Categoria: Opinião

  • Os Ronaldos: A lenda dos nomes começados por R 

    Os Ronaldos: A lenda dos nomes começados por R 

    Cresci achando que devia dar ao meu filho um nome começado por “R”. Há qualquer coisa nessa letra que mexe com os deuses do futebol. A quantidade de mágicos com esse início é absurda – Romário, Rivaldo, Roberto, Rivelino, Robinho… e, claro, o maior de todos esses nomes – Ronaldo.

    E é aqui que começa a discussão. Há três Ronaldos fora de série.
    O “verdadeiro”, como Mourinho o chamou – Ronaldo Fenômeno.
    O Bruxo, o que me fez apaixonar pelo futebol – Ronaldinho Gaúcho.
    E o nosso “pai”, como dizemos em Portugal – Cristiano Ronaldo.

    A pergunta é inevitável – quem é (foi) o melhor Ronaldo?
    Cada um tem o seu argumento, a sua mística, o seu momento. Todos cabem em qualquer top 10 de melhores de todos os tempos. Mas o futebol é emoção, e é aí que cada um nos toca de forma diferente.

    Ronaldinho – O Bruxo  

    Ronaldinho era pura alegria. Jogava com um sorriso que parecia dizer: “relaxa, o espetáculo é meu”.
    De manga comprida, cabelo solto e ginga natural, dançava entre os adversários como se o gramado fosse o seu palco.
    Fez coisas que nunca mais vi. A sua estética, o carisma e a irreverência o tornaram, com o passar do tempo, quase mítico.

    Mas há um “porém” – a sua carreira ao mais alto nível foi curta. Uns 6 ou 8 anos de magia pura, seguidos de uma descida de intensidade.
    Talvez por falta de disciplina fora de campo, talvez porque o futebol moderno se tornou demasiado tático e maquinal para tanta liberdade criativa.
    Mas uma coisa é certa – ninguém jogou com tanta beleza. Guardiola disse uma vez: “as pessoas não se lembrarão do que ganhamos, mas sim de como jogávamos”. Ronaldinho é isso – a memória da arte.

    Ronaldo Fenômeno – O Monstro  

    Campeão do mundo aos 17 anos. Uma locomotiva com técnica de bailarino. Ronaldo Fenômeno era a mistura impossível entre força bruta e leveza divina. Fez defesas parecerem crianças, e atacantes sonharem ser ele.

    Nunca ganhou uma Champions – ironia cruel – mas venceu o respeito eterno de quem o viu. As lesões e os excessos fora de campo o impediram de voar ainda mais alto, mas mesmo assim, foi gigante. Mesmo “sem joelho”, mesmo com uns quilos a mais, ainda partia tudo.
    Era futebol em estado puro, antes das máquinas e dos algoritmos.

    Cristiano Ronaldo – O Imortal  

    E depois há o nosso Cristiano.
    Curioso – o nome veio de Ronald Reagan, não de um jogador. Ironia do destino – acabou por ser ele o Ronaldo por excelência.

    Cristiano é o oposto dos outros dois.
    Menos talento natural, talvez, mas um monstro de trabalho, foco e consistência.
    Dos três, é o mais completo no sentido moderno da palavra – adaptou-se, reinventou-se e dominou o jogo durante quase duas décadas.  De extremo desequilibrador no United a matador clínico no Real Madrid, construiu uma carreira que parece impossível de repetir.

    Dividiu o mundo com Messi, e dessa rivalidade nasceu a era mais brilhante que o futebol já viu.  Durante anos, não havia domingo sem discussão – “Quem é melhor?”
    Mas, no fundo, todos sabíamos a sorte que era viver no tempo dos dois.

    Cristiano é mais do que um jogador – é um símbolo global.
    Provavelmente a pessoa mais conhecida do planeta – da aldeia mais remota do Uzbequistão às ruas de Nova Iorque, todos sabem quem é Ronaldo.
    E mesmo quem o critica, respeita-o. Porque a grandeza se impõe.

    Então, quem é o melhor Ronaldo?  

    Para mim, Cristiano vence.
    Não por ser o mais talentoso – mas porque foi o mais constante, o mais determinado, o mais duradouro. O homem que fez da excelência um hábito.

    Mas, no fim, cada Ronaldo representa uma era e um sentimento.
    Ronaldinho é a arte.
    O Fenómeno é o instinto.
    Cristiano é a perfeição.

    Três homens, uma letra, e uma certeza – no futebol, o “R” é a inicial dos deuses.

    Posto isto, vou dar ao meu filho um nome com a inicial R…
    ou talvez não – depende do que a mãe quiser.

