Categoria: Opinião

  • Clube do Remo e o sonho de voltar à elite do futebol brasileiro

    Clube do Remo e o sonho de voltar à elite do futebol brasileiro

    Sem muitos rodeios, da mesma forma que o Mirassol vem surpreendendo a todos com sua campanha fantástica na Série A, esse papel é facilmente atribuído ao Clube do Remo, se formos considerar a Série B. O Leão Azul é de Belém do Pará (minha cidade natal) e vem fazendo história em uma campanha extraordinária, de deixar qualquer time com inveja. Apesar de torcer para o Paysandu SC (o maior rival do Remo), não poderia deixar de elogiar essa formação que está superando todas as expectativas possíveis.

    São três décadas que os azulinos não sabem o que é jogar na Série A do Campeonato Brasileiro. E, se formos olhar para o Remo dos últimos cinco anos, fica ainda mais evidente a trajetória de sucesso e superação que esse time vem traçando para deixar esse passado para trás de uma vez por todas. Em 2024, estavam disputando a Série C e conseguiram o acesso. Todos esperavam uma participação mediana no Brasileirão Série B 2025 — o que normalmente vemos no primeiro ano dos times que sobem — e, para a nossa surpresa, a equipe de Guto Ferreira vem entregando muito mais do que uma campanha “água com sal”.

    Terceiro colocado no G-4, com 57 pontos (apenas três a menos que o líder Coritiba), o Remo não apenas tem chance de subir, mas também de ser campeão nesta temporada. Está entre os três principais ataques da competição, com 45 gols marcados. E, de repente, contra toda a lógica tradicional com que estamos acostumados no futebol de elite, o Remo aparece gigante — numa campanha apaixonante, construída com muita dedicação e esforço por toda a equipe e pelos fãs.

    Clubismos à parte, torço para que o Remo consiga o acesso. Quero ver o futebol amazônico mais uma vez no topo. Somos apaixonados por esse esporte e merecemos ser mais reconhecidos por isso. O Leão ainda vai nos emocionar muito nas rodadas finais, precisando apenas de duas vitórias para garantir a vaga matematicamente. Seria um presente de 120 anos mágico, que todos esses torcedores fiéis merecem. 

  • Mundial de 2026: Deve ser palco para causas?

    Mundial de 2026: Deve ser palco para causas?

    A Copa do Mundo de 2026 tem tudo para se tornar muito mais do que um grande evento esportivo: pode transformar‑se num palco de debates sociais, ambientais e políticos!

    Assumindo o possível (e praticamente certo) alcance da competição até aos «quatro cantos do mundo», defendo que esta prestigiada competição deve, e pode, assumir esse papel com responsabilidade. Ao mesmo tempo, nem tudo são rosas! Todos sabemos que há riscos nesse tipo de ações e há uma grande diferença entre discursar sobre algo e tomar efetivamente medidas para que algo aconteça.

    Em primeiro lugar, o torneio que vai juntar 48 equipes e que vai ocorrer nos três países‑anfitriões (Estados Unidos, Canadá e México) aumenta exponencialmente seu alcance social e simbólico – recorde-se que será o segundo mundial com mais do que um país anfitrião, o que já aconteceu em 2002 com Coreia do Sul e Japão.

    Políticas de migração podem ser um dos temas abordados neste Mundial 2026

    Ter a visibilidade destes 3 grandes países, permite lançar à  luz sobre temas que muitas vezes ficam relegados: inclusão, direitos humanos, meio ambiente, mobilidade, questões trabalhistas. Por exemplo, a Amnesty International alerta que faltam garantias claras para que sejam assegurados os direitos humanos de trabalhadores, torcedores e grupos vulneráveis nos países anfitriões – inclusive pelo risco de políticas de imigração restritivas que presidentes como Trump vão colocando. Nesse contexto, a Copa pode servir de instrumento de pressão para que governos e organizadores adotem melhores práticas.

    Adicionalmente, o impacto ambiental do evento oferece uma plataforma essencial para debates sobre a verdadeira sustentabilidade «por trás das câmeras». Um relatório das Scientists for Global Responsibility estima que o torneio gerará cerca de 9 milhões de toneladas de CO₂, superando os 5,5 milhões registrados no Mundial no Catar e tornando‑se o mais poluente da história da competição. 

    Isso obriga, e pede, a responsabilidade dos governos e da organização visto que é com a visibilidade que se pode gerar a mudança: se o evento propocionar exposição às contradições entre o espetáculo fornecido e a pegada ecológica do evento, pode fomentar a prática e imposição de políticas mais verdes.

