Tag: Opinião

  • A discussão da Taça da Liga e a ilusão ibérica

    A discussão da Taça da Liga e a ilusão ibérica

    A discussão levantada na recente Cimeira de Presidentes sobre a extinção da Taça da Liga não deve ser vista, de forma simplista, como um ato de arrogância dos clubes grandes. Pelo contrário, trata-se de um grito de sobrevivência em meio a um calendário que perdeu qualquer contato com a realidade fisiológica dos atletas. A proposta de acabar com a competição, defendida por Benfica e FC Porto, é a única saída racional para um futebol português que está a sufocar sob o peso de jogos irrelevantes e lesões acumuladas.

    Defender a permanência da Taça da Liga no formato atual é ignorar a matemática do desgaste. Com o inchaço das competições europeias promovido pela UEFA e o novo formato do Mundial de Clubes da FIFA, não há mais datas disponíveis.

    Manter um torneio que, sejamos honestos, oferece prêmios financeiros irrisórios se comparados aos custos operacionais e ao risco de perder jogadores importantes por lesão, é um erro estratégico.

    A competição tornou-se um fardo para todos: para os grandes, que precisam rodar o elenco e desvalorizam o produto, e para os menores, que muitas vezes pagam para jogar, sem o retorno de visibilidade prometido em fases preliminares arrastadas.

    A saturação mata o espetáculo

    O argumento de que a extinção fere a democracia do futebol cai por terra quando analisamos a qualidade do jogo. Um calendário saturado resulta em partidas de baixo nível técnico, com atletas exaustos e times desfigurados. A verdadeira defesa do futebol português passa por valorizar o Campeonato e a Taça de Portugal, garantindo que estas competições tenham os melhores jogadores em campo, nas suas melhores condições físicas.

    A Taça da Liga, criada para preencher lacunas de calendário que já não existem, cumpriu o seu papel, mas hoje é um obstáculo à excelência. Insistir na sua continuidade é prezar pela quantidade em detrimento da qualidade, uma lógica que transformou o mês de janeiro em uma maratona absurda que, ao final, não traz benefício estrutural real para nenhum clube, seja ele de topo ou de meio de tabela.

    A verdadeira elitização: a ameaça espanhola

    Se há elitismo e ganância nesta história, eles não residem no pedido de extinção da prova, mas sim nas alternativas «criativas» que foram ventiladas nos bastidores recentemente. A proposta de transformar a Final Four numa espécie de «Taça Ibérica», convidando clubes espanhóis para disputar o troféu em solo português, é o verdadeiro atentado à integridade do nosso esporte.

    Essa ideia, que visa apenas gerar receitas televisivas artificiais e agradar a patrocinadores, é a prova cabal de que o dinheiro estava a tentar sequestrar a identidade do futebol nacional. Trazer o Real Madrid ou o Barcelona para «salvar» a Taça da Liga seria admitir que o futebol português não se sustenta sozinho. Isso sim seria elitização: criar um torneio de exibição para uma plateia VIP, ignorando o mérito esportivo local em prol de um show business internacionalizado.

    Portanto, acabar com a Taça da Liga não é um ato de egoísmo; é um ato de saneamento. O futebol português precisa de menos jogos para ter melhores jogos. É hora de deixar a competição ir, fechando a porta a invenções ibéricas que serviriam apenas para encher os bolsos de organizadores, enquanto os jogadores portugueses continuariam a pagar a conta com a própria saúde.

  • Árbitros e jogadores apostadores na Turquia: mais uma crise de integridade no futebol?

    Árbitros e jogadores apostadores na Turquia: mais uma crise de integridade no futebol?

    Na última segunda-feira (10), todos nós que gostamos de futebol fomos pegos de surpresa por uma notícia da mídia internacional. A Federação Turca de Futebol (TFF) revelou que 1.024 jogadores de várias divisões do futebol turco foram encaminhados a um comitê disciplinar por ligação com as “bets”. E o escândalo não parava por aí. Informações alarmantes haviam sido divulgadas anteriormente também pela TFF: dos 571 árbitros vinculados às ligas profissionais, surpreendentemente 371 possuem contas em plataformas de apostas esportivas, e 152 ainda apostam ativamente.

