visibilidade engrandece o clube.

    Entre a razão e a emoção  

    Mas é claro que o torcedor sente esse dilema. No fundo, queremos ver nossos jogadores brilhando no Allianz Parque e não apenas sendo peças de mercado. Queremos ver a comemoração do tigrinho com a camisa alviverde e não um adeus precoce. É aquele velho conflito entre razão e emoção.

    Hoje, a torcida alvi verde já aprendeu a ganhar sem depender de nomes e a vender sem perder a identidade. Vitor Roque é mais do que um craque, é o símbolo de um novo Palmeiras.

    O ciclo e o legado  

    No fim, o futebol é feito de ciclos. Ídolos vêm e outros vão. Um clube não se constrói apenas pelas taças que levanta, mas pela forma como constrói o seu futuro.O Palmeiras hoje não é só o time que vence. É o clube que cresce, que planeja e que mostra ao mundo, com orgulho, a grandeza que é ser PALMEIRAS.

  • Roberto Martínez já chateia

    Roberto Martínez já chateia

    A convocatória de Portugal para os jogos contra a República da Irlanda e Arménia, de qualificação para a Copa do Mundo de 2026 é semelhante a um peito de frango sem tempero.

    Não há nada de diferente, inovador, apenas as mesmas apostas conservadoras e muito questionáveis do selecionador Roberto Martínez.

    Vamos por parte para facilitar a vida ao leitor. Nuno Mendes está lesionado, o defesa esquerdo que o selecionador considera ser “o melhor jogador do mundo”. Sabe, caro leitor, quantos defesas esquerdos convocou Martínez? Zero!

    “Ah, mas o Diogo Dalot joga a defesa esquerdo no Manchester United”. Jogar é uma coisa, jogar bem… é outra. “Ah, mas não há opções melhores”, aliás, não há opção nenhuma na cabeça de Roberto Martínez.

    Mas para quem de facto vê futebol, reconhece a boa temporada que Leonardo Lelo está a fazer no Braga e a opção sólida que Francisco Moura, do FC Porto, pode ser. Mas talvez o selecionador não acompanhe o campeonato do país que treina.

    Ao menos se houvesse um defesa esquerdo nomeado para defesa do ano da FIFA e jogasse numa das melhores equipas do mundo… Espera! Afinal há! Raphael Guerreiro não vai à seleção portuguesa desde julho de 2023, mas continua a exibir-se a alto nível no Bayern Munique.

    Não me digam que Roberto Martínez não vê a melhor equipa da Europa em 2025/26? Ao menos temos Diogo Dalot.

    Vamos ao lado direito da defesa. As escolhas passaram por Nélson Semedo, uma opção meramente ok; e João Cancelo, aquele lateral prolífero na competitiva Liga saudita.

    Novamente, se Roberto Martínez assistisse à Liga portuguesa talvez soubesse que Alberto Costa merece uma chamada (já leva cinco assistências) e tem um perfil que pode ser bem aproveitada na seleção nacional.

    Mas para o lado direito há Matheus Nunes, que não se sabe bem se é médio ou lateral, mas que não é o mesmo do Sporting.

    Continuando na defesa, mas agora no centro, concordo com quase todas as chamadas, mas Renato Veiga… eu não sei bem o que anda ali a fazer. Tomás Araújo já mostrou mais que suficiente para ser convocado regularmente e tem argumentos para ser o futuro da seleção. Mas o que se há de fazer?

    No meio campo não há muito a dizer, também não tenho paciência para isso. Mas depois chegamos ao ataque e já tenho o que contestar novamente.

    Fico feliz por Carlos Forbs ter sido convocado, a sério, é bom ver sangue novo e com perfil desequilibrador na seleção nacional. Mas o motivo desta convocatória diz muito da incoerência de Roberto Martínez.

    O extremo do Brugge está a ter um arranque bom de época, mas foi chamado por um (!) bom jogo frente ao Barcelona. Foi uma excelente exibição, na Champions e contra uma grande equipa – dois golos e uma assistência – mas é uma exibição!

    Se é para dar oportunidades a jogadores fora do grupo habitual, sou totalmente a favor, mas Rodrigo Mora não existe? Não mostrou que é craque?

    E Quenda? Já é jogador do Chelsea e ainda não jogou na seleção A! É escandaloso e só descredibiliza um selecionador que só salvou parte da opinião pública porque ganhou a poderosissíma Liga das Nações.

