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  • O futebol não é um teatro – e a Alemanha está a mostrar isso ao mundo  

    O futebol não é um teatro – e a Alemanha está a mostrar isso ao mundo  

    A Alemanha vive neste momento um dos maiores confrontos políticos e culturais do futebol moderno. Medidas como bilhetes nominais, vigilância com inteligência artificial, reconhecimento facial e interdições de adeptos mesmo sem condenação estão prestes a ser discutidas na Conferência de Ministros do Interior. A reação foi imediata. Pela primeira vez em muito tempo, adeptos de clubes rivais marcharam lado a lado nas ruas de Leipzig para defender aquilo que dá vida ao futebol: a cultura de apoio.
    Estamos a falar de grupos de clubes que não partilham absolutamente nada entre si — Bayern, Hamburgo, Dortmund, Nuremberga, Dresden, Frankfurt e muitos outros — todos a marcharem juntos por um objetivo comum. Um cenário impossível em quase qualquer outro país.

    E, honestamente, isto diz muito sobre a diferença de mentalidade entre os alemães e o resto da Europa.

    Sempre ouvi dizer que “o futebol é o desporto do povo”. Para mim, enquanto miúdo, o que me fascinava não era apenas a bola. Eram as faixas enormes, os cânticos, os fumos de cor que davam alma a cada lance. Era ver uma cidade inteira a torcer pelos seus. Hoje, em Portugal, essa alma está a ser apertada pelas regras, proibições e burocracias. Parece que querem transformar os estádios num teatro. E teatro, se quiser, vou ao Coliseu do Porto ver uma peça. Não ao Dragão ou à Luz.

    Na Alemanha, pelo contrário, a pirotecnia é legal e controlada. É usada de forma responsável e dialogada entre grupos, clubes e estruturas. Não é tratada como crime, mas como expressão cultural. O resultado é visível: coreografias incríveis, ambiente vibrante e uma relação adulta entre adeptos e autoridades. E o que me deixa ainda mais estupefacto é isto: quando vemos uma grande coreografia lá fora, achamos lindo; quando vemos uma receção argentina com fogo de artifício e pyro, elogiamos o “ambiente incrível”. Mas cá, se alguém acender um simples fumo, é crime. Lá fora é festa, cá dentro é terrorismo ahah.

    E que fique claro: ninguém está a dizer que a violência não é um problema. Claro que é. Só acho que há formas de controlar comportamentos sem destruir o espetáculo, e muito menos acabar com a cultura que torna o futebol especial.

    Enquanto isso, em muitos países europeus, a regra é simples: quanto mais proibir, melhor. Pyro? Crime. Faixas? Suspeito. Apoio organizado? Problema.

    O mesmo acontece com a cerveja nos estádios. Em Portugal é proibida, como se isso impedisse alguém de entrar já alcoolizado. Todos sabemos que não impede. A única coisa que impede é receita, experiência e normalidade. Na Alemanha, beber uma cerveja enquanto se vê futebol é algo tão natural como respirar. E, curiosamente, não é lá que a violência explode. Talvez porque tratam os adeptos como adultos e não como potenciais delinquentes.

    Até os gigantes europeus são vítimas desta “higienização” moderna. Real Madrid e Barcelona já não têm claques como antigamente. Resultado: estádios bonitos, modernos, confortáveis e… sem alma. Ambientes mornos. Jogos grandes com público que parece estar numa conferência. Se me oferecerem bilhetes para ver o Real Madrid ou o Dynamo Dresden, vou para Dresden sem pensar duas vezes. Não conheço os jogadores, mas conheço a cultura. E é a cultura que faz o futebol vibrar.

    Época 23/24 – SG Dynamo Dresden vs. Hallescher FC – Foto de: ultras-dynamo.de

    Em Portugal, mesmo os grupos legalizados enfrentam limitações atrás de limitações. Material, entradas, policiamento, burocracia. E depois ficamos chocados quando os estádios parecem bibliotecas. Agora imaginem as três maiores claques portuguesas — Super Dragões, No Name Boys e Juve Leo — a marcharem juntas, como aconteceu na Alemanha. Só de pensar já parece ficção científica. Lá, a mentalidade é outra. Antes da rivalidade, está a defesa dos direitos.