    Claro que houve prisões preventivas e suspensões. Inclusive, o presidente de um clube da primeira divisão também foi detido durante as investigações. Um jogador que seria convocado para a seleção teve seu nome retirado da lista por estar envolvido nas acusações. Um verdadeiro terror para a reputação e tradição do futebol do país.
    E, quando acontecem coisas dessa magnitude, é inevitável que uma sementinha seja plantada na nossa cabeça: será que eles são os únicos?

    No Brasil, tivemos casos isolados de jogadores que se envolveram de alguma forma com apostas esportivas, sendo a manipulação de resultados para ganhos próprios ou de pessoas próximas a pior delas. Internacionalmente falando, lembro do recente caso do então atacante do Brentford, Ivan Toney, que foi banido da Premier League após 262 acusações de envolvimento com apostas esportivas, tendo inclusive apostado várias vezes contra o próprio time.

    Se pararmos para pensar, a constante presença das apostas nos esportes se tornou algo quase natural. Os patrocínios estampam uniformes, os comerciais passam durante os jogos, e as casas de apostas são hoje grandes parceiras financeiras de clubes e competições. Mas, ao mesmo tempo, esse crescimento descontrolado trouxe uma nova zona cinzenta: até onde vai a influência do dinheiro das “bets” dentro de campo?

    Acho que o escândalo na Turquia é um alerta para todos nós. Quando dirigentes, árbitros e jogadores acessam esse universo das apostas, o jogo em si deixa de ser apenas bola, e toda a credibilidade do esporte é colocada em pauta. Nós, como torcedores, deixamos de acreditar na autenticidade dos resultados e desfechos alcançados.

    A confiança, que deveria ser a base principal do futebol, começa a ruir quando paira a dúvida sobre se um pênalti foi marcado por erro, por pressão ou simplesmente por interesse financeiro. As regras são muito claras: estes profissionais não deveriam estar direta ou indiretamente envolvidos em apostas esportivas, já que há um evidente conflito de interesses.

    É importante deixar claro que o problema não são as “bets” em si, mas sim a falta de controle, de fiscalização eficaz e de limites éticos por parte dos envolvidos. Precisamos de ações mais firmes e coordenadas entre os organismos responsáveis por garantir o funcionamento correto das atividades esportivas. Não podemos chegar a um ponto em que situações como a que acontece hoje na Turquia se tornem rotina, em vez de exceções.

    Eu amo o futebol e quero que esse esporte continue sendo paixão, imprevisibilidade e emoção genuína. Quando o resultado começa a ser manipulado por outras intenções, ele perde a sua beleza e o seu sentido. Espero que esse caso turco sirva como um lembrete a todos nós: se o dinheiro das apostas continuar ditando as regras, o verdadeiro significado do futebol estará perdido e poderá ser substituído por pura ganância e transações suspeitas.

  • Brasil, aluno: o incômodo de aprender com quem vem de fora

    Brasil, aluno: o incômodo de aprender com quem vem de fora

    Na última terça-feira (04/11), durante o 2º Fórum Brasileiro de Treinadores, Oswaldo de Oliveira e Emerson Leão deram o que falar. Ambos, nomes bem conhecidos no meio do futebol nacional, fizeram declarações um tanto polêmicas sobre o novo técnico da Seleção Brasileira, o italiano Carlo Ancelotti. Dentre as muitas questões que levantaram, a indignação de que o Brasil precise realmente recorrer a um profissional estrangeiro foi a mais comentada nos últimos dias.

    Muitos treinadores no Brasil se solidarizaram com a situação e rapidamente ligaram para o Mister, mostrando empatia e deixando claro que aquela fala não representava o pensamento de todos os brasileiros. Outros foram além e classificaram as declarações daquelas personalidades como “infelizes”. Ver toda essa situação me levou a uma reflexão que, com muito carinho, compartilho hoje com vocês.

    Como alguém que ama o futebol e consome diariamente material sobre esse esporte fascinante, sei que essa polêmica é antiga — e acabou ganhando força nos últimos anos. E não é por acaso: se formos olhar hoje para o melhor time de futebol do Brasil (na minha humilde opinião), o Palmeiras, veremos que ele é comandado há cinco anos pelo mesmo treinador — o estrangeiro Abel Ferreira. Líder do Campeonato Brasileiro, finalista da Libertadores, o Palmeiras de Abel é um sucesso inegável. E então surge a pergunta: afinal, por que tantos se incomodam com a presença de técnicos estrangeiros no Brasil? Ainda mais depois de esse caminho ter se mostrado tão promissor?