    Mas lá está, o técnico espanhol não deve mesmo acompanhar a Liga portuguesa. Ou então saberia da época que Pablo, avançado do Gil Vicente, está a fazer. Tal como Félix Correia fez em 2024/25 e está a fazer, agora, no Lille.

    É importante esclarecer que eu não acho que a seleção nacional deve ser uma porta giratória de jogadores. Mas basta olhar para Espanha e perceber que não há medo de mudar o grupo para integrar jogadores em boa forma.

    E Roberto Martínez mantém-se às mesmas opções de sempre, várias de peso questionáveis (João Félix, Bernardo Silva, Rúben Neves) e não dá hipótese a outros de se mostrarem.

    E isto não pode acontecer num Euro ou Mundial, claro. Mas há tantas datas FIFA ou UEFA que dão perfeitamente para estrear outros nomes, experimentar dinâmicas e evoluir a seleção.

    Depois os resultados estão em campo. Exibições que vão do 8 ao 80, algumas pobres, sem ritmo, de um grupo que não parece ter alma em mais ocasiões do que devia.

    Portugal tem de ser uma seleção moderna, se não Roberto Martínez vai ficar na história por desperdiçar (mais uma) geração de ouro.

  • Mundial 2026: A magia da inclusão de novas seleções

    Mundial 2026: A magia da inclusão de novas seleções

    Para muitos, o futebol é uma forma de viver, uma forma de respirar, uma maneira de sentir as coisas de modo diferente! Sobretudo para essas pessoas, a Copa do Mundo surge como um pico de êxtase onde há confrontos inéditos. Na competição a ser disputada em 2026, a FIFA decidiu expandir o torneio de 32 para 48 seleções, surgindo assim uma oportunidade inédita de democratizar o acesso ao maior palco do futebol mundial – e também dos sonhos de muitos jogadores.

    Se olharmos para os registros, as Copas do Mundo sempre foram dominadas por seleções tradicionais da Europa ou da América do Sul, deixando muitas regiões em um plano secundário e sem grande protagonismo nas fases finais.

    Desta forma, a nova expansão para 48 equipes traz um novo horizonte, a possibilidade de que essas nações finalmente estejam presentes em maior número, oferecendo a milhões de torcedores de países menores ou de menor destaque futebolístico a chance de ver seus times no evento mais importante do esporte. Isto não é apenas uma questão de números: trata-se de uma oportunidade de transformar vidas de atletas, inspirar jovens nas categorias de base e reforçar o futebol como um fenômeno onde todos (devem e) têm a possibilidade de ter uma voz!

    Torcida de Cabo Verde

    Além da representatividade destas seleções menos vistosas, há um aspecto humano e narrativo que esta expansão valoriza! As histórias de seleções menores que chegam à competição, enfrentam gigantes – como se tratasse de um Davi contra Golias – e desafiam expectativas. Classificações como a de Cabo Verde – que se tornou o menor país de todos os tempos a se classificar para o Mundial – podem criar momentos históricos, inspirando milhões de fãs ao redor do mundo. Nesta perspectiva, a Copa do Mundo de 2026 promete multiplicar estas boas narrativas, com mais países a ter a possibilidade de desenhar a própria história na competição e – quem sabe – talvez alcançar uma conquista histórica.

    No entanto, é preciso ser honesto e reconhecer os desafios que essa expansão traz! Logisticamente, é necessário pensar em como organizar um torneio de 48 seleções em três países (Estados Unidos, México e Canadá) e, muito honestamente, parece que tem tudo para algo dar errado. Sem um planejamento rigoroso, que vai dos estádios e das longas viagens até a segurança e hospedagem das seleções, são muitas as possibilidades de haver atrasos, dificuldades ou até problemas técnicos, tendo em conta as grandes distâncias percorridas pelas equipes e os diferentes climas onde vão disputar vários jogos em pouco tempo – mas isto vou deixar para outro texto…

    Metlife Stadium, o palco da final do Mundial 2026

    Outro ponto a considerar é a sobrecarga no calendário internacional. Com mais equipes e partidas, a pressão sobre os jogadores aumenta, e clubes podem enfrentar dificuldades para liberar alguns jogadores nas saídas para conciliar compromissos nacionais e internacionais.