    No Brasil ainda existe muito da liberdade que a Europa perdeu. Mas deveriam olhar bem para o que está a acontecer aqui. Nem tudo o que a Europa faz é exemplo. Este controlo excessivo, esta criminalização da cultura de apoio e esta tentativa de transformar futebol em espetáculo silencioso é um erro gigante. Regras? Sim. Responsabilização? Claro. Agora, vigilância facial, interdições sem condenação e destruição de tudo o que faz dos estádios lugares especiais? Isso mata o jogo.

    Ontem estive no Portugal–Arménia. Um 9-1 que deveria ter sido uma festa. À minha volta, turistas e famílias caladas. Zero cânticos, zero pressão, zero emoção. Já assisti a funerais com mais ambiente. E o futebol é para todos, claro. Mas quem faz o espetáculo tem de poder fazê-lo. Sem cultura de adeptos, não há alma. Sem alma, não há futebol.

    E já agora, uma confissão para terminar: ao ritmo a que isto vai, qualquer dia a única coisa permitida nos estádios vai ser respirar… mas só até ao minuto 30. Depois disso, “por razões de segurança”, teremos de manter o ar nos pulmões.

    Se chegarmos a esse ponto, eu aviso já: fico a ver o jogo no café. Ao menos lá há cerveja e ninguém me pede documentos para a levantar.

  • Familiares de vítimas do incêndio no Ninho do Urubu protestam contra absolvição dos réus

    Familiares de vítimas do incêndio no Ninho do Urubu protestam contra absolvição dos réus

    Decisão tomada pelo Juiz Tiago Fernandes Barros absolveu os denunciados pelos crimes de incêndio culposo e lesão corporal grave na tragédia.

    A absolvição dos sete réus pelos crimes de incêndio culposo e lesão corporal grave no incêndio no Ninho do Urubu, dada na sentença do Juiz Tiago Fernandes Barros, está causando muita polêmica! Os familiares das vítimas não estão satisfeitos com a decisão do incidente que ocorreu em 2019 e que matou dez jovens jogadores.

    Divulgação/Afavinu/JC

    O magistrado apresentou como argumentos a impossibilidade de individualizar condutas técnicas ou estabelecer nexo penalmente relevante entre os atos cometidos pelos réus e as mortes dos adolescentes. Apesar da decisão, vale lembrar que este caso ainda pode ir a recurso.

    A Associação que representa os familiares das vítimas (Afanivu) publicou uma nota reprovando a sentença dada, explicando que a decisão tomada «enfraquece o sistema de proteção à vida de menores em instituições esportivas».

    «A absolvição dos acusados, sob o argumento de que não se conseguiu individualizar condutas técnicas ou provar nexo causal penalmente relevante, renova em nós o sentimento de impunidade”, afirma o texto da associação.

    Gilvan de Souza / Flamengo

    Recordando que no momento do acidente os adolescentes dormiam em contêineres adaptados e sem alvará de funcionamento, os familiares alertam para a contribuição do ambiente para a gravidade do incêndio, visto que o espaço tinha janelas gradeadas e fortes indícios de falhas elétricas.

    «Seguiremos em busca de Justiça e na esperança de que a decisão seja revista. A vida dos nossos filhos tem um valor irreparável. Em memória aos 10 garotos inocentes, lutaremos até o fim por uma Justiça efetiva. Queremos Justiça capaz de inibir novos delitos com sentenças que protejam as vítimas, e não os algozes».

    Lembre-se que os réus absolvidos são Márcio Garotti, diretor financeiro do clube entre 2017 e 2020; Marcelo Maia de Sá, então diretor-adjunto de patrimônio; Danilo Duarte, Fabio Hilário da Silva e Weslley Gimenes, engenheiros e envolvidos na execução dos contêineres; Claudia Pereira Rodrigues, dos contratos com a empresa dos módulos habitacionais; e Edson Colman, sócio da empresa encarregada da manutenção dos aparelhos de ar condicionado.