  • Flaco López e Vitor Roque: será que estamos diante de uma nova dupla pra história do verdão?  

    Flaco López e Vitor Roque: será que estamos diante de uma nova dupla pra história do verdão?  

    Ser palmeirense é estar cercado de memórias que nos acompanham a vida inteira, um clube com 111 anos carrega muito tempo de campo e muitas histórias que a torcida não esquece.

    Quando a gente vê dois atacantes bem entrosados dentro de campo, a primeira reação que o torcedor alvi verde tem é: “Será que vem aí uma nova dupla pra nossa história?”. Nas arquibancadas do Allianz Parque, essa pergunta começa a ganhar força com Flaco López e Vitor Roque.

    O argentino recém convocado pra disputar as Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, carinhosamente apelidado por Veiga de “Messi”, é um cara de área clássico, daqueles que carregam a fome de gol e a disposição para brigar pela bola. Já o tigrinho representa a nova geração: veloz, agressivo na pressão, com qualidade para cair pelos lados e arrancar em direção ao gol. Dois perfis diferentes, mas que parecem se complementar.

    E aí não tem como não comparar com grandes duplas de craques que já vimos no passado.

    A memória de Evair e Edmundo  

    Para nós, torcedores, a década de 90 ainda é uma espécie de marca registrada, uma Academia inesquecível com grande carinho pelo torcedor que viveu e também por aqueles que só ouviram as histórias passada as gerações seguintes. Aquele Palmeiras comandado pela Parmalat trouxe craques que transformaram o clube uma gigantesca potência. Entre tantos nomes, uma dupla ficou marcada: Evair e Edmundo.

    Evair era um homem frio, calculista, referência na área, especialista em pênaltis e dono de uma finalização precisa. Edmundo, por outro lado, era o caos em forma de talento: veloz, driblador, imprevisível. Juntos, formaram um contraste perfeito: técnica e explosão bruta, cálculo e intensidade.

    Ao olhar para Flaco e Vitor Roque, a comparação começa a surgir e pelo que ambos tem demonstrado nas entrevistas pós jogos, ficam felizes em jogarem juntos. Flaco podemos comparar com o Evair: não é o atacante mais elegante em campo, mas sabe se posicionar como poucos. E Vitor Roque, embora mais jovem e ainda em processo de amadurecimento não só de idade mas também dentro do elenco, carrega essa chama de Edmundo, aquele instinto quase instantâneo de partir para cima, de querer resolver o jogo.

    O que já temos e o que ainda falta  

    Claro que é cedo para dizer que Flaco e Roque vão se tornar uma dupla lendária ,afinal o Abel é um técnico com várias formações de elenco e de jogo. Mas não podemos negar que os sinais são promissores. Em campo, os dois já mostraram movimentos que se completam: quando Flaco atrai a marcação, Roque aparece para atacar o espaço. Quando Roque se desgasta pressionando a saída de bola, Flaco está ali para segurar a posição e dar opção ao elenco.

    O torcedor, acostumado a ver o Palmeiras se reinventar a cada ciclo, percebe quando algo diferente começa a nascer. E esse “diferente” está ai, nas jogadas em que os dois parecem falar a mesma língua sem nem trocar uma palavra.

    O que falta? Talvez um pouco mais de tempo. A história de Evair e Edmundo não foi construída em alguns meses, mas em anos de parceria, títulos e jogos decisivos. Para Flaco e Roque, a caminhada está só no início. Mas não é exagero dizer que temos ai uma boa dupla para para sonhar.

    O peso de vestir a camisa do Palmeiras  

    Jogar no Palmeiras não é como jogar em qualquer clube. A cobrança é diária, a comparação com o passado é inevitável. Quando um atacante novo chega, logo ouve falar de César Maluco, Evair, Ademir da Guia, Luizão, Vagner Love, Edmundo Animal, Paulo Nunes, entre tantos outros. A camisa pesa porque ela carrega grandes histórias.

    Mas se tem algo que essa torcida sabe reconhecer, é quando o jogador entrega em campo. Flaco conquistou o coração alviverde não só pelos gols, mas pela raça, pelo jeito de nunca desistir de uma bola, e acaba de renovar mais uma temporada com o Verdão. Roque , chegou devagar, com respeito pela camisa e pela torcida e agora entra numa melhor fase, se continuar mostrando coragem, vai continuar ganhando seu espaço.

    E, quem sabe, daqui a alguns anos quando eu estiver falando para próxima geração da minha família sobre as grandes duplas que tanto nos deram orgulho, eu não fale apenas de Evair e Edmundo. Talvez eu possa dizer: “Vi Flaco e Vitor Roque jogarem juntos. E que dupla era aquela!”.E se a história repetir, que seja agora, no Allianz lotado, com a nossa camisa verde. Porque no fim das contas, não é só sobre gols. É sobre pertencimento, sobre se sentir parte de uma história que nunca para de ser escrita.