    E aí vem o ego. Sim, caros leitores, vocês leram bem. Para nós, foi como um choque de realidade perceber a necessidade de buscar talentos lá fora, porque simplesmente o que os brasileiros ofereciam estava “ultrapassado” e “pouco competitivo”. Na tentativa de recuperar o prestígio internacional, o professor agora precisava se tornar aluno — e isso, acredito, doeu de uma forma diferente em algumas pessoas. É como se estivéssemos “admitindo inferioridade” de alguma forma, já que não conseguíamos mais resolver esses desafios sozinhos.

    Para alguns, é difícil ser humilde quando se é o maior vencedor de Mundiais e se revelam estrelas que valem milhões todos os anos. É mais difícil ainda entender que o modelo antigo não funciona mais, que precisamos modernizar, evoluir. E essa modernização passa também pela aceitação desses treinadores de fora, que chegam com ideias e métodos diferentes.

    Em vez de enxergar os estrangeiros como inimigos, deveríamos vê-los como espelhos que refletem o quanto o nosso futebol precisa se reinventar. Muitos dos nossos técnicos são resistentes simplesmente porque evitam a atualização e a autocrítica em nome de um “patriotismo” que, no fundo, esconde o medo do novo.

    O futebol brasileiro sempre foi plural, criativo e aberto. Negar o intercâmbio de ideias é trair justamente essa essência. Talvez o problema não seja termos um Ancelotti na Seleção — mas não termos um brasileiro que, hoje, esteja no mesmo patamar.

    Fico sempre na esperança de que técnicos novos, como Filipe Luís, do Flamengo, representem essa nova geração de treinadores abertos a ensinar e aprender com aqueles que vêm de fora — na tentativa de elevar o nível de competitividade do futebol brasileiro e, quem sabe, fazermos parte também das opções de outros países.

  • Clube do Remo e o sonho de voltar à elite do futebol brasileiro

    Clube do Remo e o sonho de voltar à elite do futebol brasileiro

    Sem muitos rodeios, da mesma forma que o Mirassol vem surpreendendo a todos com sua campanha fantástica na Série A, esse papel é facilmente atribuído ao Clube do Remo, se formos considerar a Série B. O Leão Azul é de Belém do Pará (minha cidade natal) e vem fazendo história em uma campanha extraordinária, de deixar qualquer time com inveja. Apesar de torcer para o Paysandu SC (o maior rival do Remo), não poderia deixar de elogiar essa formação que está superando todas as expectativas possíveis.

    São três décadas que os azulinos não sabem o que é jogar na Série A do Campeonato Brasileiro. E, se formos olhar para o Remo dos últimos cinco anos, fica ainda mais evidente a trajetória de sucesso e superação que esse time vem traçando para deixar esse passado para trás de uma vez por todas. Em 2024, estavam disputando a Série C e conseguiram o acesso. Todos esperavam uma participação mediana no Brasileirão Série B 2025 — o que normalmente vemos no primeiro ano dos times que sobem — e, para a nossa surpresa, a equipe de Guto Ferreira vem entregando muito mais do que uma campanha “água com sal”.

    Terceiro colocado no G-4, com 57 pontos (apenas três a menos que o líder Coritiba), o Remo não apenas tem chance de subir, mas também de ser campeão nesta temporada. Está entre os três principais ataques da competição, com 45 gols marcados. E, de repente, contra toda a lógica tradicional com que estamos acostumados no futebol de elite, o Remo aparece gigante — numa campanha apaixonante, construída com muita dedicação e esforço por toda a equipe e pelos fãs.

    Clubismos à parte, torço para que o Remo consiga o acesso. Quero ver o futebol amazônico mais uma vez no topo. Somos apaixonados por esse esporte e merecemos ser mais reconhecidos por isso. O Leão ainda vai nos emocionar muito nas rodadas finais, precisando apenas de duas vitórias para garantir a vaga matematicamente. Seria um presente de 120 anos mágico, que todos esses torcedores fiéis merecem.