    Apesar destas questões, os benefícios da expansão parecem ser mais claros e pesados que as desvantagens e complicações. Lá no fundo, mais seleções significam mais sonhos realizados, mais torcedores a acompanhar o evento e mais momentos memoráveis para o público – quem não guarda uma grande memória de uma Copa do Mundo que atire a primeira pedra.

    A diversidade cultural e futebolística só adiciona riqueza ao torneio e fortalece a ideia de que o futebol é, verdadeiramente, de todos. Ao contrário do que muitos puristas possam dizer, a inclusão de equipes menores não diminui a qualidade, mas sim pelo contrário, apenas oferece novas perspectivas, estilos e – quem sabe – surpresas que tornem o Mundial ainda mais fascinante.

  • Brasil, aluno: o incômodo de aprender com quem vem de fora

    Brasil, aluno: o incômodo de aprender com quem vem de fora

    Na última terça-feira (04/11), durante o 2º Fórum Brasileiro de Treinadores, Oswaldo de Oliveira e Emerson Leão deram o que falar. Ambos, nomes bem conhecidos no meio do futebol nacional, fizeram declarações um tanto polêmicas sobre o novo técnico da Seleção Brasileira, o italiano Carlo Ancelotti. Dentre as muitas questões que levantaram, a indignação de que o Brasil precise realmente recorrer a um profissional estrangeiro foi a mais comentada nos últimos dias.

    Muitos treinadores no Brasil se solidarizaram com a situação e rapidamente ligaram para o Mister, mostrando empatia e deixando claro que aquela fala não representava o pensamento de todos os brasileiros. Outros foram além e classificaram as declarações daquelas personalidades como “infelizes”. Ver toda essa situação me levou a uma reflexão que, com muito carinho, compartilho hoje com vocês.

    Como alguém que ama o futebol e consome diariamente material sobre esse esporte fascinante, sei que essa polêmica é antiga — e acabou ganhando força nos últimos anos. E não é por acaso: se formos olhar hoje para o melhor time de futebol do Brasil (na minha humilde opinião), o Palmeiras, veremos que ele é comandado há cinco anos pelo mesmo treinador — o estrangeiro Abel Ferreira. Líder do Campeonato Brasileiro, finalista da Libertadores, o Palmeiras de Abel é um sucesso inegável. E então surge a pergunta: afinal, por que tantos se incomodam com a presença de técnicos estrangeiros no Brasil? Ainda mais depois de esse caminho ter se mostrado tão promissor?

    E aí vem o ego. Sim, caros leitores, vocês leram bem. Para nós, foi como um choque de realidade perceber a necessidade de buscar talentos lá fora, porque simplesmente o que os brasileiros ofereciam estava “ultrapassado” e “pouco competitivo”. Na tentativa de recuperar o prestígio internacional, o professor agora precisava se tornar aluno — e isso, acredito, doeu de uma forma diferente em algumas pessoas. É como se estivéssemos “admitindo inferioridade” de alguma forma, já que não conseguíamos mais resolver esses desafios sozinhos.

    Para alguns, é difícil ser humilde quando se é o maior vencedor de Mundiais e se revelam estrelas que valem milhões todos os anos. É mais difícil ainda entender que o modelo antigo não funciona mais, que precisamos modernizar, evoluir. E essa modernização passa também pela aceitação desses treinadores de fora, que chegam com ideias e métodos diferentes.

    Em vez de enxergar os estrangeiros como inimigos, deveríamos vê-los como espelhos que refletem o quanto o nosso futebol precisa se reinventar. Muitos dos nossos técnicos são resistentes simplesmente porque evitam a atualização e a autocrítica em nome de um “patriotismo” que, no fundo, esconde o medo do novo.

    O futebol brasileiro sempre foi plural, criativo e aberto. Negar o intercâmbio de ideias é trair justamente essa essência. Talvez o problema não seja termos um Ancelotti na Seleção — mas não termos um brasileiro que, hoje, esteja no mesmo patamar.

    Fico sempre na esperança de que técnicos novos, como Filipe Luís, do Flamengo, representem essa nova geração de treinadores abertos a ensinar e aprender com aqueles que vêm de fora — na tentativa de elevar o nível de competitividade do futebol brasileiro e, quem sabe, fazermos parte também das opções de outros países.