  • Palmeiras x Flamengo: de “times distantes” à rivalidade da década  

    Palmeiras x Flamengo: de “times distantes” à rivalidade da década  

    O Palmeirense carrega nas costas mais de um século de rivalidades clássicas e históricas. Corinthians, São Paulo, Santos… esses são os confrontos que nasceram no sangue, na arquibancada, no barulho das ruas de São Paulo. Agora Flamengo? Até pouco tempo atrás, não passava de mais um adversário de respeito, com grande adesão popular, mas distante, quase neutro.

    Só que o futebol brasileiro mudou muito nos últimos tempos. O calendário expandiu, o dinheiro entrou pesado com os novos tipos de patrocínio, e a liderança ficou restrita a poucos clubes capazes de sustentar elencos milionários e estrutura avançada.

    E aí, no meio dessa virada, o Flamengo e o Palmeiras começaram a se encontrar repetidamente em finais, decisões e disputas diretas de título.

    De repente, o clube carioca que nunca foi rival histórico ou de torcida, passou a dividir com a gente o protagonismo.
    De 2015 pra cá, quantas vezes Palmeiras e Flamengo se cruzaram em jogos que valiam taça ou mudavam o rumo da temporada? Libertadores, Supercopa, Copa do Brasil, Brasileirão. Viramos adversários de mesa de bar, de programa esportivo e de arquibancada.

    O choque de estilos e as falas da Leila   Pereira

    E não é só em campo que essa rivalidade tomou forma, mas também fora dele, e tem ficado cada vez mais evidente. A presidente Leila Pereira por exemplo, tem repetido que admira a estrutura do Flamengo, mas não deixa quieto quando fala em gestão responsável, insinuando que nem todo modelo de gastos é sustentável no longo prazo.

    Recentemente, ela deu aquela cutucada bem estilo da presidente do Verdão, ao dizer que: “o Palmeiras não vai se endividar para comprar craques a qualquer custo”, deixando clara a critica ao rival rubro-negro, que adota uma postura mais agressiva no mercado da bola.

    Essas declarações acendem ainda mais a rivalidade entre os clubes. De um lado, a torcida alvi verde se orgulha da solidez financeira e da sequência de títulos da última década. Do outro, a nação rubro-negra responde com seus números massivos de torcida, de arrecadação e de estrelas contratadas.

    Rivalidade moderna

    Eu acho engraçado que Palmeiras e Flamengo nunca tiveram no passado o peso de uma rivalidade direta, como Corinthians x Palmeiras ou Fla x Flu, inclusive não me lembro de alguma vez ouvir meu pai ou meus irmãos falarem de um jogo memorável entre Palmeiras e Flamengo durante as suas incontáveis histórias de jogos e arquibancada.

    Mas o futebol vive de cenário, e hoje a realidade é que os dois são os grandes clubes do Brasil no século XXI. A cada temporada, o torcedor já entra esperando o confronto decisivo entre esses dois.

    Inclusive, em muitas entrevistas que vejo do elenco eles sempre falam como jogar contra o Flamengo ou até mesmo o Botafogo, se tornou um jogo mais difícil nos últimos anos.

    De certa forma, dá até gosto de ver. Se antes éramos reféns de olhar só para os clássicos regionais, agora temos uma rivalidade nacional. É o choque dos times hoje considerados elite: a consistência palmeirense contra a ousadia flamenguista. E cada temporada, cada título que esses clubes ganham só aumenta mais e mais essa rivalidade.

    E nós, palmeirenses?  

    Do lado de cá, a gente sabe que rivalidade mesmo é contra o Corinthians, isso nunca vai mudar, e também não podemos negar que a rivalidade regional ainda tem um maior peso pras torcidas, porque é nessa resenha de arquibancada que vem as grandes piadinhas contra o rival, e um estilo mais engraçado de torcer. Mas negar que o Flamengo virou nossa “comparação” de grandeza nos últimos anos seria não olhar pra realidade atual. Quando vencemos, o gosto é especial. Quando perdemos, a cobrança chega forte.

    Talvez no futuro quando eu estiver contanto as minhas história de arquibancada eu possa falar de um “Palmeiras x Flamengo” como a grande rivalidade do futebol brasileiro dessa decáda atual. Uma rivalidade que nasceu não de vizinhança ou bairrismo, mas da grandeza e investimento.E no fundo, isso só mostra o tamanho do Verdão: não importa o tempo, não importa o adversário, não importa a década, sempre haverá alguém que nos mostre o quanto somos e sempre seremos um dos maiores times brasileiros.