    Mundial 2022 no Catar, o mais poluente até à data

    Tendo causas como esta em conta, defendo firmemente que a Copa 2026 deve servir de palco para essas narrativas — e que os organizadores não apenas falem de «legado» ou «responsabilidade» como muitas vezes acontece, mas que realmente incorporem práticas concretas: a proteção dos direitos humanos, existência de transparência financeira, a mitigação de emissões e o envolvimento das comunidades locais.

    Claro que há o lado oposto: alguns argumentam que megaeventos esportivos geram deslocamentos de populações, aumento de custos públicos, turismo massivo que beneficia grandes corporações mais do que a sociedade local — e que usar a Copa como palco de «questões sociais» pode acabar sendo mera retórica ou «greenwashing». Além disso, há o risco de que os próprios países‑anfitriões ignorem críticas ou limitem liberdades para evitar constrangimentos num evento global. A crítica da Amnesty International a políticas migratórias e direitos civis ilustra parte dessa preocupação. 

    Em síntese, acredito que a Copa 2026 oferece uma oportunidade ímpar para tornar visíveis e conectar agendas ambientais, políticas e sociais — mas isso só valerá se houver compromissos reais e fiscalização. Se for apenas espetáculo e discurso, perde‑se a chance de transformar o enorme investimento numa janela de progresso. 

  • Bem-vindo ao Brasil, Leonardo Jardim  

    Bem-vindo ao Brasil, Leonardo Jardim  

    Leonardo Jardim se revoltou numa coletiva e fez críticas duras ao desempenho da equipa de arbitragem. Mas o meu artigo não é sobre o árbitro, até porque eu nem vi o jogo. É sobre a mensagem que o técnico quis deixar.

    O treinador disse algo importante, que vai muito além de uma decisão de arbitragem. Falou de um sistema e de um contexto. Disse que, na opinião dele, o Brasileirão dificilmente chegará ao top cinco mundial. E eu concordo.

    Eu já escrevi isso antes, o potencial é enorme, talvez o maior do mundo fora da Europa. A paixão pelo futebol no Brasil é algo que me deixa louco. Está na minha lista de coisas a fazer antes de morrer, assistir a um Grenal, a um Corinthians contra Palmeiras ou a um jogo em São Januário. O Brasil vive o futebol de uma forma que nenhum outro país vive, mas a estrutura não acompanha.

    Talento, por si só, já não basta  

    Eu já falei em “lixo visual” nos estádios, nos gramados sintéticos e em outros que mais parecem campos de batatas. E, em 2025, isso ainda faz sentido?

    Enquanto não houver um sindicato que defenda os jogadores, enquanto o número absurdo de jogos e os campeonatos estaduais não forem repensados, o Brasileirão continuará sendo o maior desperdício de talento do mundo.

    Ver um jogo do Palmeiras ou do Flamengo na televisão não tem nada a ver com assistir a uma partida da Premier League. E eu não digo isso por qualquer complexo de superioridade, o campeonato português também tem muito a melhorar. A diferença é que, em Portugal, há uma preocupação, ainda que pequena, com a forma como o produto é apresentado. No Brasil há paixão e emoção como em nenhum outro lugar, mas falta organização, critério e planejamento.

    O bairrismo português é forte no Norte. No Brasil qualquer equipa tem casa cheia. E é por isso que dói ver tanto potencial travado.

    Craque Neto entendeu mal  

    Craque Neto, essa personalidade que eu adoro, tanto me diverte como me irrita profundamente, respondeu da pior forma. Mandou Jardim embora, perguntou “quem é você?” e atacou de forma grosseira. Sinceramente, o que seria se fosse o contrário? Se fosse um português a mandar um brasileiro “de volta para a tua terra”? Abriria os noticiários.

    Mas Neto interpretou mal a crítica. Jardim não desrespeitou o Brasil, pelo contrário, respeitou-o tanto que quis vê-lo melhor. O que ele disse é que o Brasileirão precisa valorizar-se como produto, porque tem torcidas apaixonadas, talento infinito e dimensão continental. E nisso ele está completamente certo.

    Abel Ferreira vem avisando  

    Abel Ferreira tem sido o porta-voz dessa luta desde que chegou. Critica o calendário, defende a profissionalização da arbitragem e pede melhores condições. É ridicularizado por isso, assim como agora Jardim. Mas a verdade é que eles são aliados do futebol brasileiro, até porque o interesse é mútuo. São técnicos que vêm de uma cultura onde o planeamento é fundamental e que encontraram um ambiente onde o improviso ainda manda.

    E o Brasil, com o tamanho e a paixão que tem, pode e deve ambicionar mais.

    Temos de aprender uns com os outros  

    Eu entendo a reação. Os brasileiros, nisso, são como nós, portugueses, não gostam de ouvir críticas sobre o próprio país. Só as aceitam quando vêm de dentro. “Só nós é que podemos falar mal de nós próprios!”