  • O Brasil precisa abrir as janelas 

    O Brasil precisa abrir as janelas 

    Durante o Fórum Brasileiro de Treinadores, disse que torcia para que Carlo Ancelotti tivesse sorte na Copa do Mundo e, depois, deixasse o cargo para um técnico brasileiro.

    A frase foi dita num evento em que o próprio Ancelotti estava no palco, e rapidamente viralizou.
    A cena, por si só, já seria constrangedora. Mas o que veio depois foi ainda pior: Oswaldo recusou-se a pedir desculpas, disse que não falou nada de errado e reafirmou a convicção de que o comando da Seleção deve ser de um brasileiro.

    Nada contra o patriotismo, eu também preferiria que o meu selecionador de Portugal fosse, de facto, português, mas há momentos em que o patriotismo soa a medo.

    O episódio foi vergonhoso porque revelou um pensamento que ainda me choca no futebol brasileiro: o receio do que vem de fora e o medo de ser substituído.

    Foto: Reprodução / YouTube / FBTF

    Quando o orgulho vira obstáculo  

    Renato Gaúcho também já deu declarações com o mesmo tom:

    “Do jeito que falam, parece que chegaram 100 portugueses e 90 tiveram sucesso. A paciência que a imprensa brasileira tem com o estrangeiro, não tem com o brasileiro.”

    Vanderlei Luxemburgo também já tinha ido pelo mesmo caminho meses antes, dizendo que “os portugueses não inventaram o futebol moderno”.

    Essa narrativa tem um problema simples: os estrangeiros que chegaram realmente tiveram sucesso.

    Jorge Jesus transformou o Flamengo num rolo compressor e virou lenda em poucos meses.
    Abel Ferreira criou um império no Palmeiras, continua empilhando taças e está novamente numa final da Libertadores.
    Pedro Caixinha levou o Bragantino a uma classificação histórica.
    Leonardo Jardim, campeão francês com o Mónaco frente ao todo-poderoso PSG, está a brilhar num Cruzeiro que tenta renascer do caos.
    Artur Jorge foi campeão da Libertadores com o Botafogo…

    Até Vítor Pereira, tão criticado, conseguiu eliminar o Boca na Bombonera com um dos piores Corinthians de sempre.

    Não chegaram 100, e nem todos tiveram resultados.
    Sejamos honestos: não são todos bons.
    Mas os que venceram… venceram a sério.

    O espetáculo do Craque Neto  

    No meio disso tudo, o meu favorito e sempre imprevisível Craque Neto não podia ficar de fora.
    Mandou Leonardo Jardim “voltar pra sua terra” e fez do caso um show.

    E eu confesso: me entretenho muito com o Craque Neto.
    É carismático, autêntico, engraçado, mas às vezes passa-se da cabeça.

    E quando a paixão ultrapassa a razão, o debate perde-se.
    Jardim não desrespeitou o Brasil. Pelo contrário: quis vê-lo melhor.

    A ironia do destino

    É curioso notar que, entre tantos nomes, talvez o melhor técnico brasileiro da atualidade seja Filipe Luís, e ele é um produto da escola europeia.
    Aprendeu tática, estrutura e mentalidade no Velho Continente.

    É quase poético: o futuro dos tecnicos brasileiros seja um gajo moldado em Madrid e Londres.

    O que isso mostra?
    Que o intercâmbio é necessário.
    Que ninguém evolui trancado na própria bolha.

    E sabem quem entendeu isso muito bem? A Arábia Saudita.

    Sergio Conceição e Jorge Jesus - Técincos de Al Itthiad e Al Nassr - Foto retirada de : CNN Portugal

    O risco do isolamento  

    A Arábia está a crescer, claro, com dinheiro infinito, mas o que realmente faz diferença é a estratégia.

    Eles vão buscar o conhecimento dos melhores, contratam técnicos de ponta, montam estruturas modernas e aprendem todos os dias.

    E não duvidem: em breve vão surgir grandes talentos árabes, tanto dentro das quatro linhas como a comandar.

    No sentido oposto está a Rússia.
    Claro que a guerra os tirou do mapa, mas mesmo antes disso a liga russa já vivia algo semelhante ao que se vê hoje no Brasil.

    Era uma das mais ricas do mundo, tinha jogadores talentosos — obviamente, menos artísticos, mais objetivos — e estádios de primeiro nível.
    Mas fechou-se.