  • Richard Ríos vs Froholt: quem riu por último?  

    Richard Ríos vs Froholt: quem riu por último?  

    No verão falou-se muito de Richard Ríos. O médio colombiano brilhou no Palmeiras, até no Mundial de Clubes, e não faltaram clubes interessados. No meio da confusão, saiu o rumor: Benfica e Porto na corrida. O final da novela foi simples: o Benfica pagou 30 milhões por Ríos, o Porto levou Froholt por 20M.

    À primeira vista parecia jackpot para os encarnados. Hoje já não é bem assim.

    Ríos: talento sim, mas fora de lugar  

    Richard Ríos não engana: é agressivo, intenso, sabe transportar jogo à bruta, arrancar da defesa para o ataque. Mas não é um 8 que dita ritmos, não é um tecnicista para desmontar defesas fechadas, nem um criador de último passe. É um jogador de transições.

    E aqui está o problema: o Benfica não vive de transições. Contra 90% das equipas da Liga, vai ter a bola o tempo todo. Ríos brilha quando há espaço para correr, não quando tem de gerir posse. Resultado? Em Portugal vai parecer perdido. Ironia das ironias: é mais provável que se destaque contra um Real Madrid do que contra um Casa Pia.

    Nos primeiros jogos já deu para ver que vinha com tiques de Libertadores: muito ímpeto, pouco timing. Na Europa, se entras a querer fazer tudo, acabas por não fazer nada. Some-se a instabilidade do Benfica, eleições a ferver, Mourinho a entrar em modo bombeiro e a receita está pronta: Ríos na pole position para “flop do ano”.

    Froholt: a peça certa no puzzle certo  

    Do outro lado, o Porto optou por Froholt. Um tanque dinamarquês de 19 anos com intensidade fora do comum. Não é só físico: tem critério, sabe quando soltar, quando carregar, lê bem o jogo. Não deslumbra com técnica, mas impressiona com inteligência. E em poucos jogos já parecia que o meio-campo do Porto era dele.

    E atenção: o boom nórdico não é moda. Hjulmand, Gyökeres, Isak, Bardghji, Bobb, Ødegaard, Haaland. A lista fala por si. Froholt tem tudo para seguir esse caminho.

    Gestão: a diferença está na estrutura, não no relvado  

    A comparação entre Ríos e Froholt mostra bem mais do que estilos de jogo. Mostra estratégias. O Porto, com Villas-Boas, sabe para onde vai. O Sporting, com Varandas, vem de alguns dos melhores anos da sua história. O Benfica? Continua a gastar milhões sem perceber contexto.

    E depois há o mercado sul-americano. Os brasileiros já não vendem barato. Seguram craques, inflacionam, vendem diretamente para Inglaterra, Espanha, Itália. Resultado: Portugal perde a sua função de ponte. Jogadores que antes passavam por cá para ganhar experiência (Falcao, James, Militão, Luis Díaz, Ramires, Di María, Casemiro, Raphinha…) agora saltam logo para as Big 5. O problema é deles? Não. O problema é nosso, que ficamos de fora.

    O contra-exemplo: William Gomes  

    E é aqui que entra o caso William Gomes. O miúdo brasileiro chegou ao Porto ainda sem o preço inflacionado, ganhou minutos, adaptou-se ao futebol europeu e tem tudo para rebentar em breve. É o exemplo perfeito de como Portugal pode continuar a ser a tal ponte, se souber chegar primeiro.

    Porque uma coisa é gastar 30M num jogador já feito, mas fora de contexto. Outra bem diferente é investir cedo, moldar o talento e depois vender por 80M. William Gomes pode ser o próximo dessa lista, a seguir a nomes como Luis Díaz ou Militão.

    Moral da história  

    Ríos é bom jogador, mas não encaixa. Froholt encaixa que nem uma luva.
    Um custou 30M, o outro 20M.
    Um pode virar dor de cabeça, o outro já é solução.
    No futebol, como na vida, não basta comprar talento. É preciso comprar contexto.

  • A Bola de Ouro e um futebol diferente

    A Bola de Ouro e um futebol diferente

    Não quero ser aquela pessoa que vive presa à nostalgia e não consegue apreciar a beleza do que é atual. Acho mesmo que o efeito nostálgico condiciona a nossa perceção do presente, em tudo na vida, não sendo o futebol uma exceção. Mas a Bola de Ouro está cada vez mais aborrecida.

    Quando era jovem, parecia que havia mais expectativa para ver quem ganhava o prêmio e havia mais credibilidade: as escolhas faziam sentido e eram praticamente unânimes ou, pelo menos, não chocavam ninguém.