    Jardim não veio ensinar nada. Veio lembrar que o Brasil já tem tudo para ser top cinco. Só falta entender que a paixão precisa de estrutura e que o talento, por si só, já não é suficiente.

    O problema não é a nacionalidade. O problema é não querer ouvir quem quer ajudar.

    Dito isso, se me arranjarem umas cervejas e um ingresso para um jogaço, contem comigo, ahahah.

  • O Palmeiras e o destino da virada  

    O Palmeiras e o destino da virada  

    Nasci em 1993 e cresci ouvindo histórias sobre o Palmeiras, mas isso vocês já sabem!
    Uma das histórias que ouvi recentemente, através de uma chamada com meu pai, foi a da Libertadores de 1999.

    Confesso que, em junho daquele ano, eu tinha quase seis anos, e apesar de o meu pai me mandar fotos desse dia, eu era só uma pequena palestrina no meio da confusão palmeirense.

    Nessa foto, eu estava segurando a mão da minha mãe, grávida do próximo palmeirense da família (meu irmão Patrick), que vestia, assim como eu, a camisa verde com listras brancas da era Parmalat. Ao fundo, meu pai comemorava, batendo as mãos com as de um amigo.

    Ver aquela foto me trouxe uma sensação. É claro que eu não me lembro do jogo, mas pude sentir a emoção, aquele tipo de sentimento que não precisa de lembrança pra permanecer.

    Era o jogo de volta da Libertadores de 99.
    O Palmeiras tinha perdido o primeiro jogo da final para o Deportivo Cali, por 1 a 0.
    O time colombiano vinha confiante, mas o Verdão de Felipão era feito de aço.

    Na volta, no Parque Antártica lotado, Evair abriu o placar. Oséas fez o segundo. Zapata ainda empatou o agregado, mas o destino queria mais. Nos pênaltis, Marcos virou santo, e Euller cobrou o último com a serenidade de quem sabia que ali nascia algo eterno.

    Foi o primeiro título da Libertadores.
    O primeiro grito de “é campeão da América” da nossa história.

    O Allianz Parque e a fé em Abel  

    E agora, em 2025, a história parece se repetir.
    Só que, dessa vez, eu tô aqui pra contar a minha história, uma história que eu e meu pai vamos guardar na lembrança.

    E, claro, eu quero que seja uma lembrança feliz, pra que a atual geração da minha família continue a tradição daquelas que “não veem o Palmeiras perder”.

    Hoje, é o Bernardo, meu sobrinho de sete anos, quem corre pela sala vestindo o manto verde. Ele está crescendo numa era vencedora do Verdão, assim como eu e o pai dele crescemos.
    E quero que ele também herde esse sentimento de fé que passa de pai pra filho, de tia pra sobrinho, de geração em geração.

    Acreditamos no Abel, assim como meu pai acreditava no Felipão.
    Porque cada virada nasce da arquibancada, da emoção de quem canta e vibra:

    “O Palmeiras é o time da virada, o Palmeiras é time do amor, leleô, leleô.”

    Podem até duvidar, podem provocar, podem tentar nos diminuir.
    Mas enquanto houver um palmeirense cantando, gritando, empurrando o time, com o olhar atento pro gramado ou pra TV, cheio de esperança, o Palmeiras será gigante.

    De 1999 a 2025, de Marcos a Weverton, de Evair a Vitor Roque, de Felipão a Abel, a história é a mesma. A camisa pesa, o coração aguenta, a fé empurra.

    E se o destino quiser, 2025 pode ser mais um capítulo dessa eterna história de viradas.

    Que, mais uma vez, na nossa casa, nós possamos continuar a gritar e acreditar que o Palmeiras é o time da virada.

    E é nesse espírito que o palmeirense vai levar a Libertadores de 2025, como o próprio Abel disse: “uma noite mágica.”

    Avanti, Palestra!

  • Liga espanhola falhou e censurou

    Liga espanhola falhou e censurou

    Foi do conforto da minha casa que nos últimos dias fui lendo as notícias que envolviam o jogo entre o Villarreal e o Barcelona. Desde logo que me pareceu descabido o encontro ser disputado em Miami, mas se os clubes concordavam, quem era eu para discordar?

    Como não estou em Espanha talvez me tenha faltado alguns pormenores. Afinal, os clubes não concordavam. Aliás! Nem foram consultados.

    Mas esta figura de soberania, quase monárquica, que Javier Tebas, presidente da Liga espanhola, impera, não é nova. Crê ser dono de Espanha, que apenas o que acredita está certo e os clubes… são secundários.