    Recusava treinadores estrangeiros e os jogadores quase não saíam do país.

    Resultado: estagnação.

    Abrir as janelas  

    O futebol brasileiro tem uma das torcidas mais apaixonadas do mundo, estádios cheios e clubes com poder financeiro cada vez maior.
    Mas ainda falta algo essencial: abrir as janelas e deixar o vento entrar.

    Importar ideias não é perder identidade, é fortalecê-la.
    E, felizmente, já há sinais de mudança.

    Os clubes brasileiros e a CBF já estão a abrir os olhos, a olhar para fora, a buscar referências, a aprender.

    Quem ainda está revoltado são os técnicos, e é normal.
    Quando se muda uma cultura, há sempre resistência.
    Mas o que importa é que a mudança começou.

    O problema não é a nacionalidade. Até porque os portugueses, de facto, não inventaram o futebol moderno como diz o Luxemburgo mas tiveram a capacidade de querer aprender com quem traz algo novo.

    E, sinceramente, se for pra evoluir, que venham mais estrangeiros.
    Tanto o futebol brasileiro e o português só têm a ganhar.

    O técnico do Porto, é Francesco Farioli, um italiano que vai em primeiro na classificação.

    É cíclico.

    E eu prometo continuar assistindo o Craque Neto, só pra rir um pouco no meio do caos.

    Se algum dia ler isto, Neto, me convide para o Donos da Bola.

  • O Palmeiras e a alma da virada de Abel  

    O Palmeiras e a alma da virada de Abel  

    E aconteceu o que parecia impossível: o Palmeiras de fato se consagrou como O TIME DA VIRADA.
    E agora, finalmente, tenho uma memória viva sobre uma virada histórica para contar nas minhas histórias.

    Ao ver o jogo, o que mais me deixava animada era conseguir juntar as letras do hino à partida:

    “Defesa que ninguém passa, linha atacante de raça, torcida que canta e vibra. Por nosso Alviverde inteiro.”


    Cada verso parecia ganhar vida dentro de campo. Foi intenso, foi real e, com certeza, foi a noite mágica que Abel Ferreira prometeu.

    Esse jogo me fez pensar sobre quantas viradas históricas o Verdão já teve ao longo desses anos.

    Se pegarmos desde a fundação do clube, a lista é muito extensa, afinal o Palmeiras sempre teve esse DNA guerreiro.


    Mas falando da era Abel Ferreira, as viradas ganharam um novo significado. Elas deixaram de ser apenas resultados improváveis e passaram a simbolizar o que esse time representa: resiliência, mentalidade e alma vencedora.

    Sempre tivemos ecoando pelas arquibancadas o cântico:
    “O Palmeiras é o time da virada, o Palmeiras é o time do amor!”

    Mas, nos últimos cinco anos, sob o comando de Abel, essas palavras ganharam mais força e verdade. Não é mais só sobre um cântico, é também uma identidade.

    Apesar de alguns desencontros entre Abel e parte da torcida palmeirense, o técnico deve ser considerado um dos maiores treinadores da história do clube, e atualmente, um dos melhores do Brasil.

    O time do Palmeiras não é apenas uma vitrine de talentos, é também mentalmente uma equipe forte, guiada por um português nortenho que parece duro por fora, mas que carrega um o coração grande, pintado de verde e branco.

    Abel Ferreira: cabeça fria, coração quente.

    A frase virou um símbolo do que ele representa. Um homem que vive o jogo com intensidade, mas que pensa com lucidez mesmo nos momentos mais difíceis.

    Porque, sob o comando de Abel, o elenco não apenas virou jogos.
    Virou também história!

    Foi assim contra o São Paulo, no Paulistão de 2022, precisávamos de três gols e marcamos quatro.

    Foi assim contra o Flamengo, na Supercopa de 2023, quando cada gol de Veiga e de Menino marcavam na história mais uma virada.
    E foi assim contra o Botafogo, naquela noite em que o impossível virou realidade: de 0x3 para 4×3.

    Essas viradas são mais do que partidas marcantes, são um capítulo da história palmeirense, mas isso não é apenas sobre futebol.

    É sobre fé, resistência, sobre um time que se recusa a abaixar a cabeça.

    O Palmeiras de Abel é um reflexo da torcida: teimosa, intensa, inquieta.
    Um time que entra no gramado com a mesma emoção com que o torcedor grita da arquibancada.