    Cresci com Ronaldinho, Kaká e toda a era Messi/Ronaldo. Esta última, embora alguns anos dividissem se opiniões, era perfeitamente aceitável que fosse um ou outro a vencer. Ok, em 2021 foi muito discutível o prêmio dado ao argentino e em 2023… pronto, venceu o Mundial, mas mesmo assim… Além disso, em 2018 o único vencedor possível tinha o nome de Cristiano Ronaldo. Modric é craque, mas não há bem justificação. 

    Enfim, eu não tenho mais paciência para a FIFA, UEFA e a descredibilização da Bola de Ouro para mim aconteceu em 2018. Percebe-se de quem sou fã, certo? Adiante.

    Mas eu vejo os últimos dois vencedores, Rodri e Dembelé e, embora não queira tirar mérito aos jogadores, que são craques… não são excepcionais. E eu entendo os motivos de atribuição do prêmio, mas, sei lá… que aborrecido!

    Eu peço o seguinte exercício ao leitor: compraria bilhete para ir ao estádio ver o Rodri a pautar o meio campo ou o Dembelé a rasgar defesas? Hmmm eu não! Nem vou questionar sobre Messi ou Cristiano Ronaldo, era óbvia demais a resposta. Mas e para Kaká? Ronaldinho? R9? Figo? Zidane? Van Basten? Peço desculpa, afinal a resposta também é óbvia.

    Os critérios de atribuição da Bola de Ouro, a meu ver, são cada vez mais influenciados por terceiros, organizações multi-milionárias, ou pressões mediáticas. E sim, este ano ninguém me engana que o presidente do PSG não “obrigou” a que o prêmio fosse para um jogador francês. Nem vou entrar na discussão do porquê do vencedor claro ter de ser Vitinha (Olá, Liga das Nações) ou o escândalo que é Nuno Mendes (Olá, Liga das Nações) ter ficado em 10º lugar. Não me posso alongar, perco o controle, é um tema sensível desde 2018.

    Além de que parece que os jogadores atuais, aqueles que mais brilham, passam semanas nas bocas do povo, não ganham nada. Isto naturalmente torna o prêmio mais aborrecido. Os jogadores também estão mais aborrecidos, para mim, mas com o calendário atual, em que tudo serve para vender, vender e vender, como podem eles brilhar como antigamente?

    Está bem, eu sei que recebem milhões, mas o corpo não é uma máquina. 

    Talvez isto seja tudo um desabafo de quem cresceu na era Messi/Ronaldo e, depois disso, nada tem o mesmo sabor. Talvez o prêmio esteja menos credível. Talvez o futebol esteja mais aborrecido. Talvez eu não perceba nada disto. 

    A última opção é a correta, mas deixo a avaliação para o leitor.

  • O Efeito Mourinho… ou não  

    O Efeito Mourinho… ou não  

    Em Portugal não se fala de outra coisa: José Mourinho voltou. Vinte e cinco anos depois, o maior treinador português regressa ao Benfica e, de repente, parece que o país parou.

    A cena foi digna de Hollywood: câmaras a seguir o carro de Mourinho, transmissão ao vivo madrugada dentro à porta da sua casa… tudo por um treinador que, na verdade, já não é o “Special One” de outros tempos. E enquanto isso, um dérbi histórico como Vitória SC x Braga passou completamente ao lado. Isto diz muito sobre como o nosso futebol continua refém da bolha dos três grandes.

    O curioso é que Mourinho estava no Fenerbahçe e foi eliminado da Champions… pelo Benfica. Dias depois, assume o comando da mesma equipa. Para apimentar ainda mais, uma semana antes esteve no Estádio do Dragão, homenageado como lenda do FC Porto  onde ganhou a Champions e conquistou tudo. O estádio levantou-se para o aplaudir… e, logo depois, vêem-no assinar pelo maior rival. Para os portistas, foi como ver um ídolo rasgar memórias.

    No Benfica, a história se repete. Em 2000, Mourinho tinha assumido o clube, mas acabou despedido porque o presidente que apostou nele perdeu as eleições. Agora, em 2025, a história volta a soar a déjà-vu: Rui Costa, pressionado e sem títulos relevantes, voltou a jogar a carta Mourinho como trunfo eleitoral. Contratou-o como treinador-milagreiro, mas o futebol não funciona assim.

    O impacto inicial foi típico: vitória 3-0, euforia nas arquibancadas, ambiente de festa e esperança renovada. Mas logo no segundo jogo, o empate frente ao Rio Ave foi um verdadeiro banho de água fria. Em Portugal, deslizes assim custam títulos. E Mourinho sabe disso melhor do que ninguém.