    Mas engana-se. Os clubes são o que fazem o futebol espanhol e a Liga, sim, pelo menos a parte de gestão, é que acaba por ser secundária. Para uma Liga espanhola protagonista já bastou os anos de Negreira.

    Mas adiante. A Liga espanhola queria o Villarreal-Barcelona em Miami sobre o pressuposto de “expansão global da competição e da marca”. Quer mais receitas, admitiu, em comunicado.

    Engraçado é utilizar a Premier League como exemplo de Liga super bem gerida e que vai ampliando o alcance e a receita. Sabe, caro leitor, quantos jogos da Premier League foram jogados fora de Inglaterra ou do País de Gales? Zero!

    Mas o pior nem é este ilusionismo de Javier Tebas, é mesmo o facto de que, enquanto figura de rei de Espanha e do futebol espanhol, não consultou os restantes clubes quanto à realização do referido jogo em Miami.

    O Real Madrid, obviamente, protestou, e eu concordo com os argumentos. E acreditem, não gosto do Real Madrid – só gostei entre 2009 e 2018 (tudo por ti, Cristiano) – mas o clube tem razão.

    Não houve unanimidade nem consulta para que o jogo fosse disputado em campo neutro. Adultera a competição. Isto são argumentos válidos e verídicos.

    A Associação Espanhola de Futebolistas disse o memso. “Falta de transparência, diálogo e coerência da La Liga”. É verdade!

    Se Javier Tebas quer gerir melhor a Liga espanhola – ou mais receitas – que aprenda que o futebol, como quase tudo na vida, se faz em coordenação, harmonia e com diálogo. Não de forma unilateral, como se fosse dono disto tudo.

    Mas o presidente da Liga espanhola não parou por aqui. Na última jornada do campeonato, a nona, ficou acordado entre TODOS os clubes um protesto simbólico. Nos primeiros 15 segundos de jogo, os jogadores permaneceram imóveis.

    E qual foi a decisão, obviamente pensada previamente e originada na brilhante cabeça de Javier Tebas, da realização? Não transmitir.

    Sim, não transmitir! Mostraram a zona central do relvado ou o exterior dos estádios! Isto só acontece quando há invasões de campo!

    Mas Javier Tebas decidiu incorporar uma veia – e os meus amigos espanhóis que me perdoem por recordar esta triste figura – de Francisco Franco [ditador espanhol entre 1939 e 1975] e censurar aquilo que é a liberdade de expressão.

    E logo a liberdade de expressão de futebolistas, vá-se lá imaginar. Essa classe operária que é constantemente condicionada no que pode dizer, a quem pode dizer e onde pode dizer.

    É uma vergonha. A Liga espanhola está a ir por um caminho de auto-destruição por culpa de um lunático de presidente.

    Encorajo, na minha mera e insignificante figura de jornalista português, que haja protestos, haja voz, reivindicação e, acima de tudo, haja liberdade. E não é so sobre futebol.

  • Mirassol: o pequeno gigante que desafia os grandes e sonha com a Libertadores

    Mirassol: o pequeno gigante que desafia os grandes e sonha com a Libertadores

    Quando falamos de surpresas na temporada de 2025 no futebol brasileiro, o Mirassol é, sem dúvida, o nome do momento. O time do interior de São Paulo, que representa uma cidade com cerca de 60 mil habitantes, vem fazendo história no Brasileirão. Conquistando o acesso no ano passado, teve um início um tanto tímido na Série A, já que só venceu uma vez nas cinco primeiras partidas que disputou. Contudo, para minha surpresa (e de muitos!), logo percebemos que o objetivo desta equipe era muito maior que apenas disputar entre os grandes.

    O Mirassol ambicionou ser um dos grandes. E assim o tem feito. No momento em que escrevo este artigo para o portal, ocupa a 4ª posição no G4, deixando para trás nomes como Botafogo e São Paulo. É verdade que ainda faltam nove rodadas para o final da temporada e muitas coisas podem acontecer, mas se me perguntassem, em abril, como eu imaginaria o topo da tabela tão próximo do final, jamais apontaria o Leão Caipira como um dos candidatos.

    Essa surpresa coletiva, entretanto, poderia ser um pouco injusta se analisarmos a trajetória de sucesso que os Leões vêm traçando até o momento. O Mirassol fará aniversário em campo no próximo dia 9 de novembro, quando recebe em casa o atual líder, Palmeiras. Serão 100 anos de história, e o presente não poderia ser melhor. Edson Ermenegildo e Juninho Antunes são os principais nomes desse sucesso e nos fizeram compreender que “sonhos sem metas são apenas sonhos”.

