Tag: Craque Neto

  • O Brasil precisa abrir as janelas 

    O Brasil precisa abrir as janelas 

    Durante o Fórum Brasileiro de Treinadores, disse que torcia para que Carlo Ancelotti tivesse sorte na Copa do Mundo e, depois, deixasse o cargo para um técnico brasileiro.

    A frase foi dita num evento em que o próprio Ancelotti estava no palco, e rapidamente viralizou.
    A cena, por si só, já seria constrangedora. Mas o que veio depois foi ainda pior: Oswaldo recusou-se a pedir desculpas, disse que não falou nada de errado e reafirmou a convicção de que o comando da Seleção deve ser de um brasileiro.

    Nada contra o patriotismo, eu também preferiria que o meu selecionador de Portugal fosse, de facto, português, mas há momentos em que o patriotismo soa a medo.

    O episódio foi vergonhoso porque revelou um pensamento que ainda me choca no futebol brasileiro: o receio do que vem de fora e o medo de ser substituído.

    Foto: Reprodução / YouTube / FBTF

    Quando o orgulho vira obstáculo  

    Renato Gaúcho também já deu declarações com o mesmo tom:

    “Do jeito que falam, parece que chegaram 100 portugueses e 90 tiveram sucesso. A paciência que a imprensa brasileira tem com o estrangeiro, não tem com o brasileiro.”

    Vanderlei Luxemburgo também já tinha ido pelo mesmo caminho meses antes, dizendo que “os portugueses não inventaram o futebol moderno”.

    Essa narrativa tem um problema simples: os estrangeiros que chegaram realmente tiveram sucesso.

    Jorge Jesus transformou o Flamengo num rolo compressor e virou lenda em poucos meses.
    Abel Ferreira criou um império no Palmeiras, continua empilhando taças e está novamente numa final da Libertadores.
    Pedro Caixinha levou o Bragantino a uma classificação histórica.
    Leonardo Jardim, campeão francês com o Mónaco frente ao todo-poderoso PSG, está a brilhar num Cruzeiro que tenta renascer do caos.
    Artur Jorge foi campeão da Libertadores com o Botafogo…

    Até Vítor Pereira, tão criticado, conseguiu eliminar o Boca na Bombonera com um dos piores Corinthians de sempre.

    Não chegaram 100, e nem todos tiveram resultados.
    Sejamos honestos: não são todos bons.
    Mas os que venceram… venceram a sério.

    O espetáculo do Craque Neto  

    No meio disso tudo, o meu favorito e sempre imprevisível Craque Neto não podia ficar de fora.
    Mandou Leonardo Jardim “voltar pra sua terra” e fez do caso um show.

    E eu confesso: me entretenho muito com o Craque Neto.
    É carismático, autêntico, engraçado, mas às vezes passa-se da cabeça.

    E quando a paixão ultrapassa a razão, o debate perde-se.
    Jardim não desrespeitou o Brasil. Pelo contrário: quis vê-lo melhor.

    A ironia do destino

    É curioso notar que, entre tantos nomes, talvez o melhor técnico brasileiro da atualidade seja Filipe Luís, e ele é um produto da escola europeia.
    Aprendeu tática, estrutura e mentalidade no Velho Continente.

    É quase poético: o futuro dos tecnicos brasileiros seja um gajo moldado em Madrid e Londres.

    O que isso mostra?
    Que o intercâmbio é necessário.
    Que ninguém evolui trancado na própria bolha.

    E sabem quem entendeu isso muito bem? A Arábia Saudita.

    Sergio Conceição e Jorge Jesus - Técincos de Al Itthiad e Al Nassr - Foto retirada de : CNN Portugal

    O risco do isolamento  

    A Arábia está a crescer, claro, com dinheiro infinito, mas o que realmente faz diferença é a estratégia.

    Eles vão buscar o conhecimento dos melhores, contratam técnicos de ponta, montam estruturas modernas e aprendem todos os dias.

    E não duvidem: em breve vão surgir grandes talentos árabes, tanto dentro das quatro linhas como a comandar.

    No sentido oposto está a Rússia.
    Claro que a guerra os tirou do mapa, mas mesmo antes disso a liga russa já vivia algo semelhante ao que se vê hoje no Brasil.

    Era uma das mais ricas do mundo, tinha jogadores talentosos — obviamente, menos artísticos, mais objetivos — e estádios de primeiro nível.
    Mas fechou-se.

    Recusava treinadores estrangeiros e os jogadores quase não saíam do país.

    Resultado: estagnação.

    Abrir as janelas  

    O futebol brasileiro tem uma das torcidas mais apaixonadas do mundo, estádios cheios e clubes com poder financeiro cada vez maior.
    Mas ainda falta algo essencial: abrir as janelas e deixar o vento entrar.

    Importar ideias não é perder identidade, é fortalecê-la.
    E, felizmente, já há sinais de mudança.