    Agora, deixem-me ser claro: o problema do Benfica não é Mourinho. Também não era Bruno Lage, conhecido dos botafoguenses, que até tinha algumas ideias, mas nunca conseguiu segurar a pressão e, sinceramente, nunca teve as qualidades necessárias para treinar um colosso português. O problema é estrutural. E é aí que está o verdadeiro fracasso.

    Nos últimos anos, os dirigentes do Benfica têm estado muito aquém da dimensão do clube. A gestão é errática, sem rumo claro. Um clube que investe 30 milhões de euros em Richard Ríos, ex-Palmeiras, sem que ele tenha o perfil que a equipa precisava, que vende talentos como João Neves demasiado cedo e que não consegue criar uma estratégia de comunicação moderna e digna de um gigante europeu… não pode culpar apenas os treinadores.

    Enquanto isso, o Sporting vem trabalhando bem a sua imagem, e o Porto, com Villas-Boas na presidência, começou finalmente a se tornar uma referência na forma como comunica e se apresenta ao mundo. E o Benfica? Continua preso a velhas fórmulas que já não funcionam.

    Mourinho até pode trazer impacto imediato, mas não há “efeito Mourinho” que dure se quem manda continuar a falhar. Nos próximos jogos, recebe o Gil Vicente, mas logo depois terá três pedreiras: Chelsea, FC Porto e Newcastle. Esses duelos podem muito bem ditar o futuro da presidência do Benfica… e talvez até o do próprio Mourinho.E há aqui uma semelhança histórica que não me sai da cabeça: Artur Jorge, o outro treinador português que venceu a Champions pelo FC Porto, também acabou por trocar o Dragão pela Luz. O resultado? Foi um flop, não ganhou nada e deixou mágoa entre os portistas. A minha previsão é simples: com Mourinho vai acontecer o mesmo. Prefiro guardar a memória do “rockstar” que foi no Porto, no Chelsea e no Inter. O outrora Special One dificilmente terá sucesso neste regresso a Lisboa.

  • Paulo Nunes e Felipão: Máscaras, comemorações e memórias

    Paulo Nunes e Felipão: Máscaras, comemorações e memórias

    O palmeirense sempre se lembrará com carinho de dois nomes que marcaram a década de 90: Paulo Nunes e Luiz Felipe Scolari. Um, dentro de campo, transformava cada gol em ousadia. O outro, fora dele, conduzia brilhantemente o time como “paizão”. Juntos, ajudaram a escrever páginas inesquecíveis da nossa história alviverde.

    Lembro que, naquela época, eu já andava pela casa com uma camisa muito maior que eu, estampada com o número 7. Enquanto isso, meu pai gritava o clássico “Dá-lhe porco, dá-lhe dá-lhe porco!”, e pulávamos juntos celebrando cada gol, cada vitória, cada título de um Palmeiras campeão. Era mais que futebol: era minha família, era paixão, passada de geração em geração. E no centro de tudo estava ele, o “Diabo Loiro”, que transformava a rede balançando em um show que levava o torcedor a loucura.

    Paulo Nunes não se contentava apenas em marcar (e o cara marcava hein). Ele dançava, provocava, usava máscaras, arrancava risadas e aplausos. A cada rodada, a torcida esperava ansiosamente: qual seria a comemoração da vez? Vezes surgia com a máscara de porco, outras encarnava personagens da época como: a Tiazinha, a Feiticeira ou até o misterioso Mr. M. Era irreverência pura, que fazia a galera delirar e os rivais tremerem de “raiva”.

    Mas nada se compara ao momento histórico de 1999. Contra a Portuguesa, Paulo Nunes puxou do calção a máscara de porco e correu para a torcida, revertendo uma provocação de 1993, quando Viola havia imitado um porco para zombar do Palmeiras. Naquele instante, o que era insulto do rival, virou orgulho. O porco, nosso mascote, ganhou mais vida e significado definitivo. Foi a consagração de um símbolo que hoje carregamos com orgulho.

    E por trás de toda essa ousadia havia o cara: Felipão. Ao contrário do que muitos pensavam, o técnico não apenas permitia as brincadeiras, como incentivava. Paulo Nunes já revelou que Felipão até cobrava as máscaras: “Não, tchê, bota! Tá dando certo, a bola tá entrando, o time tá ganhando”. Para ele, aquilo era parte do que unia o elenco e a torcida. Mais que superstição, era marca registrada de um Palmeiras campeão. Essa parceria entre craque e treinador nos deu muito mais que títulos. Deu cores, risos e uma marca única. Mostrou que futebol também é alegria, provocação saudável, espetáculo. Hoje, olhando para trás, não tem como não sentir saudades. Faz falta um Paulo Nunes em campo, alguém capaz de transformar cada gol em festa, cada máscara em símbolo e cada comemoração em memória eterna do nosso Verdão.

