O termo hooliganismo costuma aparecer toda vez que se fala de violência em estádios, mas pouca gente sabe de onde vem a palavra e por que ela se tornou sinônimo de briga entre torcedores.
No Portal Camisa12 a gente gosta de explicar a bola dentro e a bola fora de campo. Por isso, vamos passear pela origem do hooliganismo, relembrar os episódios mais trágicos da Europa, entender por que a cultura das torcidas inglesas virou filme e fazer um paralelo com a violência que vimos no futebol brasileiro.
Prepara o café e vem ler, porque violência não combina com futebol.
O que é hooliganismo?
O hooliganismo é o termo usado para definir comportamentos violentos e organizados ligados ao futebol.
Segundo o Oxford e pesquisadores de sociologia, a palavra pode ter origem no sobrenome Hoolihan, um personagem irlandês briguento citado em tirinhas de jornal, ou em Patrick Hoolihan, um ladrão irlandês famoso no século XIX.
O importante é que, desde o final do século XIX, hooligan virou sinônimo de torcedor que usa a violência para mostrar sua identidade e se diferenciar de rivais..
Origens medievais e surgimento do termo
O casamento entre futebol e brigas é antigo. No medievo, aldeões disputavam partidas com uma bola de bexiga de porco, regadas a muita bebida e confusões que terminavam com feridos e até mortes.
A partir do século XIV autoridades tentaram controlar o esporte violento, mas as brigas continuaram e, por volta de 1890, os conflitos passaram a ser chamados de hooliganismo.
Na década de 1960, as torcidas inglesas e escocesas se organizaram em grupos com bandeiras, hinos e hierarquias próprias, levando o hooliganismo a outro nível. Para muitos participantes, a violência passou a ser um “esporte” por si só: ganhar status dependia do número de confrontos vencidos.
Hooligans futebol: a ascensão na Inglaterra
O hooliganismo encontrou terreno fértil no Reino Unido durante as décadas de 1970 e 1980. O contexto social era de crise econômica, desemprego e descrença na política.
Para jovens das classes operárias, a identidade da sua firm (como são chamados os grupos) valia mais do que os resultados em campo.
Grupos como o Inter City Firm, ligado ao West Ham United, os Chelsea Headhunters ou os Red Army (Manchester United) organizavam deslocamentos para confrontos com rivais em estações de trem ou ruas próximas aos estádios.
Cânticos agressivos, brigas marcadas e uso de uniformes casuais viraram marcas do movimento casual, uma moda em que os hooligans deixavam de lado as cores do clube para se infiltrarem e surpreenderem os adversários.
Essa cultura teve reflexos diretos na forma como a Inglaterra era vista. A imprensa europeia noticiava as brigas com uma mistura de fascinação e repulsa, enquanto políticos se preocupavam com a reputação internacional do país.
Houve jogos da seleção inglesa em que a torcida local pedia a exclusão de torcedores britânicos.
Sem o controle que temos hoje, os estádios eram armazéns decadentes, com cercas altas para “conter” o público e poucos funcionários preparados para lidar com multidões.
O clima era de faroeste.
Tragédias que mudaram o futebol europeu
Agora que você entendeu o que é hooliganismo, veja algumas tragédias envolvendo essa legião:
Heysel 1985: o desastre provocado por hooligans
O auge da crise aconteceu em 29 de maio de 1985, no Estádio Heysel, em Bruxelas. Na final da Copa dos Campeões da UEFA entre Juventus e Liverpool, torcedores ingleses invadiram a arquibancada vizinha ocupada por italianos.
A corrida provocou um amontoado de pessoas, e um muro frágil desabou. Trinta e nove torcedores (32 italianos, quatro belgas, dois franceses e um norte-irlandês) morreram e cerca de 600 ficaram feridos.
Essa foi a tragédia de Heysel.
Hillsborough 1989: a tragédia que virou lição
Quatro anos depois, em 15 de abril de 1989, o mundo assistiu a outra catástrofe.
Na semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest, no Estádio Hillsborough, em Sheffield, 97 torcedores foram esmagados contra as grades depois que um portão de saída foi aberto para aliviar a entrada de torcedores.
Os torcedores entraram todos de uma vez no setor já lotado, os túneis não foram fechados e a polícia demorou a agir. Investigações posteriores mostraram que os erros policiais, e não o comportamento dos torcedores, causaram a tragédia.
Outros episódios violentos na Europa
A Inglaterra não é a única com casos graves. Hooligans do Fenerbahçe e do Galatasaray, na Turquia, protagonizaram batalhas campais na década de 1990. Na Itália, torcidas conhecidas como ultras adotaram linguagem paramilitar e influenciaram incidentes como a morte do policial Filippo Raciti em 2007, durante um derby de Sicília.
Em países do Leste Europeu, grupos de extrema-direita encontraram nos estádios espaço para organizar conflitos.
Hooligans filme: ‘Green Street Hooligans’
O hooliganismo ganhou as telas de cinema em 2005 com o filme “Green Street”, conhecido no Brasil como Hooligans. Dirigido por Lexi Alexander e estrelado por Elijah Wood e Charlie Hunnam, a trama acompanha Matt Buckner, um estudante americano expulso de Harvard que se muda para Londres
Lá ele conhece o cunhado Pete Dunham, membro do Green Street Elite (GSE), a firm ligada ao West Ham United. Matt é introduzido ao submundo das torcidas violentas e aprende a defender seu território nas brigas.
Para quem se pergunta “hooligans qual time?”, a resposta é West Ham. A ficção usa a rua Green Street, onde ficava o antigo estádio Upton Park, para justificar o nome do grupo e reforçar a ligação com o clube.
Hooliganismo no Brasil
No Brasil a violência está associada às torcidas organizadas. Elas surgiram entre as décadas de 1960 e 1970 com o objetivo de apoiar os clubes com faixas, baterias e caravanas. Com o tempo, algumas se envolveram em disputas territoriais e acumularam um histórico trágico.
Diferenças e semelhanças entre hooligans e torcidas organizadas
Enquanto os hooligans britânicos valorizavam o anonimato e o estilo casual, as torcidas organizadas brasileiras nasceram como braços oficiais dos clubes, com camisetas, hinos e presença institucional.
Os hooligans se organizavam em firms independentes que respondiam apenas a suas próprias regras; no Brasil, as organizadas estão vinculadas ao clube e participam de negociações com federações e polícia para organizar caravanas e áreas de arquibancada.
No entanto, ambos os fenômenos compartilham fatores sociais semelhantes: desigualdade, exclusão e sensação de pertencimento que transforma o time em extensão da identidade pessoal.
Conclusão
Entender o hooliganismo é reconhecer que o futebol sempre foi mais que um jogo: é cultura, identidade e, infelizmente, terreno fértil para disputas violentas.
Na Inglaterra, a combinação de estádios precários e grupos organizados levou a tragédias que chocaram o mundo. A resposta veio com reformas, leis severas e educação, transformando a Premier League em referência de segurança.
O filme Hooligans popularizou essa história ao mostrar o fascínio e a destruição que a violência de torcidas pode causar.

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