    E quando o apito final soa, não é apenas a vitória que fica.
    É a lembrança de que cada virada carrega uma mensagem:
    O impossível não existe para o time do Palmeiras.

    Enquanto houver 1% de chance, o Palmeiras de Abel vai acreditar nos 99% de cabeça fria e coração quente.

  • Todas as lágrimas são amor, Abel Ferreira

    Todas as lágrimas são amor, Abel Ferreira

    Confesso: sou fã de Abel Ferreira. Goste-se mais ou menos do estilo das equipas do treinador português, ganhe mais ou menos títulos, é um homem de raça. Luta, chora, grita, encoraja e vive todos os momentos como se fossem o último.

    E no meio disto tudo, mais uma final foi alcançada pelo Palmeiras. Depois de perder 3-0 na primeira mão, até eu perdi esperança. Mas foi uma reviravolta digna de uma equipa de Abel Ferreira.

    No final do jogo, o português chorou. E foram lágrimas de amor, de quem ama o futebol, ama o Palmeiras e ama os seus jogadores. Abel ainda disse que após o jogo só lhe apetecia abraçar a filha, que está em Portugal.

    Este lado humano, com todas as emoções à flôr da pele, para o bem e para o mal, tornam muito difícil não gostar de Abel Ferreira. Mesmo para quem é adepto do rival, a paixão e entrega do homem é louvável.

    E num mundo onde falta energia, Abel Ferreira é o exato oposto. Os discursos no balneário do Palmeiras são dos meus preferidos de ver.

    Seja um do dia da mãe, onde pediu aos jogadores para escreverem o nome das mães na mão e jogarem por ela. Ou quando colocou fotos dos jogadores em criança e puxou pelo “orgulho” do trajeto.

    No Mundial de Clubes, disse aos jogadores que eles “pagavam” para estar ali. “Levem esta energia, este pensamentos, por nós, por eles e pelos nossos que estão lá em cima”. É arrepiante só de ouvir.

    Abel Ferreira é um excelente comunicador, não só o conteúdo é forte, como a mensagem é dita ao melhor nível, digno de discurso de filme sobre gladiadores.

    Falta treinadores assim hoje em dia. Com garra, emoções à flôr da pele, que sofram tanto como os adeptos e que transmitam ao balneário a força do querer.

    Numa era de futebolistas preocupados em escrever mensagens provocatórias no Instagram, ou em partilhar infromações aos jornais para denegrir um treinador, falta líderes como Abel Ferreira.

    Há que haver respeito e há que saber dar-se respeito. Abel é certeiro em ambas. Fala da família, de orgulho, de saudade, de amor, chora, ri e ganha. Abel Ferreira é um vencedor.

    Volto ao início desta opinião. Goste-se mais ou menos do futebol dele, ganhe mais ou menos jogos, quero acreditar que há poucas pessoas que não gostariam de ter um homem como Abel Ferreira no seu clube.

    Todas as lágrimas são de amor, Abel Ferreira. Por isso, torço por ti. Portugal está contigo, campeão.

  • Clube do Remo e o sonho de voltar à elite do futebol brasileiro

    Clube do Remo e o sonho de voltar à elite do futebol brasileiro

    Sem muitos rodeios, da mesma forma que o Mirassol vem surpreendendo a todos com sua campanha fantástica na Série A, esse papel é facilmente atribuído ao Clube do Remo, se formos considerar a Série B. O Leão Azul é de Belém do Pará (minha cidade natal) e vem fazendo história em uma campanha extraordinária, de deixar qualquer time com inveja. Apesar de torcer para o Paysandu SC (o maior rival do Remo), não poderia deixar de elogiar essa formação que está superando todas as expectativas possíveis.

    São três décadas que os azulinos não sabem o que é jogar na Série A do Campeonato Brasileiro. E, se formos olhar para o Remo dos últimos cinco anos, fica ainda mais evidente a trajetória de sucesso e superação que esse time vem traçando para deixar esse passado para trás de uma vez por todas. Em 2024, estavam disputando a Série C e conseguiram o acesso. Todos esperavam uma participação mediana no Brasileirão Série B 2025 — o que normalmente vemos no primeiro ano dos times que sobem — e, para a nossa surpresa, a equipe de Guto Ferreira vem entregando muito mais do que uma campanha “água com sal”.