  • Os loucos dois anos de João Félix

    Os loucos dois anos de João Félix

    O fecho do mercado de transferências levou-me a recordar algumas movimentações desta janela de verão europeia e há um nome que não me sai da cabeça: João Félix. Sempre gostei do miúdo, devo ser dos poucos crentes que achava até há um
    mês que ainda ia cumprir todo o potencial que lhe foi atribuído em 2019, quando conquistou o Golden Boy. Por isso, e sobretudo enquanto português, fiquei triste quando o vi a ir para a Arábia Saudita, como fiquei com todos os portugueses que para lá foram… enfim, o dinheiro!

    Mas o caso de João Félix, daqueles que parecem quase enigmáticos no futebol, fez-me revisitar a carreira dele e apercebi-me que os últimos dois anos foram de loucos para o talentoso atacante.

    Vamos por partes para ser mais fácil, com um bocadinho de contexto. Em janeiro de 2023, após um período conturbado no Atlético Madrid, é emprestado ao Chelsea, sem sucesso. Segue-se novo empréstimo ao Barcelona no verão de 2023, com
    algum impacto, mas abaixo do esperado. Um ano depois, é transferido a título definitivo para o Chelsea. Se eu fosse o Carlo Ancelotti, franzia a sobrancelha, mas como não sou, estranhei apenas. O tempo provou-me certo e em janeiro de 2025 foi emprestado ao AC Milan, onde encontrou Sérgio Conceição. Pensei que com o treinador feroz, no bom sentido, que é Conceição, que fosse o casamento perfeito, mas o divórcio foi assinado no final da época.

    Bem, vamos respirar um pouco que isto foi muita informação. Imagine-se para um futebolista, não é?

    Ok, mais tranquilos? Prossigamos. João Félix depara-se no verão com uma situação complicada. Não, não estou a falar das férias, das saídas à noite, ou das discussões com pessoas aleatórias junto a discotecas. Mas sim do regresso ao Benfica. Parecia tudo encaminhado, finalmente voltar a casa! Será que ia relançar a carreira? Que espetáculo!

    Ups, não.

    Eis que, passados pouco mais de dois (!) anos desde o primeiro empréstimo ao Chelsea, João Félix atende a chamada de Cristiano Ronaldo e assina, a título definitivo, pelo Al Nassr.

    Que treta! Mas a reflexão deste fatídico artigo de opinião é a seguinte: como é que um jogador cuja carreira já estava instável iria reerguer-se com quatro passagens por três clubes diferentes, em três países distintos?

    O que vai na cabeça destes jogadores ou, pior, na de quem os aconselha? Ou então, o ideal mesmo é ir atrás do dinheiro. Sim, porque o Atlético Madrid já não pagava pouco a Félix… e certamente que o Chelsea ainda mais pagou!

    Pois bem, se este era o principal fator motivacional do avançado, agora está que nem o tio patinhas: a repousar numa cama com os milhões e milhões e milhões e milhões de euros que recebe na Arábia Saudita. Pessoalmente, parece-me que
    desistiu. Já não é aquele miúdo que se emocionou a vestir a camisola do Barcelona, ou que chorou após fazer um hat-trick pelo Benfica na Liga Europa.

    Desejo-lhe o melhor, porém, ainda tenho uma camisola do Atlético de Madrid com o seu nome.

  • Andreas Pereira: convocação que também é vitória do Palmeiras

    Andreas Pereira: convocação que também é vitória do Palmeiras

    Quando saiu a notícia da convocação de Andreas Pereira para a Seleção Brasileira, o coração palmeirense bateu mais forte. Senti uma mistura de orgulho, alívio e expectativa. Orgulho por ver um jogador do nosso elenco ganhar o reconhecimento merecido. Alívio por saber que sua chegada ao Verdão foi uma escolha acertada. Expectativa pelo futuro, porque essa convocação não é apenas uma vitória pessoal do atleta  é também uma vitória do Palmeiras.

    Andreas não é promessa. É um jogador experiente, calejado da Europa, com altos e baixos, mas sempre sob os holofotes. Veio do Fulham, acostumado à pressão e à visibilidade. Aqui, ganhou a camisa 8, número carregado de história: de Leivinha, que brilhou na Academia dos anos 70, ao mais recente Richard Ríos, que conquistou a torcida com raça e talento. Não é qualquer número. É símbolo de responsabilidade e tradição. E Andreas já deixou claro: o Palmeiras é vitrine para a Seleção.