    E não podemos dizer que foi sorte. Isso se chama projeto. Uma gestão profissional, focada em investimentos inteligentes e planejamento a longo prazo. Os números não mentem. O Mirassol registrou a melhor campanha de um time estreante na Série A na era dos pontos corridos. Tem um dos melhores ataques da competição, com 50 gols marcados, atrás apenas do líder Palmeiras e do vice-líder Flamengo, com 53 e 56 gols, respectivamente. Fez muito barulho ao vencer times tradicionalmente grandes como Santos (3 x 0) e São Paulo (2 x 0).

    E claro, vamos falar desta equipe que tem nos ensinado muito sobre futebol. O treinador Rafael Guanaes, que fez sua estreia na Série A, mostrou ser mais uma escolha inteligente por parte da diretoria, em que o “perfil adequado” pesou mais do que ser um “grande nome” para acompanhar a ascensão do time. O lateral-esquerdo Reinaldo aparece no top 5 dos maiores artilheiros da temporada, com 11 gols marcados e 5 assistências. O experiente jogador de 36 anos faz uma temporada de alto nível, sendo o mais velho entre os atletas dessa disputada lista.

    De repente, contra toda a lógica tradicional com que o futebol brasileiro tem se configurado nas últimas décadas, o Mirassol aparece gigante, em uma campanha de muito amor e dedicação, provando que o futebol pode ser muito mais do que apenas dinheiro e jogos de influência. Observamos isso de perto até mesmo quando olhamos para sua camisa. Diferentemente da maioria dos times da Série A, que têm uma casa de aposta como patrocinador máster, os Leões seguem apostando na parceria de longa data com uma empresa regional (da cidade próxima de Potirendaba), a Poty. O acordo rende aproximadamente 9 milhões de reais ao clube. O valor é pequeno se comparado ao de outros times do Brasileirão, embora faça muito mais sentido para a identidade do clube.

    Fico feliz ao ver que nós, torcedores de times de divisões inferiores, ainda podemos sonhar com voos mais altos. O Mirassol é a nossa inspiração. Mostra que com muito trabalho, dedicação e o amor de uma comunidade que acredita nas suas raízes, não há sentença que condene ninguém a ser “pequeno”. Acredito que o Leão Caipira ainda vai nos surpreender muito nesta temporada e torço para que sua constância se estenda, garantindo uma vaga direta para a Libertadores e marcando ainda mais este aniversário centenário, que tem tudo para ser o início de uma era dourada para esse pequeno gigante.

  • Brasil rumo ao Mundial: a guerra entre talento bruto e necessidade de cabeça fria

    Brasil rumo ao Mundial: a guerra entre talento bruto e necessidade de cabeça fria

    Quando se fala da Seleção Brasileira, o primeiro instinto é sempre pensar naquele misto de respeito e expectativa, que surge na nossa cabeça como se de forma religiosa.

    Há talento (em todas as gerações) e a cultura futebolística torna o Brasil um candidato natural a vencer qualquer Mundial, no entanto, olhar para a Copa do Mundo de 2026 exige afastar um pouco o romantismo desta novela e ver os sinais reais: quem é que manda no vestiário? Que time chega mais entrosado à competição? Que pontos frágeis precisam de correção?

    Em primeiro lugar, há uma novidade de peso no banco que pretende surpreender depois da fraca exibição de Tite. A CBF trouxe Carlo Ancelotti para liderar o projeto, uma escolha pouco ortodoxa visto que o último treinador estrangeiro da Canarinha tinha sido Filpo Núñez em 1965 – isto ignorando que se naturalizou brasileiro tempos depois.

    Carlo Ancelotti

    Com o peso da sua experiência de topo na Europa, é esperado que Ancelotti mude a narrativa — deixa de ser apenas «quem tem os melhores jogadores» para «quem consegue pôr uma máquina organizada a funcionar».

    Do ponto de vista competitivo, a Seleção já carimbou presença no próximo Mundial, que no próximo ano vai contar com 48 equipes, o que dá tempo a Ancelotti para trabalhar rotinas, táticas e afinar o time titular (o 11). É uma vantagem logística que pode (e deve) fazer a diferença!

    Ainda assim, nem tudo são flores. A campanha de apuramento teve (vários) momentos preocupantes: o primeiro, diria que foi a inesperada derrota com a Bolívia em La Paz (1–0), foi um sobressalto que expôs questões de concentração e adaptação a contextos extremos — e que fez manchetes por boas razões. Apesar disso, a equipe recuperou a forma e alcançou a classificação, mas psicologicamente a derrota deixou rastros na equipe e em muitos dos torcedores.