    Terceiro colocado no G-4, com 57 pontos (apenas três a menos que o líder Coritiba), o Remo não apenas tem chance de subir, mas também de ser campeão nesta temporada. Está entre os três principais ataques da competição, com 45 gols marcados. E, de repente, contra toda a lógica tradicional com que estamos acostumados no futebol de elite, o Remo aparece gigante — numa campanha apaixonante, construída com muita dedicação e esforço por toda a equipe e pelos fãs.

    Clubismos à parte, torço para que o Remo consiga o acesso. Quero ver o futebol amazônico mais uma vez no topo. Somos apaixonados por esse esporte e merecemos ser mais reconhecidos por isso. O Leão ainda vai nos emocionar muito nas rodadas finais, precisando apenas de duas vitórias para garantir a vaga matematicamente. Seria um presente de 120 anos mágico, que todos esses torcedores fiéis merecem. 

  • Mundial de 2026: Deve ser palco para causas?

    Mundial de 2026: Deve ser palco para causas?

    A Copa do Mundo de 2026 tem tudo para se tornar muito mais do que um grande evento esportivo: pode transformar‑se num palco de debates sociais, ambientais e políticos!

    Assumindo o possível (e praticamente certo) alcance da competição até aos «quatro cantos do mundo», defendo que esta prestigiada competição deve, e pode, assumir esse papel com responsabilidade. Ao mesmo tempo, nem tudo são rosas! Todos sabemos que há riscos nesse tipo de ações e há uma grande diferença entre discursar sobre algo e tomar efetivamente medidas para que algo aconteça.

    Em primeiro lugar, o torneio que vai juntar 48 equipes e que vai ocorrer nos três países‑anfitriões (Estados Unidos, Canadá e México) aumenta exponencialmente seu alcance social e simbólico – recorde-se que será o segundo mundial com mais do que um país anfitrião, o que já aconteceu em 2002 com Coreia do Sul e Japão.

    Políticas de migração podem ser um dos temas abordados neste Mundial 2026

    Ter a visibilidade destes 3 grandes países, permite lançar à  luz sobre temas que muitas vezes ficam relegados: inclusão, direitos humanos, meio ambiente, mobilidade, questões trabalhistas. Por exemplo, a Amnesty International alerta que faltam garantias claras para que sejam assegurados os direitos humanos de trabalhadores, torcedores e grupos vulneráveis nos países anfitriões – inclusive pelo risco de políticas de imigração restritivas que presidentes como Trump vão colocando. Nesse contexto, a Copa pode servir de instrumento de pressão para que governos e organizadores adotem melhores práticas.

    Adicionalmente, o impacto ambiental do evento oferece uma plataforma essencial para debates sobre a verdadeira sustentabilidade «por trás das câmeras». Um relatório das Scientists for Global Responsibility estima que o torneio gerará cerca de 9 milhões de toneladas de CO₂, superando os 5,5 milhões registrados no Mundial no Catar e tornando‑se o mais poluente da história da competição. 

    Isso obriga, e pede, a responsabilidade dos governos e da organização visto que é com a visibilidade que se pode gerar a mudança: se o evento propocionar exposição às contradições entre o espetáculo fornecido e a pegada ecológica do evento, pode fomentar a prática e imposição de políticas mais verdes.

    Mundial 2022 no Catar, o mais poluente até à data

    Tendo causas como esta em conta, defendo firmemente que a Copa 2026 deve servir de palco para essas narrativas — e que os organizadores não apenas falem de «legado» ou «responsabilidade» como muitas vezes acontece, mas que realmente incorporem práticas concretas: a proteção dos direitos humanos, existência de transparência financeira, a mitigação de emissões e o envolvimento das comunidades locais.

    Claro que há o lado oposto: alguns argumentam que megaeventos esportivos geram deslocamentos de populações, aumento de custos públicos, turismo massivo que beneficia grandes corporações mais do que a sociedade local — e que usar a Copa como palco de «questões sociais» pode acabar sendo mera retórica ou «greenwashing». Além disso, há o risco de que os próprios países‑anfitriões ignorem críticas ou limitem liberdades para evitar constrangimentos num evento global. A crítica da Amnesty International a políticas migratórias e direitos civis ilustra parte dessa preocupação. 