    Essa convocação confirma o que a torcida já sabia: quando o Palmeiras decide contratar, raramente erra. Busca jogadores que unem talento, experiência e vontade de vestir o manto. Andreas quis vir, se identificou de imediato, disse ter sentido o carinho e a segurança que o clube ofereceu para ele e sua família. Isso faz diferença.

    E em tão pouco tempo, já está colhendo frutos. Sua convocação prova que o Verdão mantém seus jogadores em forma, dá visibilidade e disputa competições de peso. É o ciclo perfeito: desempenho, consistência e vitrine. E é por isso que as portas da Seleção se abrem.

    O que esperamos agora? Que Andreas siga convocado, para Eliminatórias, para Copa do Mundo, para o que vier. Que cada gol, assistência e liderança dele aqui ultrapasse além das nossas fronteiras. Porque, quando ele veste a amarelinha da Seleção, também carrega o verde do Palmeiras em cada jogada.

    Essa convocação valida a contratação, reforça a imagem do clube no cenário nacional e mostra que nossos jogadores têm espaço para brilhar em qualquer lugar. Para nós, torcedoras e torcedores do Verdão, é mais do que uma boa notícia: é motivo de orgulho.

  • Tubarão azul come camarões e está perto do Copa do Mundo

    Tubarão azul come camarões e está perto do Copa do Mundo

    Em 2006, três seleções de língua portuguesa estiveram na Copa da Alemanha: Portugal, Brasil e Angola. Vinte anos depois, podemos voltar a ter um trio lusófono na maior prova desportiva do planeta. Cabo Verde está a um passo de um feito histórico: a qualificação para a Copa de 2026.

    Se conseguir, os Tubarões Azuis  se tornarão o segundo menor país da história a disputar uma Copa. O recorde continua a pertencer à Islândia (2018), com cerca de 340 mil habitantes. Cabo Verde, com pouco mais de 600 mil, ficaria logo atrás.

    Talento natural, condições limitadas  

    A comparação com a Islândia é inevitável. Os islandeses chegaram à Copa graças a um investimento massivo em infraestruturas e formação: quase toda localização possui campos modernos e a maioria dos treinadores possui licenças UEFA.

    Cabo Verde, pelo contrário, vive com condições muito limitadas. A realidade do país é marcada pela emigração: o talento nasce nas ilhas, mas cedo parte em busca de melhores oportunidades, sobretudo para Portugal, pela ligação cultural e linguística. Resultado? A seleção cabo-verdiana depende fortemente da diáspora.

    Jogadores nascidos ou formados na Europa são a espinha dorsal da equipe. Muitos, como Nani, Gelson Martins, Eliseu, Rolando ou Manuel Fernandes, acabaram por escolher representar outras bandeiras. Mas o fato de existirem tantos nomes de topo com raízes cabo-verdianas prova a riqueza natural do talento do arquipélago.

    O caso insólito do LinkedIn  

    Um dos exemplos mais caricatos da diáspora é Roberto “Pico” Lopes, zangueiro do Shamrock Rovers, nascido em Dublin. A história parece anedota: quase perdeu a oportunidade de representar Cabo Verde porque ignorou uma mensagem em português do então técnico da seleção Rui Águas… no LinkedIn. Só respondeu quando recebeu nova mensagem em inglês.Hoje é peça-chave da defesa e já participou no CAN 2021 e 2023. O episódio mostra até que ponto a Federação tem sido criativa e determinada para não desperdiçar talento espalhado pelo mundo.

    Vitória histórica sobre os Camarões  

    A confirmação da maturidade desta geração chegou no último jogo: vitória por 1-0 sobre os Camarões, um dos gigantes do futebol africano. O gol de Dailon Livramento provocou uma explosão popular, com invasão de campo e festa pelas ruas de Santiago.

    Agora faltam apenas dois jogos – contra a Líbia, em Trípoli, e contra o Essuatíni, em casa – para concretizar o sonho. Três pontos separam Cabo Verde na Copa 2026.

    O peso do sonho  

    Para os cabo-verdianos, esta qualificação teria um valor incalculável. Se para portugueses e brasileiros estar numa Copa é uma espécie de obrigação, para Cabo Verde seria como levantar o troféu. Tenho amigos cabo-verdianos e sei bem a loucura e orgulho que atravessa a comunidade neste momento.

    Por isso, torço por eles. Claro que quero ver Portugal campeão, com os “irmãos chatos” do Brasil sempre a lutar pelo título. Mas confesso: se Cabo Verde marcar presença no Mundial 2026, vai ganhar mais um adepto apaixonado – eu.