    Japão 3-2 Brasil

    Mais recentemente, a derrota em amistoso frente ao Japão (3–2), em que o Brasil deixou fugir uma vantagem de 2–0, deixou o treinador e os torcedores a pensar sobre a «falta de cabeça fria» e o «excesso de confiança» em momentos cruciais. Amistosos servem para testar ideias, claro, mas perder com uma equipe asiática — pela primeira vez na história — é o soar de um alarme de que algo não está bem.

    Em campo, no que toca a jogadores, o Brasil não se pode queixar de forma alguma! Vinícius Júnior, Rodrygo, Bruno Guimarães, Casemiro (quando presente) e uma linha defensiva com Marquinhos a assumir a liderança são argumentos de peso para o Mundial. Apesar da esperança, também há lesões habituais (Neymar tem estado fora de alguns compromissos) e escolhas táticas que Ancelotti terá de alinhar.

    Neymar

    Como é sabido, a ansiedade por jogar e por vestir a camisa de uma Seleção tão grande gera disputas, que muitas vezes podem não ser saudáveis. A gestão de egos e minutos e a adaptação na transição para um modelo mais «europeu» certamente vão pesar muito no trabalho de Ancelotti.

    O veredicto final? O Brasil tem tudo para ser (como sempre) um grande candidato — pelas individualidades sobretudo — mas o sucesso em 2026 vai depender da consistência mental e da capacidade de Ancelotti em imprimir uma identidade tática clara e à imagem dos jogadores!

    Se a Seleção conseguir juntar a disciplina coletiva à sua magia individual tem tudo para chegar às fases mais longínquas da competição. No entanto, se voltar a vacilar em momentos de pressão, corre o risco de sair cedo demais, como tantas vezes já vimos nas grandes competições…

    Resta esperar e ver como corre a nova aventura de Ancelotti, que tem uma tarefa muito difícil em mãos.

  • A altitude não é desculpa: é parte do jogo

    A altitude não é desculpa: é parte do jogo

    O jogo em Quito e o fator casa

    O Palmeiras levou três da LDU em Quito e, como já é de costume, voltou a discussão da altitude. Sempre que um time brasileiro perde nos Andes, fala-se menos de futebol e mais de oxigênio. É um tema velho, quase automático. Mas, sinceramente, não consigo comprar essa ideia de que jogar em altitude é injusto. O futebol é feito de vantagens, e o mando de campo é uma delas.

    Os times se aproveitam do mando de campo. Todos. Só que o “mando de campo” tem muitas formas. O Bodø/Glimt, por exemplo, tem feito estragos na Europa, principalmente em casa. Por quê? Porque joga com temperaturas negativas e em gramado sintético. (E já deixei bem claro no artigo anterior que não sou fã de sintético, mas nestas circunstâncias entendo perfeitamente.)
    Cada clube tira o que pode do seu contexto. É assim que se sobrevive e se vence.

    A memória da altitude

    Quem não se lembra daquela imagem de Anderson, antigo meio-campista do FC Porto e do Manchester United, jogando pelo Internacional contra o The Strongest, na Bolívia, com máscara respiratória? A cena correu o mundo e mostrou o que é realmente jogar a mais de 3.600 metros.

    Hoje, um clube como o Palmeiras tem que estar preparado para encarar um jogo desses. A ciência, a logística e o profissionalismo já não permitem surpresas.

    A verdade é que o Palmeiras tem agora outra montanha para escalar se quer chegar à final da Libertadores, perdeu 3 a 0 na ida, mas terá o seu próprio mando de campo, a sua “altitude” verde e branca, para tentar reverter o resultado.

    Fator casa: não só altitude

    Então por que razão os sul-americanos choram tanto quando sobem a Quito ou a La Paz?
    Será cultural essa vitimização?
    Como se jogar no Allianz Parque não fosse uma vantagem enorme para o Palmeiras. No fim de semana passado, perderam contra o Flamengo no Maracanã, e eu vi o jogo daqui de Portugal, finalmente em horários decentes (ahahah). A torcida do Flamengo estava incrível, empurrou o time do início ao fim. E ninguém disse que era “injusto” o Flamengo jogar com 60 mil pessoas gritando.

    No fundo, tudo isso faz parte do xadrez que é o futebol. O ambiente, as viagens, o gramado, o clima, a altitude. Tudo conta. Todos os clubes têm o seu “inferno”.
    Fala-se muito do Galatasaray, onde jogar é uma tortura pelo barulho e pelo calor das arquibancadas.
    O mesmo se aplica ao River Plate, ao Estrela Vermelha de Belgrado, aos estádios britânicos onde as arquibancadas quase tocam o gramado – Celtic, Rangers, Leeds ou Liverpool – ou aos pequenos estádios espanhóis como o Rayo Vallecano e o Leganés, que transformam o seu espaço numa fortaleza.


    Altitude: risco físico ou vantagem legítima?