    Em síntese, acredito que a Copa 2026 oferece uma oportunidade ímpar para tornar visíveis e conectar agendas ambientais, políticas e sociais — mas isso só valerá se houver compromissos reais e fiscalização. Se for apenas espetáculo e discurso, perde‑se a chance de transformar o enorme investimento numa janela de progresso. 

  • Bem-vindo ao Brasil, Leonardo Jardim  

    Bem-vindo ao Brasil, Leonardo Jardim  

    Leonardo Jardim se revoltou numa coletiva e fez críticas duras ao desempenho da equipa de arbitragem. Mas o meu artigo não é sobre o árbitro, até porque eu nem vi o jogo. É sobre a mensagem que o técnico quis deixar.

    O treinador disse algo importante, que vai muito além de uma decisão de arbitragem. Falou de um sistema e de um contexto. Disse que, na opinião dele, o Brasileirão dificilmente chegará ao top cinco mundial. E eu concordo.

    Eu já escrevi isso antes, o potencial é enorme, talvez o maior do mundo fora da Europa. A paixão pelo futebol no Brasil é algo que me deixa louco. Está na minha lista de coisas a fazer antes de morrer, assistir a um Grenal, a um Corinthians contra Palmeiras ou a um jogo em São Januário. O Brasil vive o futebol de uma forma que nenhum outro país vive, mas a estrutura não acompanha.

    Talento, por si só, já não basta  

    Eu já falei em “lixo visual” nos estádios, nos gramados sintéticos e em outros que mais parecem campos de batatas. E, em 2025, isso ainda faz sentido?

    Enquanto não houver um sindicato que defenda os jogadores, enquanto o número absurdo de jogos e os campeonatos estaduais não forem repensados, o Brasileirão continuará sendo o maior desperdício de talento do mundo.

    Ver um jogo do Palmeiras ou do Flamengo na televisão não tem nada a ver com assistir a uma partida da Premier League. E eu não digo isso por qualquer complexo de superioridade, o campeonato português também tem muito a melhorar. A diferença é que, em Portugal, há uma preocupação, ainda que pequena, com a forma como o produto é apresentado. No Brasil há paixão e emoção como em nenhum outro lugar, mas falta organização, critério e planejamento.

    O bairrismo português é forte no Norte. No Brasil qualquer equipa tem casa cheia. E é por isso que dói ver tanto potencial travado.

    Craque Neto entendeu mal  

    Craque Neto, essa personalidade que eu adoro, tanto me diverte como me irrita profundamente, respondeu da pior forma. Mandou Jardim embora, perguntou “quem é você?” e atacou de forma grosseira. Sinceramente, o que seria se fosse o contrário? Se fosse um português a mandar um brasileiro “de volta para a tua terra”? Abriria os noticiários.

    Mas Neto interpretou mal a crítica. Jardim não desrespeitou o Brasil, pelo contrário, respeitou-o tanto que quis vê-lo melhor. O que ele disse é que o Brasileirão precisa valorizar-se como produto, porque tem torcidas apaixonadas, talento infinito e dimensão continental. E nisso ele está completamente certo.

    Abel Ferreira vem avisando  

    Abel Ferreira tem sido o porta-voz dessa luta desde que chegou. Critica o calendário, defende a profissionalização da arbitragem e pede melhores condições. É ridicularizado por isso, assim como agora Jardim. Mas a verdade é que eles são aliados do futebol brasileiro, até porque o interesse é mútuo. São técnicos que vêm de uma cultura onde o planeamento é fundamental e que encontraram um ambiente onde o improviso ainda manda.

    E o Brasil, com o tamanho e a paixão que tem, pode e deve ambicionar mais.

    Temos de aprender uns com os outros  

    Eu entendo a reação. Os brasileiros, nisso, são como nós, portugueses, não gostam de ouvir críticas sobre o próprio país. Só as aceitam quando vêm de dentro. “Só nós é que podemos falar mal de nós próprios!”

    Jardim não veio ensinar nada. Veio lembrar que o Brasil já tem tudo para ser top cinco. Só falta entender que a paixão precisa de estrutura e que o talento, por si só, já não é suficiente.

    O problema não é a nacionalidade. O problema é não querer ouvir quem quer ajudar.

    Dito isso, se me arranjarem umas cervejas e um ingresso para um jogaço, contem comigo, ahahah.