    Os clubes brasileiros e a CBF já estão a abrir os olhos, a olhar para fora, a buscar referências, a aprender.

    Quem ainda está revoltado são os técnicos, e é normal.
    Quando se muda uma cultura, há sempre resistência.
    Mas o que importa é que a mudança começou.

    O problema não é a nacionalidade. Até porque os portugueses, de facto, não inventaram o futebol moderno como diz o Luxemburgo mas tiveram a capacidade de querer aprender com quem traz algo novo.

    E, sinceramente, se for pra evoluir, que venham mais estrangeiros.
    Tanto o futebol brasileiro e o português só têm a ganhar.

    O técnico do Porto, é Francesco Farioli, um italiano que vai em primeiro na classificação.

    É cíclico.

    E eu prometo continuar assistindo o Craque Neto, só pra rir um pouco no meio do caos.

    Se algum dia ler isto, Neto, me convide para o Donos da Bola.

  • Bem-vindo ao Brasil, Leonardo Jardim  

    Bem-vindo ao Brasil, Leonardo Jardim  

    Leonardo Jardim se revoltou numa coletiva e fez críticas duras ao desempenho da equipa de arbitragem. Mas o meu artigo não é sobre o árbitro, até porque eu nem vi o jogo. É sobre a mensagem que o técnico quis deixar.

    O treinador disse algo importante, que vai muito além de uma decisão de arbitragem. Falou de um sistema e de um contexto. Disse que, na opinião dele, o Brasileirão dificilmente chegará ao top cinco mundial. E eu concordo.

    Eu já escrevi isso antes, o potencial é enorme, talvez o maior do mundo fora da Europa. A paixão pelo futebol no Brasil é algo que me deixa louco. Está na minha lista de coisas a fazer antes de morrer, assistir a um Grenal, a um Corinthians contra Palmeiras ou a um jogo em São Januário. O Brasil vive o futebol de uma forma que nenhum outro país vive, mas a estrutura não acompanha.

    Talento, por si só, já não basta  

    Eu já falei em “lixo visual” nos estádios, nos gramados sintéticos e em outros que mais parecem campos de batatas. E, em 2025, isso ainda faz sentido?

    Enquanto não houver um sindicato que defenda os jogadores, enquanto o número absurdo de jogos e os campeonatos estaduais não forem repensados, o Brasileirão continuará sendo o maior desperdício de talento do mundo.

    Ver um jogo do Palmeiras ou do Flamengo na televisão não tem nada a ver com assistir a uma partida da Premier League. E eu não digo isso por qualquer complexo de superioridade, o campeonato português também tem muito a melhorar. A diferença é que, em Portugal, há uma preocupação, ainda que pequena, com a forma como o produto é apresentado. No Brasil há paixão e emoção como em nenhum outro lugar, mas falta organização, critério e planejamento.

    O bairrismo português é forte no Norte. No Brasil qualquer equipa tem casa cheia. E é por isso que dói ver tanto potencial travado.

    Craque Neto entendeu mal  

    Craque Neto, essa personalidade que eu adoro, tanto me diverte como me irrita profundamente, respondeu da pior forma. Mandou Jardim embora, perguntou “quem é você?” e atacou de forma grosseira. Sinceramente, o que seria se fosse o contrário? Se fosse um português a mandar um brasileiro “de volta para a tua terra”? Abriria os noticiários.

    Mas Neto interpretou mal a crítica. Jardim não desrespeitou o Brasil, pelo contrário, respeitou-o tanto que quis vê-lo melhor. O que ele disse é que o Brasileirão precisa valorizar-se como produto, porque tem torcidas apaixonadas, talento infinito e dimensão continental. E nisso ele está completamente certo.

    Abel Ferreira vem avisando  

    Abel Ferreira tem sido o porta-voz dessa luta desde que chegou. Critica o calendário, defende a profissionalização da arbitragem e pede melhores condições. É ridicularizado por isso, assim como agora Jardim. Mas a verdade é que eles são aliados do futebol brasileiro, até porque o interesse é mútuo. São técnicos que vêm de uma cultura onde o planeamento é fundamental e que encontraram um ambiente onde o improviso ainda manda.

    E o Brasil, com o tamanho e a paixão que tem, pode e deve ambicionar mais.

    Temos de aprender uns com os outros  

    Eu entendo a reação. Os brasileiros, nisso, são como nós, portugueses, não gostam de ouvir críticas sobre o próprio país. Só as aceitam quando vêm de dentro. “Só nós é que podemos falar mal de nós próprios!”

    Jardim não veio ensinar nada. Veio lembrar que o Brasil já tem tudo para ser top cinco. Só falta entender que a paixão precisa de estrutura e que o talento, por si só, já não é suficiente.

    O problema não é a nacionalidade. O problema é não querer ouvir quem quer ajudar.

    Dito isso, se me arranjarem umas cervejas e um ingresso para um jogaço, contem comigo, ahahah.