    A altitude castiga o corpo: a falta de oxigênio acelera o coração, causa tonturas, náuseas e dores de cabeça. Os músculos se cansam mais rápido e o raciocínio fica mais lento.
    Mas chamar isso de “risco de vida” é exagerado. Estudos e médicos do esporte mostram que não há perigo real para jogadores saudáveis, desde que haja controle médico e hidratação. É desconfortável, sim, e o rendimento cai, mas o risco grave é raríssimo – mais associado a altitudes extremas ou a atletas com problemas cardíacos.

    O futebol não é um tubo de ensaio

    O meu ponto é simples: é impossível proibir aquilo que faz parte da tradição e da cultura dos clubes. O futebol não é apenas o jogo – é a defesa da tua terra, da tua gente e da tua identidade.
    Tirar um time da sua casa só porque a cidade está acima dos 2.500 metros seria uma afronta à própria alma do esporte. A FIFA tentou fazê-lo em 2007, proibindo jogos internacionais em altitude. Voltou atrás um ano depois. E fez muito bem.

    O futebol não é laboratório. É emoção, contexto e adaptação. Não há nada de errado em um clube tirar proveito do seu território – desde que haja condições médicas e logísticas básicas para os visitantes.
    De resto, o desafio é o mesmo para todos: sobreviver aos 90 minutos, seja em Quito, em La Paz, no Maracanã ou no Dragão.

    O jogo acaba sempre nos 90 minutos, seja onde for

    O que separa os grandes dos comuns é a capacidade de se adaptar.
    Porque o futebol não se joga só com os pés – joga-se com a cabeça, com os pulmões, com o coração – e, às vezes, com menos ar do que gostaríamos.

  • Cristiano Ronaldo ganhar a Copa do Mundo seria poético

    Cristiano Ronaldo ganhar a Copa do Mundo seria poético

    Eu sei que ainda falta e eu sei que os fãs do Messi já vêm comentar que o argentino já ganhou. Mas a questão não é só para os leitores do Portal Camisa12, mas para os fãs de futebol: não seria poético Cristiano Ronaldo ganhar a Copa do Mundo 2026?

    Tenho vários argumentos para convencer os mais céticos. O primeiro é que, muito provavelmente, será o último Mundial de Cristiano Ronaldo. Vai ter 41 anos, mas também não me surpreendia se aos 45 anos ainda quisesse jogar o Mundial 2030, visto que é co-organizado por Portugal.

    A idade pesa, o último grande torneio, 20 anos depois daquela edição na Alemanha que Portugal chegou às semifinais… era “giro”!

    Depois, eu sei que os adeptos, inclusive eu, acreditam que CR7 apenas está à espera de chegar ao gol 1000 para terminar a carreira. Faltam 54… não seria impossível atingir a marca na Copa do Mundo 2026. E não me façam sonhar com o gol 1000 sendo na final que eu fico já eufórico!

    O último argumento que eu quero utilizar baseia-se na rivalidade com Messi. Eu sei que cada um tem os seus preferidos, mas com ambos a chegarem ao fim de carreira não parece que cada um de nós está mais a ignorar essa discussão e mais a aproveitar os últimos momentos?

    Desse ponto de vista mais amigável e menos rival, para o futebol ser justo e bonito para todos, Cristiano Ronaldo também devia ganhar uma Copa do Mundo.

    Os dois maiores jogadores de sempre, lado a lado a nível de troféus e sucesso. A discussão de quem é melhor passa para segundo plano, ambos atingem o melhor que o desporto tem para oferecer e nós, meros mortais adeptos, só podemos apreciar.

    Eu achava bonito e… poético!

    Claro que além do mais eu sou português e ver a minha seleção a ganhar uma Copa do Mundo era indescritível. Muito mais com o capitão Cristiano Ronaldo, o meu preferido de sempre, a levantar a taça. Mal posso esperar por 2026!

  • Entre dribles e cliques: O que Neymar nos ensinou sobre a nova Era do Futebol

    Entre dribles e cliques: O que Neymar nos ensinou sobre a nova Era do Futebol

    Gostando de futebol ou não, é quase impossível encontrar um brasileiro que não conheça minimamente este nome e o que está relacionado a ele. Neymar Jr., fez sua estreia no futebol profissional aos dezessete anos no seu atual clube, o Santos (para onde retornou recentemente em 2025). Lá, o garoto teve um papel importante na conquista do Campeonato Paulista e da tão sonhada Libertadores após 48 anos de jejum.

    Depois de cinco temporadas e números mais que convincentes, a jovem estrela santista ruma à Europa, para se juntar a grandes nomes no Barcelona. Era formado o MSN – que se referia ao invejável trio de ataque formado por Messi, Suaréz e Neymar.

    O que se viu naquelas primeiras temporadas foi algo extraordinário. Afinal, aquele menino realmente era tudo aquilo que diziam ser. O reconhecimento e a fama, como todos sabemos, também cresceram exponencialmente à medida que a sua carreira ia deslanchando. Ídolo de um dos maiores clubes do mundo, ídolo inegável da Seleção Brasileira, onde já tinha conseguido segurar o seu posto como o camisa 10. Nós, brasileiros, rapidamente abraçamos esse talento.

    Estávamos ansiosos para ter uma nova estrela à altura de Pelé, Romário, Ronaldo, Kaká… E acho que Neymar tinha, com certeza, o que era preciso: fazia dribles com facilidade, gols belíssimos (tendo um deles lhe concedido um prêmio Puskas), tinha muita habilidade com a bola nos pés e muito carisma. Como essa combinação perfeita não daria certo? O meu pensamento era apenas um: com um pouco mais de experiência e maturidade, esse garoto vai ser, com certeza, coroado como o melhor do mundo; só basta esperar.

    Doze anos depois, aos 33 anos, Neymar Jr. ganhou apenas uma vez a Champions League (na temporada 14/15), mas não conseguiu ganhar um Campeonato do Mundo com a Seleção Brasileira, e também nunca ganhou o Ballon D’Or. Até hoje, detém o título de transferência mais cara da história do futebol (222 milhões de euros), referente à sua saída do Barcelona para o Paris Saint Germain em 2017.

    Neymar em campo pela Seleção Brasileira. Crédito: Getty Images

    Não me levem a mal, acho que muitos de nós concordamos que o “menino Ney” tem uma história e carreira incríveis; os números falam por si só. Contudo, aquele fantasma do “poderia ter sido mais” parece que sempre o acompanhará; e para a maioria é difícil não sentir esse gosto agridoce quando acompanhamos a carreira dele tão de perto. E acho que é sobre isso que precisamos falar.

    É inegável que Neymar tenha lidado com muita pressão ligada à sua fama. O primeiro grande ídolo da geração Z, tivemos a chance de acompanhá-lo quase que instantaneamente por meio de tantas redes sociais. Mas aquilo que serviu, em grande parte, como um impulsionador da sua carreira, muitas vezes foi também seu maior inimigo.

    Envolvido constantemente em escândalos midiáticos, onde cada vez mais parecia que sua prioridade era ser uma personalidade famosa ao invés de um inesquecível jogador de futebol, Neymar foi fortalecendo a imagem de estrela e, talvez descuidadamente, afastando-se da de atleta. Lesões e suspensões que foram enfraquecendo a sua posição de ídolo, alimentada por uma mídia que muitas vezes optou pela crueldade ao invés da empatia.

    Não consigo evitar de pensar, que, acima de tudo, Neymar é o nome de maior expressão dessa nova geração que enfrentou todas essas mudanças do futebol atual. Agora, não é mais apenas sobre ser um bom jogador, sobre marcar gols ou ganhar títulos. O mercado do futebol explora a imagem desses atletas de muitas outras formas. Na Era Digital em que vivemos, ser influenciador faz definitivamente parte do pacote de ser “famoso” neste meio.

    Ao meu ver, menino Ney teve tudo para ser o melhor do mundo; um talento como o seu não foi visto em nenhum jogador brasileiro que despontou nos últimos anos, e provavelmente nunca mais teremos um ícone como ele. O acontecimento da sua trajetória no esporte mais amado do mundo, coincidiu com a expansão das redes sociais e com os novos mercados ligados ao futebol. Foi tudo ao mesmo tempo.

    Lá no fundo, creio que Neymar tenha sido um pouco vítima da sua própria grandiosidade. E, como disse anteriormente, acho que criamos expectativas talvez altas demais, num tempo em que o futebol não é apenas sobre ganhar títulos ou bater recordes. Os atletas de hoje precisam constantemente dividir o seu protagonismo com todas as narrativas criadas fora de campo, e em tempo real.

    Injustamente, muitas pessoas insistiram em medir o seu sucesso apenas pelo número de troféus que ele não levantou ou títulos que ele não levou para casa. Deixando de lado a importância que ele teve no modo em que vivemos e sentimos o futebol atualmente.

    No fim, a história de Neymar continua sendo escrita, e penso sempre em tudo que ele representou até aqui: o garoto super talentoso que foi o símbolo de uma geração, e também o homem que, depois de muitas falhas e tropeços, conseguiu sempre recomeçar. Acredito que o tempo o fará justiça, e ele não será colocado mais como aquele que poderia ter sido, mas como o que foi um dos maiores e mais memoráveis personagens que o futebol brasileiro teve a sorte de ter.